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23/04/2004 - 05h12

Cantora Maria Bethânia abre sua quitanda brasileirinha

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PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

O Brasil interior vem ao palco do Tom Brasil Nações Unidas nas noites de hoje, amanhã e domingo, na estréia paulistana do show "Brasileirinho", da cantora baiana Maria Bethânia, 57.

A artista, que nessa empreitada troca a ligação quase vitalícia com o diretor teatral Fauzi Arap por associação com a diretora também teatral Bia Lessa, diz que a aproximação de "Brasileirinho" com uma face mais íntima e não urbana do país rende mudanças sutis em sua presença de palco.

"'Brasileirinho' tem uma suavidade, um modo de falar do Brasil que é tão ultrapassado --ninguém mais lembra que aqui tem lua", explica. "Então é quietinho, o repertório é todo para dentro. Estou bem menos explosiva. Ainda piorei, incluí canções como 'Motriz' (83), bem para dentro."

Brinca, dizendo que alguns amigos reclamam da interioridade de "Brasileirinho", da "mania de colocar grilo cantando". "Não gosto dessa coisa esfriada, urbana", diz, para depois ressaltar: "Minha vida não tem nada a ver com isso. Moro junto à Rocinha. Minha rua virou uma loucura, com polícia de ponta a ponta, noites de tiroteio que não pára, granadas, pessoas gritando, mortos. É guerra".

Mas o encontro com o Brasil interior não é, ela afirma, uma fuga. "Não estou fugindo da minha realidade, de forma alguma. Mas graças a Deus não perdi essa memória do que é o Brasil."

Os movimentos de fuga e aproximação encontram curioso contraste no trabalho de seu irmão Caetano Veloso, 61, em "A Foreign Sound", todo voltado para fora, para o cancioneiro norte-americano. "Para mim não tem nenhuma novidade, não é um susto para mim vê-lo fazendo um disco assim. Fica esse contraponto entre nós dois."

Sabe que Caetano anda elogiando o CD "Brasileirinho" (2003). "Mandei para ele. Ele não ouve, leva muito tempo, não presta atenção. Demorou, achei que não tinha gostado, até que me ligou chorando, emocionado, quando estava fazendo show [de pré-estréia de 'A Foreign Sound'] no Baretto. Fiquei comovida", conta.

Diz que o irmão "está muito mergulhado do outro lado", mas não sabe avaliar significados dos contrastes: "Não sei o que me guia, só sigo meu desejo. Não estudei muito, não sou preparada. Só sei da lua, do mar, da montanha, coisas muito simples".

O mano demorou a ouvir "Brasileirinho", mas a mana também ainda não ouviu "A Foreign Sound". "É que ele não me mandou, não costuma mandar. Eu, que sou mulher, é que mando, faço essas gentilezas", justifica-se.

Não aceita comparar seu brasileirinho profundo à era Lula ("não quero falar nada de gente ligada a Brasília, pelo amor de Deus"). De política, só diz da sua própria: "Esse é meu disco menos político e acabou que virou o mais político --e o show é mais ainda. É que é um olhar muito amoroso, apaixonado, entregue ao Brasil. Mas não é um amor cego. Estou esperta".

Conhece as mudanças do olhar estrangeiro sobre seu país. "Hoje há uma admiração do mundo pelo Brasil, estão nos dando uma colher de chá, o Brasil ficou chique. Eu odeio isso, porque a gente é chique sempre, não precisa ninguém vir me dizer isso."

Seria uma nacionalista, uma tradicionalista? "Não tenho idéia, dessas coisas não sei." Seria então moderna, contemporânea? "Não sei, não penso nada disso. Nasci para cantar, canto, me esforço, faço direitinho. O resto não sei."

Daquilo que ela sabe, "Brasileirinho" vem a SP desfalcado das participações do grupo instrumental Uakti e de Nana Caymmi. Mas estarão aqui a atriz Denise Stoklos, a cantora Miúcha e o grupo bem brasileiro Tira Poeira.

Os ausentes e os presentes aparecerão em DVD que ela já gravou no Rio, para seu selo Quitanda, da Biscoito Fino. Primeira artista do primeiro escalão MPB a se divorciar da grande indústria, ela segue ali trajetória produtiva e de sucesso comercial (para parâmetros independentes). "Maricotinha ao Vivo" (2002) superou 100 mil cópias; "Brasileirinho" se aproxima dos 50 mil exemplares.

Bethânia já tem pronto, além do DVD, um disco em tributo a Vinicius de Moraes. Do poeta da bossa em parceria com Toquinho, incluiu nos shows atuais a praiana e bem brasileirinha "Tarde em Itapuã" (71), que convive no palco com as políticas "Comida" (87) e "Miséria" (89), dos Titãs. Essa é a quitanda de Maria Bethânia.

BRASILEIRINHO
Onde: Tom Brasil Nações Unidas (r. Bragança Paulista, 1.281, tel. 0/xx/11/2163-2000)
Quando: hoje e amanhã, às 22h, e domingo, às 20h
Quanto: de R$ 40 a R$ 100

Especial
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