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31/10/2002 - 02h41

Rappers e cineastas politizam o soulman pacifista Hyldon

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
enviado especial da Folha ao Rio de Janeiro

O rap redescobriu Hyldon, 51, e eis ele de volta em pessoa. Autor e intérprete do clássico "Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Casinha de Sapé)", ele está de novo em estúdio, após nove anos de ausência.

A volta do soulman carioca nascido na Bahia acontece em meio a uma nova safra de atitudes e canções de MPB que voltam a celebrar o orgulho "black power", dissolvido desde a fase do "negro é lindo" -o "black is beautiful" à brasileira do início dos anos 70.

Nos novos CDs dos rappers cariocas MV Bill e Nega Gizza, trechos de "Na Rua, na Chuva, na Fazenda" (75) foram incorporados como samplers e citações, em registro bem mais sombrio que o da doce balada de origem.

O cenário se completou quando a mesma música foi usada, no formato original, para compor um clímax violento do filme "Cidade de Deus", que, além de polemizar a sociopolítica das favelas brasileiras, também se esforça por trazer de volta à tona a cultura musical black daqui, do samba ao funk.

Hyldon fala da simpatia dos criadores mais jovens por seu trabalho: "MV Bill me disse que os pais dele namoravam ouvindo "Na Rua, na Chuva, na Fazenda". Quando fui ver "Cidade de Deus", saí do cinema em êxtase por ter visto um belíssimo filme brasileiro e orgulhoso de estar participando daquele trabalho com um pedacinho da minha música".

Ele se envaidece com a preferência de rappers e cineastas engajados por sua obra, mas agora dá de ombros a "Na Rua, na Chuva, na Fazenda", música e disco reeditados em CD no ano passado. Prefere cuidar de promover a reedição de seu segundo -e bem mais obscuro- disco, "Deus, a Natureza e a Música" (76).

O projeto deve sair em novembro e tem teor provavelmente inédito: descontente com detalhes das gravações originais, Hyldon foi ao estúdio para retocar vozes e instrumentais, em busca de, segundo ele, "concluir um trabalho que estava inacabado".

"Gravamos num estúdio que havia sido recém-inaugurado pela Phonogram (hoje Universal) e nos deu muitos problemas. A voz ficava muito metálica, o som da bateria saía horrível", justifica a maquiagem de agora.

Curioso é que a gravadora que encampa o projeto é a Universal, a mesma que, em conflito aberto com Hyldon em 76, ajudou a abortar a continuidade de uma carreira solo que começara à toda com o romantismo pop-soul de "Na Rua, na Chuva, na Fazenda".

Em meio às gravações, brigou com todo mundo na gravadora, incluídos o diretor artístico e pioneiro da bossa nova Roberto Menescal e o chefe de promoção e hoje escritor Paulo Coelho. Hyldon começa a relembrar:
"O primeiro disco era todo calminho e romântico. Minhas influências já eram todas malucas, porque nasci na fronteira da Bahia com Pernambuco e tinha influência nordestina forte. Mas fui gravar o segundo depois de uma viagem aos Estados Unidos, que me fez conhecer muita coisa e querer experimentar mais".

Entre as ousadias "experimentais" estava dividir o acompanhamento musical com duas bandas que depois entrariam para a história do soul e do funk nacionais: Azymuth e Banda Black Rio.

"Menescal achou o disco uma merda. Disse que o nome da música "Estrada Errada" resumia o que era o disco. Mas para mim essa é a primeira música discothèque do Brasil, influenciada por Barry White e aquela onda disco que começava a rolar nos EUA."

Paulo Coelho protagonizou com Hyldon outro foco de discórdia: "Eles queriam achar um filão para me vender, e resolveram que eu seria "o cantor dos tênis". Eu só usava tênis, o que não era comum naquela época. Para eles, eu seria "o cara que tinha a coleção de tênis", em cima da história do Elton John, que tinha não sei quantos mil óculos. Original, não?".

Hyldon não gostou da idéia, e botou para quebrar. "Se fosse hoje eu aceitaria, ia ser legal. Mas na época eu era radical, xiita musical. Aquilo foi uma facada para mim. Recusei, e minha relação com a gravadora se deteriorou. Era ímpeto de juventude mesmo, "vou fazer o contrário do que eles querem". Eu tinha era que ter um analista, um psicólogo. Imagine, o cara brigar com a multinacional poderosíssima", reavalia.

Política, censura, drogas

Outro episódio de "Deus, a Natureza e a Música" envolve a censura militar. Embora Hyldon continue sendo até hoje um artista resistente à idéia de politizar sua música ("sou um pacifista, não misturo música com política, e, como eu fazia um trabalho romântico, a crítica da época torcia o nariz"), teve censurada ali uma música quase toda instrumental, que de texto só continha a frase "cuidado para não virar jazz!".

"A música quase nem tinha letra, sei lá se pensaram que "virar jazz" significava "virar bagunça". Queriam que eu fosse a Brasília explicar a música, mas fiquei me borrando de medo e não fui. Preferi tirar do disco. Agora também não quis recolocar, porque não tem mais sentido. Era só uma birrinha que havia entre os caras do soul e do jazz."

Nas voltas que o mundo dá, hoje Hyldon vê seus temas de rua, chuva, fazenda, Deus, natureza e música serem subvertidos em filmes sobre violência e raps sobre drogas ("dizem que sou louco", cita MV Bill, ambíguo). E não se opõe, até porque conhece problemas como aqueles de perto.

Nasce desse setor a fatia de autocrítica do artista ao comentar as agruras que teve com gravadoras ao longo dos anos 70.

"Quis refazer as vozes agora porque naquela época eu estava cantando mal. O disco seguinte, da CBS, estraguei nos tons gritados. A situação amorosa me desafinava, Tim Maia sempre me falava que eu estava escolhendo o tom errado e eu não ouvia", diz, conectando desfoques de voz ao uso de drogas.

"Até 75 ou 76, não havia cocaína nos estúdios, só maconha. As pessoas se reuniam, se juntavam para fumar e tocar juntas, se aprimoravam ouvindo uns aos outros. A cocaína entrou nos estúdios de uma maneira que acabou com a sensibilidade, deixou todo mundo individualista. Isso ajudou a tumultuar mais nossa cabeça."

Ainda que tais temas não estivessem explícitos em sua obra, justamente nele foi chegar a nova produção engajada do Brasil, que faz da engrenagem das drogas um de seus pontos referenciais.

E Hyldon, de seu canto, defende a profanação de "Deus, a Natureza e a Música" pelo próprio autor. "Era uma mancha que eu tinha: Conseguir estar vivo e com a cabeça boa para refazer o disco é um privilégio para mim".
 

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