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31/08/2002 - 03h10

Obra visita a Casa de Eny, cafetina de Bauru

MARCELO RUBENS PAIVA
da Folha de S.Paulo

Na entrada de Bauru, uma estrada de terra, com a placa Eny's Bar, viu circular todo o tipo de gente. Alguns passavam por curiosidade, como o dramaturgo Mauro Rasi. Outros iam pedir votos, como o presidente Jânio Quadros. Mas a maioria ia em busca de um desejo íntimo: o sexo pago.

Ao final da estrada, a Casa de Eny, com um vasto quintal e uma piscina no formato de violão, costumava ser sobrevoada por helicópteros com curiosos.

Eny Cezarino comandou até o ano de 1982 a invejável estrutura: 40 quartos, saunas, restaurante, bares e salões de festas, tudo ciceroneado por mulheres de vida nada fácil.

Sua vida agora é contada em "Eny e o Último Grande Bordel Brasileiro", uma biografia romanceada feita pelo jornalista Lucius de Mello, 38 -ex-repórter da Globo e atualmente no SBT-, autor de "Um Violino para os Gatos" (1987).

Foram dez anos de pesquisa sobre o submundo da prostituição e a saga da família italiana Cezarino, cujo patriarca desembarcou no Brasil num navio infestado pela cólera, surpreendeu-se com leilões de escravos na Estação da Luz e por aqui ficou.

Sua descendente, Eny Cezarino, uma garota criada para se casar, seguiu um rumo inesperado. Fugiu de casa, trabalhou como prostituta em São Paulo, frequentou baladas do Cassino da Urca, prostituiu-se em bordéis de Porto Alegre e Paranaguá, até ser convidada para montar seu próprio negócio na promissora Bauru.

"Quando cheguei em Bauru, muitos moradores vinham me contar fatos da vida da cafetina. Os mais antigos falavam dela com um certo orgulho. Lembravam que, apesar da profissão, ela ajudava muita gente", diz Mello, que trabalhou na cidade.

Elegante e educada, Eny aprendeu os macetes do negócio, como tratar bem os clientes e as sementes de sua horta, transformando-se numa figura pública envolvente. Seu maior prazer era ir ao correio todos os meses, para enviar dinheiro à família.

"As histórias sobre ela e suas meninas corriam de boca em boca como lenda. Ouvi até dizer que, pelo envolvimento político que teve, ela foi uma espécie de embaixatriz da cidade. Entrevistei quase 50 pessoas, entre familiares, prostitutas, ex-prostitutas, ex-funcionários, delegados, empresários, políticos, artistas e moradores da cidade."

Como uma audaciosa mulher de negócios, Eny Cezarino conseguiu construir um império de 26 imóveis, mas morreu pobre, em 24 de agosto de 1987, aos 69 anos, numa cama de hospital.

Outros tempos
"As prostitutas daquele tempo, por serem rotuladas pela igreja como grandes pecadoras, despertavam os olhares, eram apontadas nas ruas, atraíam a atenção de homens e mulheres. Acho que por isso faziam questão de ser estrelas desse espetáculo social com muito glamour", conta Mello.

Nas zonas, havia fiscais sanitários e médicos que vigiavam clientes e profissionais. Além disso, as prostitutas eram cadastradas pela polícia.

"Havia autoridades que diziam que elas eram protetoras das famílias. Era importante garantir trabalho, porque, além de divertirem os homens, acabavam protegendo a virgindade das senhoritas da sociedade", explica o autor.

Seu livro defende a tese que o sucesso da cafetina era também devido às suas relações com políticos. Eny Cezarino era um cabo eleitoral disputado e uma eficiente captadora de recursos. Seu segredo era a discrição. Grande parte da sua clientela saída de São Paulo enfrentava 350 km de estrada para usufruir uma noite de prazer em Bauru.

"Não posso afirmar que Jânio foi amigo de Eny. Não acredito que tenha sido. Segundo o ex-deputado Nicola Avalone Jr., Jânio esteve com ela no bordel uma única vez, durante o dia, numa visita muito rápida e exclusivamente política. Jânio estava em campanha e sabia da fama da cafetina e da força que tinha", conta.

De acordo com o livro, Jânio entrou exageradamente preocupado com a própria imagem e disse que não sabia que em Bauru existiam áreas palacianas: "O que meus inimigos vão dizer, quando souberem que estive aqui, que me embriaguei ou me apaixonei", teria dito o presidente.

Segundo o autor, hoje a sociedade é mais tolerante com a prostituição e os clientes são captados por outros meios, como a internet, o telefone e os jornais.

"À época da Eny, a dona do bordel conjugava com mãos de ferro o verbo "cafetinar", tinha que participar de tudo, transitar à noite entre os clientes percebendo os desejos, administrando libidos, vendendo prazer. Hoje, os donos de bordéis já não exercem mais esse papel com o mesmo empenho", completa.

ENY E O ÚLTIMO GRANDE BORDEL BRASILEIRO - autor: Lucius de Mello. Editora: Objetiva. Quanto: R$ 33,90 (292 págs.).
 

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