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09/08/2002 - 02h53

"O Príncipe", do diretor Ugo Giorgetti, estréia hoje

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SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

"Bem-vindos a São Paulo." Na voz de uma aeromoça, essa é das primeiras frases que se ouvem em "O Príncipe", longa que o cineasta Ugo Giorgetti, 60, lança hoje. "Como a sra. classificaria um funeral?" é a última sentença do filme. O aeroporto é ponto de chegada e de partida da narrativa, que inclui também um apagar das luzes.

Entre a exclamação inicial e a indagação que o encerra, o novo título do diretor de "Festa" e "Sábado" traça um painel impiedoso da maior metrópole brasileira e de uma extração social que a habita (a classe média).

A história repassa a vida de um grupo de amigos que o auto-exilado Gustavo (Eduardo Tornaghi) reencontra no retorno de duas décadas vividas em Paris.

Habituado a ver o mundo da janela, ainda que imaginária, Gustavo se define como "o príncipe da náusea".

Na entrevista a seguir, o cineasta Giorgetti, que sempre filma os próprios roteiros, fala sobre essa crônica de "uma geração que está indo para o diabo que a carregue com certa classe".

Folha - O sr. teve a intenção de traçar em seu filme um retrato especialmente amargo para quem vive em São Paulo?
Ugo Giorgetti
- O filme não faz nenhuma revelação sobre São Paulo que qualquer pessoa sensível ainda não tenha visto e sofrido. Evidentemente a intenção não é fazer as pessoas sofrerem mais do que já sofrem. Mas era importante que se mostrasse a cidade pelo menos tal qual ela é.

A cidade é um elemento do filme e talvez não o principal, que são as pessoas. A cidade influi sobre elas, mas acho que São Paulo aparece por decorrência. Longe de mim fazer um documentário sobre a cidade. Queria um filme mais complexo.

Folha - "O Príncipe" tem características de filme geracional. Ele pode ser compreendido como um acerto de contas com sua geração?
Giorgetti
- Se me incluir entre eles, sem dúvida. Não gostaria que fosse um filme que dissesse "olha como eles são", mas que dissesse "olha como nós somos".

Ao contrário de muita gente, não acho que essas pessoas sejam derrotadas. Fazer um balanço e ele não corresponder ao que se esperava na primeira juventude é uma consequência da vida. Principalmente porque, na primeira juventude, você sonha muito e muito alto, desmesuradamente.

Especialmente para essa geração, a coisa é mais complicada, por se tratar da geração mítica dos anos 60. E de uma geração que sonhava de maneira delirante. Pretendia mudar o indivíduo por dentro, o comportamento, a cidade, o país e o mundo.

O tamanho do sonho era insano. Então fica um travo muito maior quando você faz um balanço e vê que isso não aconteceu.

Folha - Além de diferente do imaginado, o resultado desse balanço não é desesperançado ao revelar uma rendição à mediocridade?
Giorgetti
- Num certo sentido, sim. Mas todos os personagens têm consciência de suas vicissitudes. Inteiramente desesperançado só há um personagem, que se suicida. É o elo mais frágil da corrente. Se você perder a esperança literalmente, tem de se matar.

Tomar uma providência, ainda que banal, como a que o [personagem principal] Gustavo toma, de ir para Paris, já é uma atitude.

O único desesperançado é o que se mata. O resto vai levando. Aliás, é uma geração que está indo para o diabo que a carregue com uma certa classe. É a última geração francesa. Então vai indo embora à francesa . Mas, sinceramente, sou uma péssima pessoa para interpretar o filme. Aceito qualquer interpretação. Por isso deixei alguns vazios propositais.

Folha - O filme tem personagens reconhecíveis na vida cultural paulistana e outros que podem ser encarados como personagens de si mesmos. O maestro Julio Medaglia aparece com sua própria identidade, Bruna Lombardi interpreta uma mulher belíssima que não teve sucesso na tentativa de uma carreira literária. É um recurso de referências em camadas?
Giorgetti
- Não mesmo. O Julio foi uma presença de última hora. Não ia chamá-lo e chamei-o porque é uma figura muito interessante. Com toda franqueza, eu tinha me esquecido completamente do livro da Bruna. Foi um acidente, até porque não colocaria um ator nessa situação.

Hoje, vendo retrospectivamente, acho que os dois tiveram muita coragem, muita disponibilidade, e nunca aludiram a isso.

Em "petit comité", você pode levantar dez nomes reais para o personagem de Marino Estevez e 250 para o do jornalista. Há uma série de pessoas reconhecíveis. Mas fazer um filme "à clé" é rebaixá-lo a instância muito ruim. Ele se torna um divertimentozinho. Talvez até seja. Ou talvez seja menos que isso. Mas eu não queria que ficassem pensando: "Será que esse é o fulano de tal?".

Isso seria perder a perspectiva do filme. São personagens. Claro que há similares a eles por aí, mas acho que são pessoas menores do que meus personagens. Marino tem uma solidariedade, ainda que canhestra. Ele não perdeu a humanidade. Conheço pessoas desse ambiente que não têm nenhuma humanidade.
 

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