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08/12/2005 - 10h47

Solidão também gera aversão em alguns

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TATIANA DINIZ
da Folha de S.Paulo

Enquanto alguns investem nos benefícios dos longos momentos de isolamento, outros fogem deles como o diabo da cruz.

A apresentadora de TV Tamy Simas, 24, por exemplo, afirma que não consegue ir ao cinema sozinha. "Ninguém merece, né?", dispara.

Ela conta que já desistiu de comer ao chegar sozinha na porta de um restaurante lotado. Sentar numa praça de alimentação desacompanhada, nem pensar. "Fico com a impressão de que todo mundo está reparando que estou sozinha e achando horrível. Sei lá, acho deprimente. Não me sinto bem."

Tamy conta que vem de uma família grande, com quatro irmãos. "Na hora de comer, todo mundo se sentava à mesa. Não consigo fazer nada sozinha. Peço para a Vera, minha empregada, para me fazer companhia. Acho que sou doente, não consigo passar mais de dez minutos sem falar com ninguém. Sinto-me muito triste quando estou desacompanhada", revela.

Em casa, para almoçar ou jantar, é Vera quem socorre também. "Peço a ela que se sente um pouquinho à mesa enquanto almoço ou janto, que converse comigo. Se não tiver companhia, não consigo comer", explica.

A programadora Regina Clélia do Rosário, 40, também não aprecia viagens ou qualquer programa sem uma companhia. "Faço o possível para ter muita gente perto de mim. Gosto de grupos, gosto de receber atenção. Para mim, o pior da solidão é não ter com quem compartilhar os momentos bons ou ruins. Preciso ter a visão de testemunhas para tudo", conta.

No entanto ela afirma ter feito a opção de permanecer solteira. "Não tenho pressa para encontrar alguém e não vou ficar com qualquer pessoa. Como tenho muitos amigos, até me falta um pouco de tempo também", justifica.

Já a assistente de marketing Isamara Cardoso Pimentel, 32, diz se sentir dividida entre gostar ou não de estar só. "Moro só e, aos domingos, bate a sensação de solidão, fico querendo alguém por perto. Então comecei a namorar."

Quando acompanhada, entretanto, Isamara diz sentir falta dos seus momentos sozinha. "Atualmente meu namorado costuma passar os fins de semana comigo, mas, às vezes, fico desejando estar sozinha em casa", diz.

"Não sei se isso é um problema, até já tentei procurar um psicólogo para tentar entender. É uma dualidade muito forte: se estou só, quero alguém por perto; e, se há alguém por perto, quero ficar só", resume.

APRENDIZADO

O psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate, autor de "Ensaios sobre o Amor e a Solidão" (MG Editores, 272 págs., R$ 44,90), diz não acreditar na tese de predisposição genética para o sentimento de solidão. Ou, pelo menos, não defende que esse seja o aspecto mais relevante para a discussão do tema hoje.

"A idéia de que é genético sugere que não pode mudar. Ainda que exista um componente genético à manifestação do sentimento, há uma questão de aprendizado. Na verdade, tornou-se cada vez mais necessário aprender a conviver com a solidão", observa.

Na opinião do especialista, o mundo atravessa um momento histórico em que a pressão por uma vida acompanhada está deixando de existir. "Cada vez mais as pessoas estão se encaminhando para existências solitárias. Desaprendeu-se bastante a conviver a dois, por exemplo, e assume-se a opção de ficar solteiro. É um fenômeno social, a humanidade está se adaptando à solidão", analisa.

"Basta olhar ao redor para comprovar isso. As pessoas andam sozinhas, dançam sozinhas. A mulher solitária de hoje não é mais uma solteirona trancada num quarto de pensão. Tudo está mudando."

Para ele, a capacidade de conviver bem com a solidão tem a ver, principalmente, com maturidade. "E só amadurecemos nos expondo a situações de dor. Isso aumenta nossa tolerância à frustração", explica.

Para ele, as situações de rompimento afetivo servem de exercício a esse amadurecimento. "Há uma confusão muito grande. As pessoas misturam a dor das rupturas amorosas ao sentimento de solidão --não são a mesma coisa. Um momento de ruptura amorosa é particularmente doloroso porque nos leva a experimentar sensações de desamparo. Porém, quando a separação se concretiza, o que resta disso é uma sensação de incompletude que é característica do ser humano", observa.

Gikovate afirma ainda que quem convive bem com essa incompletude está mais apto a relacionamentos saudáveis. "Quem suporta ficar bem sozinho estabelece melhores vínculos afetivos. São aqueles para quem, realmente, estar sozinho é sempre melhor do que estar mal acompanhado."

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