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24/07/2004 - 06h02

Nova tradução de Dostoiévski retoma liberdades estilísticas

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NELSON ASCHER
colunista da Folha

A Rússia de meados do século 19 era um dos países mais atrasados e despóticos da Europa. Seu monarca, o "czar de todas as Rússias", tinha poder absoluto sobre seus súditos, a aristocracia possuía não somente as terras mas também as "almas", ou seja, os servos que as habitavam, qualquer oposição ao governo era proibida e o que quer que fosse escrito passava, antes de ser publicado, pela censura oficial.

Fiódor M. Dostoiévski (1821-1881), talvez o maior romancista de uma época em que essa forma literária alcançava seu ápice, começou a carreira nesse ambiente política e socialmente claustrofóbico, lançando seu primeiro romance, "Pobre Gente", em 1846.

Seu livro de estréia chamou a atenção tanto do público quanto do governo e, como além de ficção, escrevesse artigos jornalísticos nos quais deixava claro que seu país precisava de reformas abrangentes, ele foi, em 1848 (ano de revoluções no continente inteiro), acusado de subversão, preso e condenado à morte. Prestes a ser executado, a pena capital foi comutada, e ele, mandado para o exílio siberiano.

Quando retomou enfim uma vida mais ou menos normal e em liberdade, ele se casou e publicou, em 1859, "Um Amigo da Família" e, logo depois, sua primeira narrativa madura, "Recordações da Casa dos Mortos" (1861), a respeito de suas experiências como prisioneiro político.

No ano seguinte saiu "Humilhados e Ofendidos". Esse romance, que precede de dois anos sua primeira obra-prima, "Notas do Subterrâneo" (1864), foi escrito às pressas e descreve uma sociedade na qual tanto os pobres e fracassados como as pessoas comuns, continuamente humilhados pelos poderosos, seguem tentando preservar o que podem de sua humanidade.

Esse tema, um de seus principais, seria tratado com mais arte e muito mais minuciosamente em "Crime e Castigo" (1866) e em sua ficção posterior. Mesmo aqui, no entanto, ele já se encontra bem desenvolvido e, embora não esteja entre o que Dostoiévski fez de melhor, nem por isso"Humilhados e Ofendidos" deixa de ser um romance de qualidade, com uma trama bem arquitetada e personagens que, dotados de vida própria, escapam aos estereótipos.

Se seu narrador, Vânia, um escritor com problemas financeiros e amorosos como, aliás, o próprio criador, não atinge a complexa densidade de Raskolnikov ou de Ivan Karamázov, nem é tão febril quanto estes, ele seguramente os prefigura por ser, como aqueles, extrema e até exageradamente consciente e autoconsciente. É um protagonista atento e analítico que o russo envolve num enredo cheio de detalhes significativos cuja relevância só se revela aos poucos como, por exemplo, a história pungente, com que o livro se inicia, da morte quase simultânea de um velho abandonado e de seu cachorro.

Quanto à presente edição, é importante observar que se trata da primeira tradução direta do original para nossa língua de "Humilhados e Ofendidos". Os estudiosos que têm acesso a suas obras em russo não se cansam de enfatizar que, como Dostoiévski escreveu numa época em que sua língua era literariamente nova e, portanto, mais maleável do que as da Europa ocidental, ele podia usá-la com mais liberdade do que seus contemporâneos franceses ou ingleses. Os resultados estilísticos dessa liberdade, que se perdiam nas traduções feitas a partir de versões intermediárias, transparecem claramente, graças ao trabalho da tradutora Klara Gourianova, nesta nova edição.

Avaliação:

Humilhados e Ofendidos
Autor:
Fiódor M. Dostoiévski
Tradutora: Klara Gourianova
Editora: Nova Alexandria
Quanto: R$ 44 (322 págs.)

Especial
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