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24/12/2006 - 09h31

Desde 2001, crescimento favorece pobres

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MARCELO BILLI
da Folha de S.Paulo

O crescimento econômico brasileiro continua anêmico, mas há uma parcela da população para a qual a renda cresceu a taxas muito superiores às da economia. Ao contrário dos anos 70 e até 80, quando o Brasil crescia ou se estagnava concentrando riqueza, os anos 2000 inauguraram um período de crescimento "pró-pobres".

Entre 2001 e 2004, a renda dos mais pobres cresceu a um ritmo muito superior ao da renda per capita, tendência que se repete em 2005 e, provavelmente, neste ano.

O economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV, calculou, junto com os economistas Nanak Kakwani e Hyun H. Son, das Nações Unidas, as taxas de crescimento que refletem a evolução da renda dos mais pobres.

Os números mostram que, apesar do desempenho decepcionante da economia, a população de baixa renda obteve, em período de relativa estagnação, o que Neri chama de "experimento de crescimento chinês".

Entre 2001 e 2004, mostra o estudo, a taxa de crescimento da renda per capita "pró-pobre", ou seja, aquela que reflete os ganhos da população de baixa renda, foi, em média, de 3,1% ao ano. No mesmo período, a renda per capita caiu a um ritmo de 1,35% ao ano.

A contradição entre o desempenho ruim do ponto de vista econômico e o bom desempenho do ponto de vista social é explicada pelo fato de, mesmo em período em que a economia patinou, o governo ter destinado mais recursos aos programas de combate à pobreza --que, na prática, aumentam a renda dos mais pobres.

Os números podem ser olhados de outra maneira também: eles refletem a queda na desigualdade de renda brasileira, já que os pobres conseguiram, ainda que timidamente, reduzir o abismo que os separa dos mais ricos. Neri ainda faz as contas para os anos de 2005 e 2006. Ele avalia que a melhora de distribuição de renda ocorreu, mas em velocidade menor do que a de, por exemplo, 2004. Em 2005, lembra ele, a renda dos mais pobres cresceu 8,5%, contra 6% da renda média.

"Ano espetacular"
Já é um ganho. Mas um ganho que empalidece quando a comparação é com 2004. Naquele ano, em que a economia cresceu 4,9%, a taxa de crescimento da renda per capita para os mais pobres, estimada por Neri, foi de nada menos do que 14,1%, enquanto a renda per capita média cresceu 3,6%. "2004 é o grande ano da queda da desigualdade no Brasil, um ano espetacular", diz o economista.

A pesquisa mostra o quanto o gasto social tem sido importante para a redução da desigualdade e a melhoria das condições de vida dos mais pobres, mas sugere também que nada melhor do que o crescimento econômico para ajudá-los.

Em 2004, uma conjunção de fatores "pró-pobres" contribuiu para a redução da desigualdade. O aumento dos gastos sociais, presente em todo o período, ajudou, mas em 2004 a estrela foi mesmo o mercado de trabalho: o aumento do emprego e da renda beneficiou proporcionalmente os mais pobres. "O desempenho é muito puxado pela renda do trabalho. O que é muito importante, porque é algo que não acontecia."

Aliás, o ano de 2004, quando a recuperação do mercado de trabalho beneficiou muito os pobres, foi inédito não apenas pelo fato de o Brasil ter crescido mais que a média dos últimos anos, mas também por ter crescido e desconcentrado riqueza.

Ficou famosa no Brasil a tese de que "o bolo precisa crescer para ser dividido", frase de Delfim Netto, que, de alguma maneira, tentava justificar o fato de, nos anos 70, com forte crescimento, o Brasil ter passado também por processo de forte concentração de riqueza.

Crescimento, dizem os economistas, leva à concentração, a não ser que o Estado aja de maneira a torná-lo mais justo. Ainda há dúvidas se esse é o caso do Brasil e sobre o que ocorrerá quando e se o país voltar à rota do crescimento. Mas os resultados de 2004 parecem sugerir que não é impossível, no caso da economia brasileira, conseguir crescer e, ao mesmo tempo, repartir melhor a riqueza, mostra o estudo.
 

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