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04/01/2004 - 06h40

Uma sanfona para São Paulo

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SÉRGIO DÁVILA
da Folha de S.Paulo

Ele nasceu em Veneza, é autor da música mais conhecida do Pantanal, criou o hino do 4º Centenário de São Paulo e do "4º Centenário e Meio", é considerado um dos sanfoneiros mais importantes do Brasil, poderia ter sido o avô de Sandy e Junior e, de quebra, mexeu seus pauzinhos para ser enterrado ao lado de seu ídolo maior, a marquesa de Santos.

Teve razão a Prefeitura de São Paulo ao decidir dar uma comenda a Mário Zan na cerimônia da virada 2003/2004, já como parte das comemorações dos 450 anos da cidade: aos 83 anos, o acordeonista, com suas contradições e multiatividades, é o retrato definido da cidade, um paulistano mais do que honorário.

Ao começo da história, então, conforme conta à Folha agora este senhor de voz profunda e olhos tristes que preferiu dar entrevista na Redação em vez de em sua casa, no prédio da esquina da avenida São João com a praça Júlio Mesquita que um dia já foi loja do Mappin --na portaria do jornal, uma senhora de seus 60 e poucos anos o reconheceu e cobriu-o de elogios; saiu com um CD autografado. "Ela disse que era minha fã há 50 anos."

Tudo na vida de Mário Zan é contado em décadas ou metades de século, como se verá.

Moleque da sanfona

Mário João Zandomeneghi é italiano de Veneza, onde nasceu em 1920. Quando tinha quatro anos, seus pais o trouxeram para o Brasil. Seu José trabalhava em olaria e vinhedo, dona Ema era "do lar"; foram morar em Santa Adélia, perto de Catanduva (SP). Aos 12 anos, já tocador de acordeão bom o suficiente para ganhar a alcunha "Moleque da Sanfona", mudou-se para as imediações do Museu do Ipiranga.

Os anos seguintes --como vizinho de nomes tão ilustres quanto D. Pedro 1º e Santos Dumont-- de certa maneira marcaram sua vida. Das capas dos discos, que quase sempre trariam uma referência ao bairro, aos temas de músicas. "Quando chegamos era tudo mato à volta e no meio o museuzão, imponente", lembra. "Morávamos numa casinha, eu e sete irmãos e meus pais."

Aos 13, estreou como sanfoneiro profissional. Desde então, os números são eloquentes: nos 70 anos seguintes, comporia cem músicas (das quais pelo menos um terço seria regravado por gente como Roberto Carlos e Almir Sater), registraria 200 canções, 300 discos de 78 rotações, 110 LPs e mais de 50 CDs. "Comecei gravando em cera, ali onde era a gravadora Continental, na praça Pérola Byington", afirma. "De lá para cá, gravei em tudo que foi meio que foi inventado, do compacto simples ao disco digital."

O primeiro meio de comunicação que conheceu sua sanfona foi o rádio --Mário Zan é pré-televisão. Foi na Record, quando a emissora ficava na esquina da rua Quintino Bocaiúva com a rua Direita, no centro, no mesmo prédio onde depois a editora de músicas Irmãos Vitale fez sua sede. "Entrei para pedir para tocarem minhas músicas, saí de lá 33 anos depois, esse tempo todo empregado com carteira registrada."

Nessa época, um locutor ouviu a batida inconfundível de Zan nos teclados e ficou encantado. Em seu programa de rádio do Rio de Janeiro, deu a bronca: "Enquanto nós cariocas ficamos babando para os gringos, ouvindo música estrangeira e imitando, existe um sanfoneiro em São Paulo que faz verdadeira música brasileira". O nome do locutor era Ary Barroso (1903-1964), o criador de "Aquarela do Brasil".

"Nova flor"

Um de seus maiores sucessos até hoje é "Nova Flor", mais conhecida como "Os Homens Não Devem Chorar" ("Dizem que um homem/ Não deve chorar/ Por uma mulher/ Que não soube amar"), gravada por pelo menos 200 intérpretes em toda a América Latina (há uma versão em espanhol mais conhecida do que a original) mais países da língua inglesa (""Love Me Like a Stranger") e até na Alemanha, onde Howard Carpendale a "eternizou" na língua de Goethe.

Mas Mário Zan talvez fique para sempre conhecido como o sujeito que compôs o hino dos 400 anos de uma cidade e meio século mais tarde criou uma música em homenagem aos 450 anos da mesma cidade --São Paulo, claro. Além do feito cronológico, "Quarto Centenário" é também um "case" que a indústria fonográfica nacional gosta de contar.

