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07/04/2001 - 04h26

Baú de Ferrez mostra traçado das paisagens cariocas

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RICARDO BONALUME NETO, da Folha de S.Paulo

"Ferrez" é provavelmente o sobrenome que mais colaborou para preservar a imagem do Rio de Janeiro como a cidade maravilhosa que ela de fato é.

Gilberto Ferrez (1908-2000) foi sem dúvida o maior especialista na iconografia da arte brasileira. Sua grande paixão eram as imagens da sua cidade natal. Como se não bastasse, ele era neto de Marc Ferrez, um pioneiro da fotografia no Brasil que registrou magnificamente o Rio em suas fotos. E o bisavô de Gilberto era o escultor Zéphryn Ferrez, um dos membros da famosa missão artística francesa de 1816.

Tamanho pedigree está revelado nesta obra monumental, o coroamento da carreira de Gilberto Ferrez, que infelizmente morreu meses antes de sua publicação.

Ferrez trabalhava com afinco nesse livro em seus últimos anos de vida. Era um projeto antigo reunir o fruto das suas pesquisas em uma obra que facilitasse a vida dos especialistas, mas que ao mesmo tempo servisse para o leigo admirar a beleza do Rio e da baía da Guanabara -beleza natural e também feita pelo homem-, e mesmo refletir sobre sua história.

Anos atrás eu estive com Ferrez em sua aprazível residência no Rio, cujos fundos davam para um raro pedaço da Mata Atlântica. Macacos, pássaros e até tamanduás e jaguatiricas frequentavam o seu quintal arborizado, dizia, respondendo minhas perguntas, me mostrando seu detalhado fichário e falando do projeto deste livro -que aguardei com ansiedade desde então. Demorou, mas não fiquei desapontado.

Livros e arte estavam espalhados pela casa de Ferrez, que tinha uma paixão de antiquário para descobrir imagens. Este livro é dedicado aos artistas que desenharam ou pintaram o Rio, "e à minha mulher Mary Jessop Dodd Ferrez (1906-1982), que durante meio século aturou e estimulou minha mania de pesquisador e colecionador inveterado".

O primeiro volume, com 752 páginas e cerca de 4 kg, é um catálogo reunindo descrições de 4.494 imagens do Rio. Estão nele desde aquelas primeiras gravuras mostrando índios e cartas náuticas com contornos imperfeitos da baía, passando pelos mapas dos que tentavam defender e dos que atacaram a cidade colonial portuguesa, até a belíssima produção de viajantes e artistas do século 19. Neste volume infelizmente nem todas as descrições são acompanhadas de imagens, reproduzidas em preto-e-branco.

O segundo volume reúne uma seleção das imagens -pouco mais de 200- reproduzidas em cor. Como gosta de dizer determinado tipo de historiador fã de clichês, trata-se de uma "construção" de uma iconografia do Rio.
Tanto faz; a seleção de imagens é representativa, e qualquer outra escolha não mudaria muito o caráter deste segundo volume. Para o leigo é uma festa, criando o tipo de livro para ser manuseado com calma, admirando-se cada imagem como se estivessem nas paredes de um museu.

Mas engana-se quem acha que esse tipo de livro -especialmente o segundo
volume- serve só para dondocas colocarem sobre suas mesinhas de centro para as visitas folhearem tomando café.

Durante muito tempo os historiadores privilegiaram o documento escrito. Mas a imagem, valendo ou não por mil palavras, também conta uma história. "Na última geração, ou algo assim, os historiadores ampliaram seus interesses consideravelmente para incluir a história das mentalidades, da vida cotidiana, da cultura material, do corpo e por aí vai", escreveu o historiador Peter Burke em um excelente artigo na revista especializada "History Today" deste mês. Para Burke, teria sido impossível fazer esse tipo de pesquisa apenas com documentos oficiais; uma fonte importantíssima de informações está nas imagens.

Ou seja, um livro catalogando a maior parte do que se registrou sobre o Rio tem validade não só para o historiador da arte ou da arquitetura, mas para todos os que buscam inspiração na musa Clio, a patrona da história na mitologia grega.

Um exemplo elucidativo são as imagens que mostram a entrada da frota francesa no Rio durante a tomada da cidade pelo corsário francês René Duguay-Trouin em 1711.

Nas memórias do corsário está um mapa que mostra uma frota portuguesa defendendo o Rio alinhada do lado de Niterói. Mas outros mapas também feitos por franceses não mostram tal frota -e quem demonstrou isso foi Gilberto Ferrez, em um livro iconográfico anterior, "O Rio de Janeiro e a Defesa do Seu Porto" (Serviço de Documentação Geral da Marinha, Rio, 1972).

Ou seja, o ilustrador das memórias de Duguay-Trouin embelezou a vitória francesa colocando uma frota inimiga onde ela não estava. E essa imagem falsa continua sendo reproduzida toda vez que se menciona o saque do Rio de 1711!

Um raro erro no catálogo de Ferrez sobre um desses mapas é salutar, para o especialista se lembrar que, por melhor que seja o livro, ele tem de fazer sua própria pesquisa e checar todos os dados. Ferrez dá como autor da imagem 104 (infelizmente não reproduzida no livro) um certo "capitão De Brulot, francês, 16??-17??". Na verdade, este é um posto na marinha francesa, "capitaine de Brûlot" (literalmente "capitão-de-brulote". Um brulote é uma embarcação carregada de material inflamável para provocar incêndio nos navios inimigos, mas o posto apenas usava o nome "brulote", pois um "capitão-de-brulote" podia comandar um verdadeiro navio, como uma fragata ou uma corveta). O verdadeiro autor do mapa é o capitão-de-brulote e engenheiro militar De Saccardi.

Iconografia do Rio de Janeiro: 1530-1890 (dois volumes)
Autor: Gilberto Ferrez
Editora: Casa Jorge Editorial
Quanto: R$ 250, em média (1.052 págs., no total)
 

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