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19/04/2003 - 05h04

Obra revela amizade entre Brasil e Saddam

MARCELO RUBENS PAIVA
da Folha de S.Paulo

Paira uma nuvem de areia na ponte Brasilía-Bagdá, uma relação em que um lado nunca pediu atestado de bons antecedentes ao outro. A história secreta desta conexão é desvendada por "Saddam, o Amigo do Brasil", do jornalista Leonardo Attuch, 31, editor da revista "IstoÉ Dinheiro".

Sim, Saddam Hussein foi um grande amigo do Brasil, e vice-versa. Realizamos negócios com aquele ditador autoritário e impiedoso? Ora, e por aqui era diferente? Foi a partir do regime militar que a paquera começou.

A camaradagem fez o Brasil enfrentar a crise de oferta do combustível com o carburador entupido, mas sem fundir o motor, e levou a Saddam técnicos e equipamentos que possibilitassem a construção de um país.

Nos anos 70, a Petrobras descobriu um dos maiores campos petrolíferos do mundo no Iraque, o poço Manjnoon. Exportamos ainda café, frango, óleo vegetal e outras mercadorias. O presidente João Figueiredo, numa carta a Saddam, publicada no livro, chamou-o de "leal e bom amigo".

Tal relação foi tão intensa que chegou a ser anunciada uma nova língua, o "mendês", mistura de idiomas desenvolvida entre funcionários da construtora Mendes Júnior e comerciantes iraquianos, que trocavam expressões como "mako muskila" (sem problema), "mako flus" (dinheiro) e "milico come salame" (vou bem).

Assim como o governo brasileiro desafiou as grandes potências e estendeu o seu território para 200 milhas, apoiou enfaticamente a nacionalização da indústria do petróleo feita por Saddam em 1971. "Antes da década de 90, Saddam era um progressista, um fator de unidade da região, aliado dos americanos. É uma prostituição histórica querer compará-lo a Hitler. Meu livro não pretende ser uma propaganda pró-Saddam, mas mostrar que não podemos comprar só a versão da imprensa americana", diz Attuch.

"Para quem conhece a história do Iraque de 90 para cá, o livro causa estranheza. Mas ninguém deixa de reconhecer que o governo de Saddam teve um período modernizador, foi amigo do Brasil e do Ocidente, e endureceu quando se viu ameaçado."

Foram os falcões brasileiros que alimentaram o escambo, num período em que o Brasil empobrecia, e o Iraque nadava em dinheiro. Esta amizade começou com a prospecção de petróleo e passou por construção de estradas de ferro e rodovias. "Havia uma grande empatia pelos dois povos, que queriam se emancipar."

Houve troca de Passats por petróleo -carros da Volkswagen do Brasil que ainda hoje correm pelas ruas do país- e se estendeu para as armas, carros de combate, mísseis, urânio, combustível de foguetes e sabe-se lá o que mais.

Attuch, especialista em macroeconomia, que cobriu a guerra atual, compilou depoimentos daqueles que estiveram tête-à-tête com o ditador e seus assessores, publicando, no final do livro, entrevistas com as fontes. São elas: Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e Planejamento, Hugo de Oliveira Piva, brigadeiro que desenvolveu mísseis para o Iraque e foi sondado para desenvolver o "artefato", apelido da bomba atômica, Paulo Tarso Flecha de Lima, embaixador que idealizou o comércio entre os países e negociou a retirada de brasileiros, e João Verdi, presidente da Avibrás, indústria bélica que exportou carros de combate ainda em uso.

Há ainda os depoimentos de Murillo Mendes, dono da Mendes Júnior, que construiu grandes obras no Iraque, como a estrada que liga Bagdá a Jordânia, Armando Guedes, ex-presidente da Petrobras, e Wolfgang Sauer, ex-presidente da Volks, que trocou Passats por óleo, numa operação conhecida como "barter-trade"; a maior venda de carros da história (175 mil Passats).

Segundo o autor, Brasil e Iraque queriam abrir frentes de negócios que não passassem pelos EUA e planejavam ter bomba atômica. Meses antes da invasão anglo-americana, o cientista dissidente iraquiano Khidir Hamza disse que o Iraque poderia produzir bomba atômica com urânio brasileiro. O rumor foi desmentido por Scott Riter, da Agência Internacional de Energia Atômica, que garantiu que as exportações brasileiras foram controladas por órgãos internacionais. Piva, em depoimento ao autor, duvida: "Acho que não foi feito esse controle. Foi tudo direto para Bagdá".

Uma das qualidades do livro é mostrar que os iraquianos não formavam uma gangue de sanguinários ambicionando explodir artefatos químicos. Sua elite tinha doutorado em Londres. Um deles, sobre Shakespeare.

O país impressionava. Todas as delegações brasileiras, que se hospedavam no hotel Palestine, lembram-se do grande número de mulheres no serviço público.

Mas a parceria na construção da bomba ainda está encoberta por uma tempestade de areia, e o cambau teria sido grande: devem-nos milhões de dólares.

"O Brasil só assinou o tratado de não-proliferação de armas atômicas na era FHC. Estávamos construindo a bomba atômica. O Piva diz que vendemos urânio ao Iraque. Mais, não disse, pois é segredo de Estado", completa o autor.

SADDAM, O AMIGO DO BRASIL
De: Leonardo Attuch
Editora: Qualitymark. 174 págs.
Preço: R$ 30
 

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