Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
17/05/2003 - 05h35

"Querido Poeta" mergulha no cotidiano de Vinicius de Moraes

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

Esqueça o poeta, compositor, cantor, crítico de cinema, diplomata etc. etc. O protagonista de "Querido Poeta - Correspondência de Vinicius de Moraes" é o homem comum que, "por acaso", deixa vazar de cartas enviadas e recebidas aquelas outras figuras todas.

Esse é um dos atrativos da coletânea de cartas que vai às livrarias na próxima semana, segundo seu organizador, o jornalista e escritor Ruy Castro, 55.

"Tudo o que está ali é interessante, mesmo o que não tem interesse cultural -o papagaio no banco, as contas a pagar, atribulações financeiras constantes", defende Castro. "As cartas mostram que o poeta não vive sentado nas nuvens, e daí acho que pode sair uma nova imagem de Vinicius."

Abrangendo correspondências desde que o poeta carioca tinha 19 anos, em 1932, até o ano de sua morte (1980), o livro acompanha cronologicamente o curso de seus 67 anos de vida.

Parte dos idílios e das confusões amorosas dos anos 30 e viaja pelas confusões matrimoniais e à constante atribulação financeira mencionada pelo organizador das décadas de 50, 60 e 70.

A título de exemplo, a primeira referência a Tom Jobim, parceiro de invenção da bossa nova, só aparece em carta à irmã Leta de Moraes, em 1957, nos seguintes termos: "O próximo trimestre do "Orfeu" você acabe o pagamento do Tom. Ele sabe quanto é. Por falar nisso, ele te deu o recibo do último pagamento? Se deu, guarde. Se não deu, peça".

Embora tendo sempre a poesia e a música como vizinhas, as cartas trocadas por Vinicius e Tom vêm todas coalhadas de ajustes de contas, debates sobre direitos autorais, transações comerciais.

Mais situado no plano artístico é o reduzido maço de cartas de 1971 entre Vinicius e Chico Buarque, em que a pauta é alterar (como quer Vinicius) ou não (como prefere Chico) a letra de "Valsinha". Vinicius pretende, por exemplo, mudar o título para "Valsa Hippie".

Chico ganha a discussão, mas a carta de resolução do impasse não aparece na coletânea --ou não houve, como suspeita Ruy Castro. "De certa época em diante, o telefone ficou mais próximo, é natural que as cartas diminuíssem a partir daí", diz.

Do fascismo ao comunismo

Para Ruy Castro, esconde-se nas cartas dos anos 40 o dado mais surpreendente no livro.

"Vinicius começa, como muitos escritores da época, tendo forte simpatia pelo fascismo. No final dos anos 40, você fica besta ao perceber a guinada dele rumo ao comunismo."

Posições simpáticas ao fascismo nem aparecem explícitas nas cartas anteriores, mas ,em 1947, em carta à sua mãe, Vinicius passa a manifestar desconforto com o fascismo. Diplomata nos Estados Unidos, escreve, de Hollywood: "A mesma onda de fascismo que passa aí está passando aqui, que é, aliás, o berço da dita".

Ironicamente, é de lá que ele passa a defender a aproximação entre a poesia e a política --por viés comunista--, como em zangada carta de 1949 ao diplomata Lauro Escorel.

É tempo de outra transição, também. Do início da bossa em diante, diminuirão as cartas trocadas com escritores como Manuel Bandeira (o mais constante de todos eles), Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto etc.

Sumirão, em especial, provocações juvenis como as lançadas no calor de seus 22 anos contra a facção regionalista do modernismo.

E ganham corpo, junto com as encrencas financeiras, as presenças de Tom, Chico, Carlos Lyra, João Donato, as meninas do Quarteto em Cy, Luiz Eça...

Entre umas e outras, mantêm-se os tapas e beijos trocados em literatura com mãe, irmãs, filhos, mulheres e ex-mulheres. E, de passagem, bilhetes rápidos --e curiosos-- de figuras como Charles Chaplin e Orson Welles.

Ruy Castro avisa que não se trata de literatura. "Não há qualidade frase por frase, não havia tanto esse capricho dele. As pessoas que escreviam para ele é que tentavam caprichar", afirma, rindo do nervosismo alheio diante do poeta.

"Em suas cartas, Vinicius era relax, mas não displicente ou esculhambado. Passa a impressão de um sujeito com liberdade total, incapaz de fazer uma crítica moralista a alguém", completa.

QUERIDO POETA - CORRESPONDÊNCIA DE VINICIUS DE MORAES
Organização:
Ruy Castro
Editora: Companhia das Letras
Quanto: preço a definir (358 págs.)

Especial
  • Saiba mais sobre a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro

  •  

    Publicidade

    Publicidade

    Publicidade


     

    Voltar ao topo da página