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04/05/2003
-
07h43
JULIO ABRAMCZYK
Colunista da Folha de S.Paulo
O bebê tomou Viagra e não foi por engano. O sildenafil, princípio ativo do remédio usado em casos de disfunção sexual, evitou a morte da criança. Na realidade, não apenas dela mas também de outras duas com hipertensão pulmonar (aumento da pressão sanguínea na artéria pulmonar).
A doença ocorre com relativa frequência em recém-nascidos com problemas no coração (cardiopatia congênita); nos adultos, é decorrência de doença pulmonar obstrutiva crônica ou enfisema. Sem tratamento, pode causar insuficiência respiratória -que pode levar à morte.
A droga foi dada ao bebê por via oral para dilatar os vasos sanguíneos dos pulmões, visando reduzir a hipertensão pulmonar.
O sildenafil bloqueia a atividade da enzima fosfodiesterase tipo 5 (PDE 5). Essa inibição aumenta a produção de óxido nítrico pelo organismo, o que relaxa a parede interna dos vasos saguíneos.
É o mesmo mecanismo de ação do gás óxido nítrico, empregado por inalação no tratamento de bebês com cardiopatia congênita.
A iniciativa do médico Parapurath K. Rajiv, chefe do Serviço de Recém-Nascidos do Instituto Amrita de Ciências Médicas, em Kochi (Índia), despertou críticas de autoridades médicas locais no ano passado.
Rajiv se defendeu: "Havia crianças morrendo na minha presença. Como médico, tinha a responsabilidade de usar todos os métodos disponíveis para salvar meus pacientes". Todos os outros tratamentos tinham falhado.
Controverso ou não, o tratamento despertou a atenção dos pesquisadores. Poucos meses depois, a droga foi usada experimentalmente no Royal Brompton Children's Hospital, em Londres, e em outros centros médicos.
O diretor da Clínica de Hipertensão Pulmonar do hospital prescreveu sildenafil para crianças refratárias a outros tratamentos e informou ter observado poucos efeitos colaterais.
Novas indicações
Não é a primeira vez que um remédio com uma indicação médica passa a ser usado para outra doença. Na realidade, o caminho do sildenafil mudou de rumo desde o início dos ensaios clínicos. Os testes iniciais visavam estudar a sua eficácia para a hipertensão arterial sistêmica, mas os resultados foram desanimadores.
O novo produto já estava sendo descartado quando a atenção dos médicos do Pfizer foi despertada pela solicitação dos homens que participaram do estudo. Eles haviam sentido visível melhora da atividade sexual e solicitavam os comprimidos excedentes.
Com essa nova visão sobre a atividade da droga, os testes passaram a ser dirigidos para a área da disfunção sexual. Surgiu, então, com sucesso, a pílula do homem.
Nova vida
A mesma vasodilatação que deu nova vida a adultos está agora salvando as crianças. Médicos verificaram que o sildenafil é um vasodilatador pulmonar seletivo com maior poder do que qualquer outro agente químico disponível.
Há, entretanto, uma crítica de alguns especialistas: remédios desse grupo não devem afetar a pressão arterial do organismo. A pressão geral pode cair nos pacientes que recebem sildenafil, mas não quando usam a inalação do gás óxido nítrico.
Médico salva a vida de recém-nascido com Viagra
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Colunista da Folha de S.Paulo
O bebê tomou Viagra e não foi por engano. O sildenafil, princípio ativo do remédio usado em casos de disfunção sexual, evitou a morte da criança. Na realidade, não apenas dela mas também de outras duas com hipertensão pulmonar (aumento da pressão sanguínea na artéria pulmonar).
A doença ocorre com relativa frequência em recém-nascidos com problemas no coração (cardiopatia congênita); nos adultos, é decorrência de doença pulmonar obstrutiva crônica ou enfisema. Sem tratamento, pode causar insuficiência respiratória -que pode levar à morte.
A droga foi dada ao bebê por via oral para dilatar os vasos sanguíneos dos pulmões, visando reduzir a hipertensão pulmonar.
O sildenafil bloqueia a atividade da enzima fosfodiesterase tipo 5 (PDE 5). Essa inibição aumenta a produção de óxido nítrico pelo organismo, o que relaxa a parede interna dos vasos saguíneos.
É o mesmo mecanismo de ação do gás óxido nítrico, empregado por inalação no tratamento de bebês com cardiopatia congênita.
A iniciativa do médico Parapurath K. Rajiv, chefe do Serviço de Recém-Nascidos do Instituto Amrita de Ciências Médicas, em Kochi (Índia), despertou críticas de autoridades médicas locais no ano passado.
Rajiv se defendeu: "Havia crianças morrendo na minha presença. Como médico, tinha a responsabilidade de usar todos os métodos disponíveis para salvar meus pacientes". Todos os outros tratamentos tinham falhado.
Controverso ou não, o tratamento despertou a atenção dos pesquisadores. Poucos meses depois, a droga foi usada experimentalmente no Royal Brompton Children's Hospital, em Londres, e em outros centros médicos.
O diretor da Clínica de Hipertensão Pulmonar do hospital prescreveu sildenafil para crianças refratárias a outros tratamentos e informou ter observado poucos efeitos colaterais.
Novas indicações
Não é a primeira vez que um remédio com uma indicação médica passa a ser usado para outra doença. Na realidade, o caminho do sildenafil mudou de rumo desde o início dos ensaios clínicos. Os testes iniciais visavam estudar a sua eficácia para a hipertensão arterial sistêmica, mas os resultados foram desanimadores.
O novo produto já estava sendo descartado quando a atenção dos médicos do Pfizer foi despertada pela solicitação dos homens que participaram do estudo. Eles haviam sentido visível melhora da atividade sexual e solicitavam os comprimidos excedentes.
Com essa nova visão sobre a atividade da droga, os testes passaram a ser dirigidos para a área da disfunção sexual. Surgiu, então, com sucesso, a pílula do homem.
Nova vida
A mesma vasodilatação que deu nova vida a adultos está agora salvando as crianças. Médicos verificaram que o sildenafil é um vasodilatador pulmonar seletivo com maior poder do que qualquer outro agente químico disponível.
Há, entretanto, uma crítica de alguns especialistas: remédios desse grupo não devem afetar a pressão arterial do organismo. A pressão geral pode cair nos pacientes que recebem sildenafil, mas não quando usam a inalação do gás óxido nítrico.
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