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20/10/2000 - 05h09

"Garotos Incríveis" reacende contracultura

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AMIR LABAKI, da Folha de S.Paulo

O primeiro Oscar de Michael Douglas veio com a composição de Gordon Gekko, o especulador ultracapitalista de "Wall Street" (87), de Oliver Stone. O segundo -ou ao menos outra indicação- pode vir com o exato inverso de Gekko, o escritor tardio-hippie Grady Tripp.

"Garotos Incríveis" conquistou tamanho respaldo crítico ao ser lançado em fevereiro nos EUA que prepara um relançamento no mês que vem, a tempo de refrescar a memória dos membros da Academia e catalisar algumas indicações ao Oscar. A estratégia deve dar certo -e não só devido ao fato de a concorrência não parecer muito forte neste ano.

Duas trajetórias concentram atenções no filme baseado em obra de Michael Chabon: a do escritor de meia-idade vivido por Douglas e a de um de seus alunos, James (Maguire), um estranho no ninho de raríssimo talento.

Tudo gira em torno de um campus universitário durante um fim-de-semana numa invernal Pittsburg. Grady e James envolvem-se numa cômica espiral de incidentes num dia especialmente infeliz para o mestre.

Sua mulher o deixa. Sua amante, a mulher de seu superior acadêmico, de nome Sara (Frances McDormand), anuncia que está grávida. Por fim, Terry, seu editor (Downey Jr.), desembarca na cidade menos para acompanhar uma feira literária do que para cobrar de Grady o segundo romance que espera desde o estouro com o livro de estréia.

As complicações se aceleram a partir da festa de confraternização na casa de Sara. James furta o casaco de casamento de Marilyn Monroe, que representa o fetiche máximo do dono da casa. Não contente com isso, mata o cão de estimação do casal. Cabe a Grady proteger seu pupilo predileto, ainda que logo o desmascare como um mentiroso contumaz.

O filme é assim uma variação em torno do modelo clássico do romance de formação, aqui dividido com o do romance da crise de meia-idade à moda Updike. Grady tem problemas com maconha e, mimeticamente, o roteiro de Steve Kloves ("Susie e os Baker Boys") e a direção de Curtis Hanson ("Los Angeles - Cidade Proibida") emprestam à narrativa o ritmo lento e a rota imprecisa do cérebro pós-baseado.

O filme carrega uma inequívoca nostalgia pela contracultura. O romance sem fim que desafia Grady remete aos livros tardios de Kerouac. Não faltam, claro, sexo, drogas e rock'n'roll. Curiosamente, a tensão sexual é baixa e a homossexualidade, tratada com uma naturalidade raríssima. A maconha parece pervasiva no ambiente acadêmico e problemática apenas quando consumida excessivamente. Lennon e Dylan marcam presença, em perfeita harmonia com a elegância de um clássico de Rodgers & Hart.

Por vezes, "Garotos Incríveis" parece tão desnorteado quanto seu protagonista, mas Kloves e Hanson acabam por devolver o filme ao eixo -ou à sua versão predeterminada da falta dele. É difícil ver no cinema americano recente personagens assim convincentes, um elenco heterogêneo em igual sintonia e clichês tão bem driblados. Um quase grande filme é muito mais do que Hollywood nos tem conseguido ofertar.

Garotos Incríveis
Wonder Boys
Direção:
Curtis Hanson
Produção: EUA, 2000
Com: Michael Douglas, Tobey Maguire, Frances McDormand, Robert Downey Jr.
Quando: a partir de hoje nos cines Lumière, Eldorado, Ibirapuera e circuito

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