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27/10/2003 - 10h34

"Motoboys - Vida Loca" faz a mea-culpa entre motoristas da cidade

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BRUNO YUTAKA SAITO
da Folha de S.Paulo

Quando joga a favor, ele é o "anjo" que coloca documentos importantes na sua mesa a tempo, entrega a pizza e torna casais mais felizes com a chegada de flores. Mas ele é também o capeta de asas, sujeitinho folgado que "voa" no congestionamento, passa raspando no espelho retrovisor do seu carro e tasca com gosto a mão na buzina e no farol alto.

"Motoboys - Vida Loca", que será exibido hoje e amanhã na Mostra, é um documentário que, mais do que registrar o cotidiano desse profissional urbano da paisagem de São Paulo, explicita uma confusa relação de amor e ódio.

"Trata-se de uma relação hipócrita. Ele é o cara que faz a cidade andar mas, ao mesmo tempo, é o mais odiado no trânsito", diz o diretor Caíto Ortiz, 32, aqui em sua estréia em documentários.

Estima-se que entre 170 mil e 350 mil motoboys circulem pela cidade atualmente. São, na grande maioria, profissionais sem vínculos empregatícios que chegam a trabalhar durante 16 horas seguidas para receberem, em média, R$ 750 mensais.

"Ele é o mais novo personagem da cidade, veio para ficar e não adianta achar ruim. O melhor a se fazer é buscar uma convivência mais pacífica", diz Ortiz.

Batalhas urbanas

Para contextualizar o cotidiano dos motoboys, o filme parte para a análise das desigualdades sociais, ao mesmo tempo que é um estudo das neuroses dos paulistanos, que encontram seu ápice nos enormes congestionamentos.

O publicitário Washington Olivetto, profissionais da CET, o psicoterapeuta Jacob Pinheiro Goldberg, o colunista da Folha de S.Paulo Gilberto Dimenstein e o apresentador Serginho Groisman são alguns dos entrevistados. Há até um momento à Michael Moore [documentarista americano, de "Tiros em Columbine"]: a não-entrevista. Aqui, Ortiz infiltra-se no meio de uma sessão de cumprimentos da prefeita Marta Suplicy com o público para requisitar --sem sucesso-- uma entrevista.

O filme também questiona os dados oficiais da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Segundo esses estudos, a cada dois dias, três motoboys morrem na cidade. Após pesquisas, Ortiz defende outro número. Segundo ele, dois motoboys morrem por dia. Para isso, ele levou em conta não apenas as vítimas que morrem no local do acidente.

Vida louca

"Motoboys" sintetiza o universo da profissão que atualiza os antigos boys --rapazes que faziam entregas de documentos em curtas distâncias-- em cinco personagens centrais. Entre eles, há o típico "cachorro louco", a motogirl, o entregador de pizza e o motoboy que já não é mais tão jovem.

"No começo, eu tinha o estereótipo na minha mente. Achava que eles eram todos um bando de moleques loucões", explica Ortiz. "Era a visão típica do cara que anda de carro com o vidro fechado e vê aquele monte de sujeitos de moto andando em fila. Eles estão sempre com capacetes e jaquetas parecidas. É fácil criticá-los porque eles nem parecem humanos."

Em comum, Ortiz destaca a busca pela aventura. "A maioria deles começa nessa profissão por pura falta de opção. Mas, com o tempo, eles acabam pegando gosto pela coisa, ficam orgulhosos e sentem a adrenalina. Eles adoram essa liberdade de poder correr nas ruas e não ter patrões."

Ortiz, no entanto, não faz um documentário chapa-branca. Ele sabe que, nessa história, não há heróis ou bandidos. Chega até a mostrar imagens dignas de programas sensacionalistas, como motoboys agredindo fisicamente outros motoristas.

"Não há dúvidas de que o trânsito de SP é uma guerra. Cada um está olhando para o seu próprio umbigo. Todos --motoristas de ônibus, caminhão, carro, taxistas-- se sentem desrespeitados no trânsito e acham que estão com a razão."

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