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27/09/2005 - 09h06

"Sobre Falar Merda" chega ao Brasil em tempos de CPIs

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CAMILA MARQUES
da Folha Online

Em tempos de CPIs e tantos discursos políticos exaltados transmitidos ao vivo do Congresso Nacional (deputados e senadores, algumas vezes, mais querem aparecer do que questionar depoentes e testemunhas), chega ao Brasil o livro "Sobre Falar Merda" (ed. Intrínseca, R$ 19,90 - 68 págs), escrito pelo mais celebrado filósofo moral da Universidade de Princeton (EUA), Harry G. Frakfurt.

O título original é "On Bullshit", expressão em inglês usada para desqualificar algum tipo de fala ou declaração. Nos Estados Unidos, a obra já está na décima edição --se tornou o primeiro livro editado por uma universidade a liderar o ranking dos mais vendidos do jornal "The New York Times". Se depender do título, deve fazer o mesmo sucesso por aqui.

Reprodução
Capa do livro na versão que chega ao Brasil
Capa do livro na versão que chega ao Brasil
O pequeno tratado, já que são apenas 68 páginas, tenta definir o que é, de fato, falar merda. "Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fala tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação", começa Frankfurt.

Aos poucos, de modo até certo ponto acadêmico --afinal, Harry Frankfurt é filósofo e professor--, ele cita outros estudiosos do tema e discute definições de dicionários e livros para termos como falação, impostura, conversa fiada, lorota, charlatanice e, claro, merda. Importante ressaltar que, mesmo acadêmico, o texto é de fácil compreensão.

Uma das questões centrais do livrete é diferenciar os atos "falar merda" e "mentir". Com exemplos concretos e interessantes, Frankfurt detalha que o falador de merda quer apenas passar uma impressão diferente sobre si mesmo, não sendo esta necessariamente falsa ou mentirosa. Ao fazer isso, diz o filósofo, a pessoa não está nem aí para verdade e os fatos.

O mentiroso, porém, esconde fatos que conhece. Inventa deliberadamente sua história, mas respeita a verdade, mesmo fugindo dela. Justamente por conta do desrespeito pela verdade é que o falador de merda, para Frankfurt, é mais perigoso que aquele que mente.

Um dos exemplos de Frankfurt remete a um orador do Quatro de Julho, data da independência americana --um correspondente brasileiro seria facilmente encontrado. Em um inflamado discurso, o homem dirá: "Somos um grande e abençoado país, cujos fundadores, sob orientação divina. criaram um novo começo para a humanidade!"

Segundo Frankfurt, o orador não está mentindo, porque não tem a intenção de provocar na platéia crenças que considere falsas. Mas também não se importa com o que a platéia pensa sobre os fundadores do país e o papel da divindade na história dos EUA. "A opinião dos outros sobre ele é o que o preocupa. Ele quer ser considerado um patriota", explica Frankfurt.

O filósofo continua a divagação dizendo que, atualmente, parece "inevitável" não falar merda. Por quê? A teoria dele: "É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo". E nos dias de hoje, em que todo mundo precisa ter opinião sobre tudo (é quase um dever cívico, polemiza Frankfurt), se fala a primeira coisa que se vem à cabeça, seja ela coerente ou não com a verdade e os fatos.

E não é exatamente essa a postura de tantos políticos, publicitários, comerciais, artigos etc.? "Dane-se o conteúdo, o que vale é falar bonito" ou "dane-se se é verdade, o que importa é vender bem". "Sobre Falar Merda" diz que sim.

"Sobre Falar Merda"
Autor: Harry G. Frankfurt
Tradução: Ricardo Gomes Quintana
Editora: Intrínseca
Quanto: R$ 19,90 (68 págs.)

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