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19/03/2004 - 05h14

Walderez de Barros completa 40 anos de carreira e encarna Fausto

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VALMIR SANTOS
da Folha de S.Paulo

A voz naturalmente grave de Walderez de Barros corrobora a introspecção em pessoa. A atriz acende o cigarro antes de falar. O olhar é atordoado. Logo se saberá que esse estado de apreensão é típico, no seu caso, de quem está a uma semana da estréia.

"Eu fico em carne viva, seja qual for a peça", diz a protagonista de "[Urfaust] Fausto Zero", o primeiro tratamento do clássico do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).

Com cinco atores, a encenação do diretor Gabriel Villela estréia hoje na Mostra Oficial do Festival de Teatro de Curitiba. Cumpre temporada em São Paulo a partir do dia 27/3, no Espaço Promon.

Aos 40 anos de carreira, Walderez de Barros, 63, representa o Fausto desdenhoso do saber e ensandecido por prazer e poder, aquele que vende a alma ao diabo (Mefisto), conforme a popular história do teatro de fantoches alemão que inspirou Goethe.

A seguir, a atriz que foi casada por 21 anos com o dramaturgo Plínio Marcos (1935-99), até 1984, comenta o novo projeto e a ausência de questionamentos do homem contemporâneo sobre o mistério do mundo.

Folha - O que atrai você no papel de um mito como Fausto?
Walderez de Barros -
Quando decidimos montar a peça, o Gabriel me perguntou se não gostaria de fazer Mefisto, mas o que sempre me interessou foi a inquietação do Fausto. A angústia do Fausto é a angústia do homem moderno, renascentista, ocidental. A partir do momento em que esse homem não está mais na Idade Média, vivendo numa sociedade tradicional regida por leis divinas, ele perde o contato com o divino. Pensa que é livre, tenta explicar tudo pelos meios que tem, a ciência, a razão. Mas não acha respostas. Ou seja, ao não acreditar mais que se possa realmente entender, adquirir esse conhecimento, vive-se para o prazer, o poder, o dinheiro.

Folha - Fausto carrega essa ambigüidade de buscar respostas pragmáticas e nutrir-se de paixão por Margarida.
Barros -
Exatamente. E Fernando Pessoa explica bem essa contradição, quando afirma que "o grande mistério do mundo consiste em haver e ser aí o mistério". Ou seja, é o mistério, e não será com a via racional que se irá decifrá-lo. É aí que eu ligo com o homem atual. O mais grave é que pulam-se etapas para ir direto ao pacto com o diabo. Não há nem a angústia do "quem sou eu".

Folha - Você fez um pacto com o teatro?
Barros -
Fiz. Não um pacto com a carreira profissional, mas com o teatro. Primeiro, porque não tinha isso como objetivo. Ribeirão Preto [SP], onde nasci, era muito distante; Hollywood era mais próxima do que a Escola de Artes Dramáticas, que nem sabia que existia. Vim para São Paulo cursar filosofia na USP da rua Maria Antônia. Muito recentemente é que estou conseguindo lidar com a idéia de que sou uma profissional. Mas desde o começo percebi que o palco era o lugar onde eu queria estar, até por conta da minha timidez. Descobri que, em cena, todo mundo olhava e eu não ficava com vergonha (risos). O palco é um lugar de verdades absolutas. Os valores que adoto na vida pessoal são os valores que adoto no palco.

- Folha - Do ponto de vista da criação, como era a relação da atriz Walderez de Barros com o dramaturgo Plínio Marco? Você era interlocutora?
Barros -
Há um equívoco aí muito grande. Todo mundo acha que, de alguma maneira, eu possa ter ajudado o Plínio. Eu repito enfaticamente: o Plínio era um gênio, não precisava da ajuda de ninguém. A única coisa que eu fiz a vida inteira foi bater à máquina os textos dele. Fazia algumas correções de acentuação, de grafia. Se algum mérito eu tive, foi o de uma boa revisora. O Plínio não discutia as obras dele comigo, me dava as peças para eu ler quando estavam prontas.

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