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09/11/2005 - 09h40

DVD recupera Golias dos anos 60

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SÉRGIO RIZZO
Colaboração para a Folha de S.Paulo

"Ih, ó a audácia do bofe." Demora um bocado até que Pacífico, um dos personagens mais populares de Ronald Golias (1929-2005), solte um de seus bordões clássicos em "Golias contra o Homem das Bolinhas" (1969), penúltimo de seus nove longas-metragens para cinema e o primeiro lançado em DVD.

O título faz parte do pacote inaugural da Coleção Herbert Richers, do qual também fazem parte "É de Chuá" (1958), com Ankito e Grande Otelo, e "Entrei de Gaiato" (1960), com Zé Trindade e Dercy Gonçalves.

Golias está no título, abre e encerra o filme, mas o protagonista é o ator italiano Otelo Zeloni (1921-1973), à época seu colega no programa de TV "A Família Trapo" (1967-1971), no papel de Augusto, quarentão que trabalha há mais de 20 anos em uma indústria de tapetes.

Dominado pela mulher (Zilda Cardoso), obrigado a sustentar os sogros e o cunhado, ele se vê confundido com o assassino de Arlete (Íris Bruzzi), uma loira fatal, porque, além de estar no lugar errado e na hora errada, usa na ocasião do crime uma ridícula gravata azul de bolinhas brancas.

Além da oportunidade de rever os dois atores, responsáveis por um dos principais capítulos na história do humor na televisão brasileira, essa comédia de costumes com ares de chanchada e trama policial tem interesse quase antropológico, ao registrar, em locações, a capital paulista no final dos anos 60. "Veja a Nova São Paulo - A Cidade que se Humaniza", diz um outdoor, ironia involuntária que o tempo se encarregou de produzir.

Na seqüência dos créditos, Pacífico sai voando --não convém explicar como, mas é coisa de Golias-- e, depois de quase trombar no edifício Itália, passa pelo hotel Hilton da avenida Ipiranga ainda em construção (o prédio em obras será palco de outra cena), por um Vale do Anhangabaú com um desenho muito diferente de hoje e pelo Museu do Ipiranga.

Augusto conhece Arlete em um bar do Conjunto Nacional, com mesas em ampla calçada (o dobro da largura atual) de uma avenida Paulista incrivelmente tranqüila.

Do lado oposto, operários erguem o Center 3. E como a cidade acompanha o caso do assassino da gravata? Pelas manchetes do extinto diário "Notícias Populares".

"Golias contra o Homem das Bolinhas" foi o último dos seis longas-metragens do comediante produzidos por Herbert Richers, o único deles colorido e o quinto assinado por Victor Lima.

Lima também dirigiu "Os Três Cangaceiros" (1959), com Ankito e Grande Otelo, "Tudo Legal" (1960), com Jô Soares, "O Homem que Roubou a Copa do Mundo" (1961) e "Os Cosmonautas" (1962), ambos com Grande Otelo --que co-estrelou ainda "O Dono da Bola" (1961), dirigido por J. B. Tanko.

Sem Richers, Golias atuou em "Marido Barra Limpa" (rodado em 1957, mas finalizado dez anos depois), de Luiz Sérgio Person, "Vou te Contá" (1958), de Alfredo Palácios, e "Agnaldo, Perigo à Vista" (1969), de Reynaldo Paes de Barros.

"Golias ia bem na TV quando o convenci a trabalhar comigo", diz Richers, 82. "Sua agenda era difícil, por causa do trabalho na televisão, o que dificultava as filmagens. Seus filmes não fizeram sucesso como os de Oscarito, mas foram bem. O de maior bilheteria foi "Os Três Cangaceiros"."

Richers

Ex-funcionário da Atlântida, Richers começou a trabalhar no cinema em 1941 e abriu sua produtora em 1948, com o objetivo de fazer cinejornais.

Em 1955, já produzindo longas de ficção, comprou as instalações da Brasil Vita Filmes, de Carmen Santos, no Rio de Janeiro, onde funciona até hoje, com 11 estúdios de dublagem e dois para filmagem.
No período mais prolífico, orgulha-se de ter produzido cinco longas por ano. "Em alguns casos, levávamos apenas 45 dias do início das filmagens até o lançamento", afirma Richers.

"Como não havia financiamento à produção, o dinheiro investido precisava retornar logo. Isso forçava os produtores a fazer filmes para o grande público; caso contrário, eles não davam dinheiro e comprometiam a sobrevivência. Hoje, os produtores fazem filmes para ganhar dinheiro fazendo os filmes, sem se preocupar se eles terão bilheteria ou não."

O portfólio de longas-metragens de Richers, composto por 60 títulos, é bem mais diversificado do que se costuma imaginar.

Ao lado de comédias com Golias, Ankito, Grande Otelo e Zé Trindade, sua produtora realizou "Assalto ao Trem Pagador" (62), de Roberto Farias, e "Vidas Secas" (64) e "Fome de Amor" (68), ambos de Nelson Pereira dos Santos, além de distribuir filmes como "Boca de Ouro" (62), também de Nelson Pereira, e "Os Cafajestes" (62), de Ruy Guerra.

"Sempre me dei muito bem com o pessoal do cinema novo. Distribuí vários filmes deles", diz.

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