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17/02/2002 - 09h02

Eugênio Bucci: Chega de ter saudade do "padrão Globo"

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EUGÊNIO BUCCI
colunista da Folha

DE DEZ anos para cá, a televisão no Brasil piorou e, em muita gente, isso desperta uma certa saudade do antigo "padrão Globo de qualidade". É verdade que, ao ver algumas excrescências como "Casa dos Artistas" e agora "Big Brother", que conseguiu ser mais baixo e mais chato que a "Casa", a gente até sente mesmo uma ponta de saudade. Mas vamos com calma.

Antes de tudo, é preciso afastar a expressão "baixo nível" de qualquer conotação moral. Há obras eróticas de alta qualidade assim como há obras de alto nível cujo tema é a violência. "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, é violento e também é belíssimo. "Gabriela", a adaptação do romance de Jorge Amado para a Globo, era apimentada e era também grandiosa. O problema da TV é estético, não é moral.

O problema não é o sexo nem é a pancadaria, mas a estreiteza com que esses e outros assuntos são tratados. O sexo, pobre sexo, fica reduzido às partes genitais. Todo prazer é priápico. Em lugar de "Gabriela", reina o fastidioso "Big Brother". A violência, componente essencial de toda criação, reduz-se à intolerância dos pregadores da pena de morte e à plasticidade suspeita de cabeças esguichando sangue nos filmes campeões de bilheteria. A televisão vai ficando animalesca, bárbara, rudimentar. A cultura se desumaniza.

Sim, dá saudade. A Globo, ela mesma, já deu ao país alguns programas de beleza excepcional (daí a ponta de saudade). Quando mandava no mundo da TV, quando exercia seu monopólio com sossego e com gozo, ela até que segurava um nível bem-comportado. Fazia uma TV de madame, é verdade, uma TV fru-fru, sem povo, sem negro, sem interruptor na parede, elitista e, por isso mesmo, uma televisão "confortável" aos olhos da classe média (o "padrão Globo de qualidade" era uma função ideológica), mas proporcionava ao país um repertório visual menos animalesco que esse de hoje.

Agora, a Globo anda atarantada. Seus concorrentes, como o SBT, são os novos bárbaros que invadem o império de madrugada. A Globo não soube conviver com essa nova concorrência, mesmo que ela seja tão minoritária, e optou por enfrentá-la com as mesmas armas: preferiu combater o feio com o mais feio ainda. O efeito Gugu obrigou o Faustão a se tornar mais e mais apelativo, assim como o efeito "Aqui Agora" reintroduziu o sensacionalismo policial em todos os canais. Atônita, a Globo desistiu de seu antigo padrão e desistiu de correr os bons riscos.

É nesse quadro que a concorrência, em vez de melhorar, piora a TV. Os imperativos de se ter audiência imediata proíbem qualquer ousadia. A ordem é repetir o igual e carregar no sensacionalismo. Não é o mercado, mas os imperativos de um mercado imediatista que embrutecem a programação. A televisão de madame, que antes desprezava o popular, agora se lambuza no popularesco, o melado que ela desconhecia.

E assim vamos nós, o público. Nós, que éramos prejudicados antes pelo elitismo surdo do monopólio inabalável, agora somos prejudicados pelos efeitos de uma concorrência viciada na repetição do mesmo, e do mesmo cada vez mais baixo. Nós padecemos duas vezes. A primeira sob o monopólio gozoso (que parecia felicidade), a segunda sob uma concorrência selvagem (que parece sem-vergonhice), ainda que seja incipiente.

Por isso, chega de saudade. Ter saudade do "padrão Globo de qualidade" é ter saudade do monopólio e daquele conforto imobilista que ele produzia no olhar. Monopólio que, não esqueçamos, ainda está aí. O que nos falta não é "mais mercado", de um lado, nem "mais censura", de outro, mas regras democráticas para o mercado. Regras que sirvam para eliminar de vez o primeiro mal e que nos ajudem enfrentar o segundo. O primeiro era um mal autoritário. O segundo é o mal da selva. Que tal tentar a civilização?

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