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26/12/2001 - 04h23

"O Clone" bate recorde em pleno terremoto

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LAURA MATTOS
da Folha de S.Paulo

A crise na audiência que veio à tona na Globo com o fenômeno "Casa dos Artistas" (SBT) teria ganhado ares de tragédia mexicana não fosse um fato: a novela "O Clone" não só se manteve intacta ao terremoto Silvio Santos como tem batido recordes no Ibope.

Vital para a emissora, a trama das oito empatou este mês com "Laços de Família", rainha da repercussão, com 42 pontos de média (cada ponto equivale a 44 mil domicílios na Grande SP). No auge do "reality show" do SBT, alcançou média de 59% da audiência, ultrapassando "Porto dos Milagres" (58%) e "Laços" (57%).

Enquanto a novela das sete, a "moderninha" "As Filhas da Mãe", será tirada do ar antes da hora pelos baixos resultados no Ibope, "O Clone", com o açucarado romance entre Jade e Lucas, reforça a idéia da Globo de manter no ar o melodrama e se afastar de qualquer experimentalismo.

A autora, Glória Perez, 53, acha que "folhetim é folhetim". Diz, "sem vergonha", que sempre é preciso criar uma história mirabolante, até "sensacionalista", para chamar o telespectador a ver a novela no dia seguinte.

Não se preocupa com as críticas que tem recebido de cientistas pela abordagem que faz da clonagem e diz ter certeza de que já existem clones humanos secretos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que ela concedeu à Folha.


Folha - Em um momento em que a Globo passa por dificuldades financeiras e se abate com problemas de audiência, "O Clone" tem batido recordes. Não foi abalada nem por "Casa dos Artistas". Por quê?
Glória Perez
- "Casa dos Artistas" tem perfil semanal. Todos os dias, o público enjoa. No começo, tinha mais audiência durante a semana. Depois, as pessoas foram se cansando e deixando para ver, em massa, aos domingos.

Folha - Por isso a novela resistiu?
Glória
- Sempre haverá espaço para uma boa história. É claro que o show de realidade é interessante. Vivemos num mundo muito massificado e as pessoas buscam reafirmar a individualidade. Mas sempre haverá espaço para as histórias de ficção, porque elas também são a realidade. Eu sempre procurei trazer a realidade para a novela, porque verifiquei que a onda estava vindo por esse lado.

Folha - Essa mistura, em seu limite, não é um caminho à teledramaturgia? Uma "reality novela" não seria um teste interessante?
Glória
- Não seria novo. Se não me engano, Bráulio Pedroso [autor de "Beto Rockefeller", novela com linguagem revolucionária da Tupi, em 1968] tentou essa linguagem. Houve uma novela em que ele colocava as pessoas numa situação e deixava correr tudo sem script. Não deu certo.

Folha - Acha que a audiência de "O Clone" também tem a ver com o interesse no islamismo despertado pela guerra no Afeganistão?
Glória
- Não sei dizer. Mas acho que esse universo sempre atraiu muito, sempre teve magia. O "mundo das arábias" faz parte do imaginário popular. Mas a decisão não tem a ver com isso. A clonagem, que seria um passo para o homem tomar o lugar de Deus, coloca em conflito o Ocidente com a cultura islâmica. Falar dos muçulmanos foi consequência de escolher a clonagem como tema.

Folha - Para escrever as tramas, sempre conta com pesquisadores e às vezes acaba sendo criticada por eles. A maneira como retrata a clonagem, por exemplo, tem sido questionada por cientistas.
Glória
- É óbvio que era muito complicado um clone dar certo na primeira tentativa, como aconteceu na história. Mas, na novela, tudo bem. A obra de ficção não precisa de detalhes técnicos. Ninguém questiona "Frankenstein", porque isso não importa para a dramaturgia. A novela não tem de ensinar como se faz um clone. O que quero é que as pessoas pensem sobre o assunto.

Folha - E as críticas dos xeques?
Glória
- A gente briga muito, mas fica de bem em seguida. Foi difícil chegar a um entendimento, mas chegamos. A religião é uma coisa complexa. Na novela, tenho de me basear mais nos costumes. Não posso me tornar uma especialista no Alcorão em dois meses.

