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23/08/2000 - 11h27

Raul Cortez enfrenta Shakespeare em Rei Lear

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VALMIR SANTO
da Folha de S. Paulo

Passaram-se 44 anos desde a ponta como um dos soldados na histórica montagem de "Hamlet" (56), à sombra de Sérgio Cardoso, até o papel de protagonista em "Rei Lear". O paulistano Raul Christiano Machado Cortez, que completa 69 anos na próxima segunda-feira, volta a Shakespeare amanhã com fome de verbo.

"As palavras de Shakespeare são belas e profundamente humanas. Algumas falas parecem até soar ingênuas, puristas, mas vêm carregadas de uma verdade fantástica, que provoca um certo susto no ator tal a facilidade com que as palavras saem de sua boca", afirma.

Facilidade. É preciso ter muita vivência para chegar a ela, sobretudo quando se trata de Rei Lear, dos personagens mais complexos de toda a obra de Shakespeare. Paulo Autran, por exemplo, interpretou o seu há quatro anos, aos 73, dizendo-se finalmente "maduro" para a empreitada.

A despeito da idade octogenária do rei da Bretanha, Cortez acredita que este é um elemento paradoxal na tragédia. "Quando Shakespeare apresenta o Lear com 80 anos, trata-se de um recurso simbólico para refletir o processo de autoconhecimento em determinada fase da vida. É um papel que exige bastante do intérprete, física e espiritualmente".

Ao longo da peça, o personagem evolui de um equívoco até a imersão na loucura, culminando com a lucidez tardia, quando surge com a filha caçula em seus braços, morta, para também ele morrer em seguida.

"Na minha perspectiva, Lear vem de um grande cansaço do poder, anos e anos de carga, de responsabilidade excessiva. Só que, para preencher sua necessidade de amor, de contato consigo, ele é levado pelo caminho da dor, do sofrimento", diz o ator. "E não há dor pior para um rei do que a rejeição". Principalmente a filial.

Raul Cortez vai contracenar com a filha Lígia, que interpreta Regana, a filha mais velha de Lear. Eles já subiram ao palco juntos na comédia "Cheque ou Mate" (96), de Ricardo Semler.

Foi Lígia, filha do casamento com a atriz Célia Helena (1937-97), quem serviu de pivô para o reencontro de Cortez com o diretor anglo-brasileiro Ron Daniels, ex-diretor da Royal Shakespeare Co., em Londres.

Ela convidou Daniels para realizar uma oficina no teatro-escola Célia Helena, que administra em São Paulo. Coadjuvantes em "Boca de Ouro" (60), texto de Nelson Rodrigues dirigido por Ziembinski; com mais presença de cena em "Os Pequenos Burgueses" (63), de Gorki, no Oficina de José Celso Martinez Corrêa; e ávidos pela novidade do teleteatro na extinta TV Excelsior, também no início dos anos 60, Cortez e Daniels viram em "Rei Lear" a chance de reatar a amizade.

"Nesse reencontro, percebi que o tempo dele agora é outro. Ron está mais cauteloso, eu sou mais arriscado. Às vezes ele é meu pai, às vezes eu sou pai dele. É um grande encenador, um grande diretor de ator. Nunca tive liberdade de trabalhar com tanta intuição como nessa montagem", diz.

Toda vez que sobe ao palco, Cortez ancora os três espetáculos que mais o marcaram na carreira: "O Balcão", de Jean Genet, dirigido pelo argentino Victor García no final dos anos 60; "Rasga Coração", de Oduvaldo Viana Filho, por José Renato, nos anos 70; e "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", adaptação de Antunes Filho para o texto de Guimarães Rosa, no início dos anos 80.

Também diz carregar consigo a herança de diretores pontuais. Lembra o "deboche" de Zé Celso, a sintonia com Antunes ("ele bate muito com a minha cabeça"), o senso estético de José Possi Neto e a capacidade de Victor García de "transformar tudo de ponta-cabeça".

"Mediocrização"

Cortez explica que sua fase recente de devoção à palavra começou há três anos, quando leu "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar. O livro foi adaptado para o cinema, com direção de Luis Fernando Carvalho, que chamou Cortez para integrar o elenco. A estréia deve ser em março de 2001.

"O Raduan exerce a palavra com uma incrível preciosidade de imagens. Não sei como hoje a palavra pode estar assim tão alijada do nosso cotidiano, como uma ferramenta tão bonita na comunicação entre os seres humanos pode ser descartada", diz.

Lamenta ainda o que classifica de "mediocrização" em voga na sociedade brasileira, que teria chegado também às raias do teatro. Sua última temporada no Rio, com "Um Certo Olhar", textos de Fernando Pessoa e Federico García Lorca, lhe deu a prova derradeira.

"Os meus colegas no Rio estão fazendo tanta porcaria, tanto besteirol, tanta bobagem, tanta coisa voltada somente para a bilheteria, um caça-níquel desgraçado, aproveitando-se da popularidade que a Globo lhes dá por causa das novelas", afirma.

"Claro, existem exceções, mas o teatro precisa ser levado mais a sério. Porra, você é um artista, tem uma função na vida, tem de transformar as pessoas, enfim, você é um agente social, mas isso tem sido profundamente esquecido nos últimos tempos".

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