Com 10 milhões de cópias até hoje, o disco em 78 rpm com o hino vendeu mais exemplares em 1954 do que havia vitrola no Brasil. Só nos primeiros meses, foram 1 milhão de bolachas da música, que começa com ""São Paulo, meu São Paulo, São Paulo quatrocentão", com sanfona --óbvio-- e uma marcação forte de baixo-tuba. "Fazia um "pom", "pom" que pegou logo."

Zan tinha 33 anos então e nem sonhava em estar por aqui nos 450 anos. "Mas, já que eu estava, e já que esta cidade me deu tanto, resolvi arriscar e fazer outro hino." A música não foi adotada oficialmente, mas valeu da prefeitura um convite para que o sanfoneiro recebesse o título de cidadão honorário na virada de 2003 para 2004, em cerimônia na avenida Paulista. E outro CD, que já está à venda.

O curioso é que não é de São Paulo que vem o grosso de seu faturamento, mas de umas terras encharcadas bem longe daqui. No caso, o Pantanal mato-grossense, onde Mário Zan é tratado como o Luiz Gonzaga do atoleiro. Sua "Asa Branca" é "Chalana", hino nacional da região, que ganhou o resto do país em 1990, ao virar tema da novela "Pantanal", da extinta TV Manchete.

"Lá vai uma chalana/ Bem longe se vai/ Navegando no remanso/ Do rio Paraguai", começam os versos, referindo-se às pequenas embarcações típicas do lugar. Na verdade, quando compôs a música, em 1940, em parceria com Arlindo Pinto, o sanfoneiro nunca tinha colocado os pés ali, o que só veio a fazer anos e anos depois, já em excursões que levavam multidões a seus shows.

A fama lhe valeu, nos anos 50, um namoro arrebatador com uma bonita menina da região, que durou seis anos e acabou deixando saudade, pelo menos em Zan. Pois a moça era dona Mariazinha, que viria a se casar com o cantor sertanejo Zé do Rancho; os dois teriam Noely, que se casaria com Xororó e geraria Sandy Leah Lima e Durval de Lima Júnior. "Se o mundo não tivesse dado voltas, eu poderia hoje ser o avô de Sandy e Júnior", brinca.

Não que ele se queixe. Segundo números publicados em reportagem do site de economia InvestNews, em 2002, que o próprio fez questão de não negar nem confirmar, Mário Zan vende em média 600 mil discos por ano, a maioria durante as festas juninas; faz entre cinco e seis shows por mês, a R$ 5 mil cada um; e recebe entre R$ 500 e R$ 600 por mês de direitos autorais. "Isso é uma miséria, culpa da roubalheira que domina este nosso mercado", reclama.

Marquesa de Santos

Mas nada parece tirar do sério o suave sanfoneiro, casado pela terceira vez, pai de três filhos e duas filhas, exceto o assunto marquesa de Santos, ao qual se dedica há cinco anos. ""É uma injustiça a fama que essa mulher tem no Brasil", exalta-se. "Ela foi uma alma pura, que antes de morrer doou toda a riqueza que tinha, dividiu os bens entre seus escravos e a cidade de São Paulo, não dá para ela entrar para a história como "amante de dom Pedro 1º"."

Lendo um livro sobre a vida de Domitila de Castro Canto e Mello (1797-1867), a polêmica marquesa de Santos, que teve um "affaire" com o então imperador do Brasil, Mário Zan descobriu que ela estava enterrada no cemitério da Consolação. Resolveu visitar o túmulo. "Cheguei lá, estava tudo em petição de miséria, tinha despacho de macumba, pichação, muito lixo e até um pé de milho!", espanta-se. "Mandei limpar tudo, reformar a lápide e pago uma pessoa para ir lá toda a semana conservar e trocar as flores."

O próximo passo seria realizar um novo sonho: achar um túmulo à venda próximo ao da marquesa. "É que, desde que eu fiz isso por ela, minha vida mudou para melhor", revela, místico. Não foi fácil. Disputado, o cemitério, cujo terreno aliás foi doado pela própria Domitila, aloja os restos de gente como Monteiro Lobato e Mário de Andrade.

Até que um amigo de um amigo conseguiu: um lugar bem em frente ao da marquesa, na quadra 1, na rua principal, a da capela. Agora, Mário Zan já sabe que vai passar a eternidade em boa companhia. "Mas não tenho pressa", avisa. "Ainda quero fazer outros hinos para São Paulo."
 

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