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31/05/2003 - 04h27

Ficção científica é a Atlântida da literatura brasileira

MANUEL DA COSTA PINTO
Colunista da Folha de S.Paulo

Para a maioria dos leitores, a ficção científica sempre foi um gênero menor, servindo apenas como ponto de partida para filmes repletos de efeitos especiais, figurinos exóticos, seres extraterrestres e universos imaginários. Para esses leitores, "Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (1875 a 1950)", de Roberto de Sousa Causo, corresponde à descoberta de uma ilha perdida, uma espécie de Atlântida literária.

O livro discute a definição do gênero, fazendo uma genealogia que remonta à Antiguidade, e apresenta uma gama de autores nacionais que raramente aparecem nos compêndios de literatura brasileira, lançando mão de uma bibliografia sobre ficção científica (FC) e de idéias fundamentais nos estudos literários (a noção de "sublime" de Kant ou a "teoria dos modos" de Northrop Frye). Com isso, procura refutar a idéia de que a FC seja um gênero "fechado", circunscrito a um arranjo de temas e motivos apartados das preocupações estéticas e éticas dominantes.

Para Causo, a expressão mais correta para essa linhagem é "ficção especulativa", uma tradição que se indaga sobre os limites do real e "bebe de fontes míticas, satíricas, utópicas, romanescas e mesmo científicas, para se realizar como um corpo multifacetado de possibilidades ficcionais, existindo em interação com o 'mainstream' literário, mas não em uma chave de inferioridade artística".

Obviamente, juízos de superioridade ou inferioridade artística não podem ser feitos no atacado: é no varejo, na leitura individual de cada autor, que se pode determinar o lugar que escritores contemporâneos como Bruce Sterling, Philip K. Dick e Stephen King ocupam diante de clássicos como Lovecraft, Júlio Verne, Tolkien e H.G. Wells. Por trás dessa reivindicação da qualidade intrínseca à FC, há uma preocupação em conectá-la a fontes universais da invenção literária, obras canônicas que teriam o papel secundário de "protoficções", preparando seu terreno.

Causo faz três recortes. A ficção científica propriamente dita teria raízes em viagens fantásticas -como as dos relatos de Luciano de Samósata ("Vera História"), Jonathan Swift ("Viagens de Gulliver"), Kepler ("Somnium") ou Cyrano de Bergerac ("Viagem à Lua")-- e lugares imaginários como o reino lendário do Preste João, "A Utopia" de Thomas More ou o mundo profetizado por Vieira em "História do Futuro".

Já os gêneros irmãos da FC seriam a "fantasia", no qual a ciência dá lugar a fenômenos de ordem mágica (como no ciclo do rei Artur), e o "horror", cuja atmosfera onírica de claustrofobia remonta ao romance gótico e às "Noites na Taverna", de Álvares de Azevedo.

Essa pluralidade de fontes, por sua vez, ganha um matiz especial em sua ambiência brasileira. E, se isso é válido para toda a nossa literatura, sendo possível encontrar traços do folclore medieval tanto na literatura popular nordestina quanto em Guimarães Rosa, um importante autor de FC como Braulio Tavares renova esse amálgama, escrevendo o cordel fantástico intitulado "A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora".

Outra especificidade é o modo como a FC brasileira lida com as virtualidades oferecidas pela ciência. Longe de embarcarem numa cópia de modelos europeus ou norte-americanos, os brasileiros expressam o caráter passivo, contemplativo, que a ciência assume num país tecnologicamente defasado, como ocorre em "Doutor Benignus" (1875), de Augusto Emílio Zaluar, marco inaugural do romance científico no país.

"Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil" cobre um período que compreende os pioneiros da FC, com análises cuidadosas de autores como Gastão Cruls, Afonso Schmidt, Adalzira Bittencourt e Berilo Neves e das incursões "fantásticas" de escritores como Monteiro Lobato e Menotti del Picchia. Mas não faltam referências a contemporâneos como Tabajara Ruas, Marcia Kupstas e Daniel Fresnot. Nomes aos quais poderíamos acrescentar o próprio Causo, um talentoso autor de ficção especulativa.

Avaliação:

Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil
Autor: Roberto de Sousa Causo
Editora: UFMG
Quanto: R$ 38 (340 págs.)
 

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