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19/12/2007 - 07h58

PMs falavam que aquilo era normal, diz mãe

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TALITA BEDINELLI
da Agência Folha, em Bauru

A mãe do adolescente morto no sábado, Elenice Silveira Rodrigues, 49, diz que ouviu o filho gemer, dentro do quarto, enquanto era interrogado pelos policiais militares que entraram em sua casa. "Eles falavam que [o que estava acontecendo no quarto] era um procedimento normal da lei. Mas ouvia meu filho gemendo."

Ela afirma ter certeza de que o filho foi torturado. "O que eles fizeram foi muita brutalidade, foi bárbaro. Tenho certeza de que torturaram. Eu vi no velório, os dedos quebrados."

Com a voz pausada, ela descreve como foi a noite em que seis policiais entraram em sua casa e carregaram pela porta Carlos Rodrigues Júnior, o caçula de 15 anos, já desfalecido. "A gente estava dormindo. Por volta de umas 3h eles bateram na porta com muita violência e gritaria. Um ficou na sala com a gente e outros cinco foram para o quarto e fecharam a porta." Ela diz não ser verdade a versão do advogado do tenente José Roberto Spoldari, de que apenas dois soldados permaneceram no quarto o tempo inteiro.

"Eles [os policiais] perguntavam: "cadê a arma, vagabundo, cadê o capacete?". Ouvi muitos barulhos de batidas e ele dizia: "não sei, senhor"."

Na casa, vive ainda a filha Débora Rodrigues, 26, que olhou no relógio do celular no momento em que os policiais levaram o irmão para o hospital, às 4h11. Elas afirmam, ao contrário do que o advogado de defesa do tenente diz, que os policiais permaneceram por volta de uma hora no local.

Carlos, que deixou a escola na 4ª série, voltaria a estudar no ano que vem, diz a mãe. "Ele tinha dificuldade de aprender, ficou três anos na quarta série. E como ele era muito alto e magro acho que ficou com vergonha e não quis continuar."

Ela conta que, no início deste ano, se matriculou na escola com ele para estimulá-lo a continuar os estudos. Toda noite, os dois iam à escola juntos e depois faziam o dever de casa. "Ele estava indo bem", diz. Mas, como a mãe tinha que faltar para ajudar a filha, que trabalha com costura, ele desistiu.

"Se eu faltava, ele faltava também. Aí não consegui ir mais por conta do trabalho e parei", diz a mãe, apontando a máquina de costura no canto da sala. "Tinha convencido ele, a gente ia voltar no ano que vem e depois fazer o supletivo."

Ela diz que o filho nunca teve passagem pela polícia e que não tinha envolvimento com droga. Elenice ressalta que, junto com a filha mais velha, tinha feito uma faxina na casa na sexta-feira e olhado bem as coisas dele. "Não vimos nada. Se tinha droga aqui, não sabemos onde."

Elenice confirma que o filho levou para casa uma moto na noite de sexta-feira. "Por volta das 23h escutei um barulho de moto. Ele disse que a moto era de um colega dele e que eles iam sair para dar uma volta na avenida e depois ele pegava."

Ela diz que nunca teve medo de policial. "Achava que eles eram cumpridores do dever deles. Nunca vi policiais com maus olhos. Agora peguei medo", diz, olhando para as mãos.

 

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