Folha - É necessário sacrificar a pesquisa em alguns momentos?
Glória
- Já pensou que chato seria se o cientista passasse a novela toda tentando fazer um clone?! Não quero discutir biologia.

Folha - Alguns cientistas criticam o fato de o clone ser saudável.
Glória
- Isso é muito discutível e só vamos saber daqui a alguns anos. É claro que já existem clones humanos, mas só vão mostrá-los quando chegarem a uma determinada idade. Imagine o peso que cai contra o cientista se ele tiver alguma doença.

Folha - A passagem do tempo em "O Clone" é outro alvo de críticas. Murilo Benício interpretará Lucas, com uns 40 anos, e seu clone, com uns 20. E a Vera Fischer também não mudou com o passar dos anos.
Glória
- Acho a passagem do tempo em "O Clone" a coisa mais realista do mundo. Hoje temos muitos recursos e as pessoas se cuidam mais. Tem plástica, silicone. Veja a Vera Fischer 20 anos atrás e me diga se ela está mais bonita agora ou naquela época.

Folha - No "remake" de "Pecado Capital" (98), escrito pela senhora, Vera Fischer entrou no meio da história para recuperar o ibope e...
Glória
- Não foi isso. Mas não queria falar sobre esse assunto.

Folha - OK. Tiramos a Vera e continuo a pergunta, mesmo porque esse recurso, de mudar o elenco para subir a audiência, foi recentemente usado em "A Padroeira" e...
Glória
- Não, não. Não teve nada disso a entrada da Vera em "Pecado Capital". Teve a ver com coisas que eu não gostaria de tocar.

Folha - Tiramos a Vera...
Glória
- Pode tirar essa pergunta da Vera. Não poderia te dizer isso.

Folha - A Vera está fora. Queria saber quanto do elenco é definido pelo autor, pela direção da novela e pela Globo. Há atores que só trabalham com um autor. O Eri Johnson, por exemplo, sempre é escalado para suas tramas. Por quê?
Glória
- A definição do elenco é um acordo entre todos. O Eri sempre está em minhas novelas porque ele interpreta muito bem certos tipos que gosto de mostrar.

Folha - Quando "De Corpo e Alma" (92) estava no ar, o SBT fez uma anúncio dizendo que a trama era mexicanizada. Concorda quando é chamada de melodramática?
Glória
- Todo folhetim é melodrama, e novela é folhetim por definição. A diferença é fazer novela com vergonha e sem vergonha. Autor de novela que diz que não faz folhetim está mentindo. Quando damos ganchos no fim de um capítulo para chamar para o próximo, sabemos que podemos não estar sendo coerentes, mas o sensacionalismo é parte da técnica. Mas a novela mexicana é muito diferente da brasileira. Não tem psicologia, só trama.

Folha - "As Filhas da Mãe" tentou uma nova linguagem e não deu certo no Ibope. "O Clone", folhetim assumido, é recorde de audiência. Isso prova que o público não quer nada além do melodrama?
Glória
- Não consegui assistir a nenhum capítulo de "As Filhas da Mãe". É possível enfeitar uma novela de milhares de maneiras, mas a estrutura do folhetim é uma só. Se mexer na estrutura, dançou.

Folha - Como consegue criar 36 páginas por dia da novela e ainda estar completamente ligada ao processo de Guilherme de Pádua?
Glória
- É muito difícil estar tão concentrada na realidade e na fantasia ao mesmo tempo. Mas tenho de enfrentar. Em toda a minha vida, desde a morte da Dani [a atriz Daniella Perez, filha de Glória, assassinada em 92], tenho um olho para o mundo e outro para esse processo. É um horror, é angustiante, é apavorante, mas aos poucos a gente aprende a se equilibrar, a dividir o tempo.

Folha - Agora é para noveleiros: o clone terá um "affair" com Jade?
Glória
- Vamos supor que você, aos 20 anos, conheça um homem maravilhoso, viva um romance maravilhoso. Mas não se case com ele e não consiga ser feliz com nenhum outro homem. Até que, 20, 25 anos depois, se reencontra com o príncipe. Só que ele engordou, ficou um pouco careca, está chato à beça. Aí aparece o clone, que não é ele, mas é a figura que você amou durante toda a sua vida. Vai dizer que não balança?
 

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