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25/03/2005 - 09h10

Presidente da Sony BMG aponta fusão como resultado da crise na produção musical

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THIAGO NEY
da Folha de S. Paulo

No último 9 de março, foi oficializado o nascimento da atual maior gravadora do Brasil.

O parto teve início em novembro de 2003, quando as gigantes Sony (de origem japonesa) e BMG (alemã) anunciaram a decisão de unir forças, realizar uma fusão entre as duas companhias. A notícia tomou as atenções da indústria fonográfica e foi alvo de reclamação principalmente entre os independentes, que viam a estratégia como mais uma forma de concentração de poder num já concentrado mercado --as cinco grandes (EMI, Sony, Universal, BMG e Warner) eram responsáveis, em 2003, por mais de 75% das vendas de discos no mundo.

As queixas não deram resultado. Em julho, a fusão foi aprovada na Europa. Em dezembro, nos EUA. Neste mês, a agora Sony BMG ganhou luz verde do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), no país, o que a transforma na maior gravadora do Brasil, dona de 28,6% do mercado e casa de 56 artistas nacionais. Roberto Carlos, Skank, Zezé Di Camargo & Luciano, Chico Buarque e KLB, além de George Michael e Avril Lavigne, entre outros, estão sob o mesmo teto.

O principal executivo desse novo gigante do mundo fonográfico é Alexandre Schiavo, 36, que comandará a empresa no Rio. Na última terça-feira, ele falou à Folha, por telefone, sobre os rumos da companhia, mercado de CDs e afirmou: "A gravadora deixou de ser um banco".

Folha - Antes havia cinco grandes gravadoras, agora o mercado está centralizado em quatro. Se já existia uma concentração de poder, com a fusão isso não aumentará?

Alexandre Schiavo - A fusão é uma questão de necessidade, aconteceu não porque o mercado estivesse favorável a isso; ocorreu por motivo da crise da indústria da música no mundo. Essa crise foi gerada pela pirataria física e eletrônica --na América do Sul, mais pela física. Nos EUA, a pirataria eletrônica é maior do que a física. A fusão aconteceu para termos uma gravadora mais forte para enfrentarmos esses problemas. A concentração de poder é relativa, há vários selos independentes fortes. O artista tem opção.

Folha - Daqui para a frente a maior preocupação da indústria será a pirataria física ou a digital?

Schiavo - As duas. A pirataria digital ainda não é tão forte. Há uma baixa penetração de computadores aqui no Brasil, por enquanto. O problema atual é a pirataria física, que toma 60% do mercado.

Folha - Mas uma parcela de culpa disso também não é das gravadoras, já que o grande motivador de compra do CD pirata é o preço baixo, e as gravadoras vendem seus discos a preços bem mais altos?

Schiavo - Essa história de que o CD é caro é mentira. Você pode ir a qualquer grande loja ou supermercado e encontrar CDs que vão de R$ 6 a R$ 14, R$ 15. Mas uma coisa é impossível: fazer o CD novo de um artista custar R$ 10 ou R$ 12. Para divulgar esse artista temos um investimento enorme. Então o preço do CD é compatível com o valor desse investimento.

Folha - Qual seria o valor mínimo, nas lojas, de um CD novo?

Schiavo - O valor mínimo, para o consumidor, dependendo da loja, fica entre R$ 22 e R$ 30.

Folha - Então não dá para vender um CD novo a menos de R$ 22?

Schiavo - Lançamento, não.

Folha - As gravadoras reclamam que a troca de arquivos de MP3 esteja matando essa indústria. Mas parece não haver nenhum tipo de movimentação dessas empresas de se integrar nesse negócio, há apenas retaliação. As gravadoras não estão engessadas?

Schiavo - Depende. Agora o mercado digital na Europa e nos EUA é muito importante. No caso do Brasil, não temos base [mercado] que faça ser viável, ainda, montar uma estrutura para vender downloads. O exemplo da Apple [com o iTunes] é perfeito: já venderam mais de 100 milhões de canções, está mudando o hábito das pessoas.

Folha - Mas isso não chegou no Brasil...

Schiavo - Porque aqui ainda não há mercado para isso. Se você fizer uma promoção de download, será muito pequena. Mas há um certo engessamento por causa das editoras, de discussão de percentuais de remuneração de direitos.

Folha - Quando isso vai mudar?

Schiavo - Depende da economia, se ficar mais forte, crescer, as pessoas vão comprar mais computadores, mais gente comprará tocadores de MP3. Não adianta agora fazer um enorme investimento, criar um site de download de música, pois não temos público significativo para isso. Ainda estamos muito presos ao formato físico.

Folha - A vendagem de DVDs vem subindo ano a ano, enquanto a de CDs está em declínio. O DVD é um formato a seguir?

Schiavo - Não tenho dúvida. O público quer o DVD. E, melhor ainda: no Brasil, consome-se uma alta taxa de DVDs musicais.

Folha - Há uma idéia geral de que existe uma certa estagnação artística no Brasil, de que só se investe nos formatos de retorno certo, como discos ao vivo ou acústicos. Essa estratégia não prejudica o aparecimento de novos artistas?

Schiavo - Há uma crise na produção musical, mas isso não é culpa da gravadora. É uma crise de criatividade, e não há um gênero musical que seja dominante, como havia na época do axé ou do forró. Além disso, há um trabalho de renegociação com artistas grandes que assinaram contratos pesados, numa época totalmente diferente. A gravadora não é mais um banco; não damos mais adiantamentos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão. Hoje trabalhamos com artistas como numa parceria.

Folha - Sobre a fusão, foi noticiado nos EUA que ela acarretará em demissão de mais de 2.000 funcionários, numa tentativa de cortar cerca de US$ 300 milhões em custos. Esses números são concretos?

Schiavo - Isso [os cortes] já estava acontecendo antes da fusão. Tanto a BMG como a Sony demitiram muita gente, justamente por causa dessa crise no mercado. No Brasil, temos 135 empregados. Nos anos 90, só a Sony chegou a ter quase 600 funcionários; a BMG já teve por volta de 200.

Folha - Os selos independentes dizem que o modelo de negócio das grandes gravadoras se esgotou, que há necessidade de se encontrar novas formas de negociar música. Existe esse exame de consciência, de que algo deve mudar?

Schiavo - Isso já vem mudando, hoje estamos mais adequados à realidade. Antes todo o risco de um contrato era sempre da gravadora. Agora continua sendo, mas em vez de darmos antes uma cifra milionária para um artista e o risco ser muito maior, hoje o artista vai ganhar conforme o retorno que ele dê. Mas muitas independentes criticam as grandes gravadoras, só que montam operações iguais à das grandes gravadoras. Acho irônico alguns levantarem essa bandeira do pseudo-independente quando na verdade ele quer é ser grande.
 

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