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20/04/2006 - 09h07

DJ Hum busca nova cara do hip hop nacional com Motirô

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MARY PERSIA
da Folha Online

Para quem tem 1988 cravado na memória, as batidas dançantes criadas por DJ Hum para o Motirô podem causar estranhamento. Não têm qualquer relação com "Corpo Fechado", gravação de estréia de sua extinta dupla com Thaíde. Quem vem acompanhando os últimos passos do músico-produtor, porém, verá coerência num caminho denunciado por "Sr. Tempo Bom" (1996) e definido por "Senhorita" (2003).

Divulgação
DJ Hum e Lino Crizz, do Motirô
DJ Hum e Lino Crizz, do Motirô
Com "Um Passo à Frente - Episódio 1", disco de estréia do projeto Motirô --cujo show de lançamento acontece no dia 28, no Sesc Pompéia--, Hum pretende reconquistar, ao lado do vocalista Lino Crizz, o espaço dos bailes black. É o "hip hop party", a música de pista que diverte abusando da mistura de referências, numa pegada oposta aos discursos politizados e batidas cruas que mantêm seu espaço no rap nacional. Uma escolha que reuniu algumas críticas, rebatidas pelo DJ: "As pessoas podem pesquisar as origens da coisa e ver que o hip hop começou com festa. O protesto e a denúncia foram conseqüências do que se vivia na época".

Humberto Martins, 38, diz não temer ser chamado de "vendido" ou ser acusado de esquecer suas raízes, a exemplo do que aconteceu com Xis e seu "Us Mano e As Mina" no início desta década. "Aprendi com a Zulu Nation e com Afrika Bambaataa que o invejoso, na verdade, quer ser você", diz o DJ. "Xis foi uma peça importante para essa renovação do hip hop nacional. Ele conseguiu ir para o outro lado, assim como os Racionais MCs foram os maiores responsáveis por um entendimento do rap pelas classes média e alta."

Para ele, falta ao rap nacional abrir a mente para uma pesquisa musical mais ampla, além de diversificar os temas. "O hip hop brasileiro se politizou demais. E por uma causa que, em geral, não deu apoio ao hip hop", diz, referindo-se à esquerda paulistana que, em sua opinião, não incentivou artistas do meio. "Eu, hoje, estou aqui. Mas, da minha geração, quem sobrou? Se em 1994 havia cem grupos de rap, hoje sobramos eu, Racionais MCs e Thaíde. Do Pavilhão 9 só ficou o Ro$$i. Deve haver apenas uns 15 na ativa."

Divulgação
DJ busca novo hip hop
DJ busca novo hip hop
Hum começou a lidar com música aos 14 anos, fazendo bailes de escola. Gravou o primeiro trabalho aos 19 e, por 17 anos, foi parceiro de Thaíde. A dupla precursora do rap nacional se desfez em 2001, sem "treta", garante. "Foi uma missão. Eu e Thaíde passamos mais da metade da nossa carreira explicando o que é o hip hop, falando sobre os quatro elementos [DJ, MC, break e grafite]. Aos poucos, concluímos que nossa missão havia terminado e que queríamos fazer coisas diferentes." A finada dupla prepara para 2007 o lançamento de material inédito em CD e DVD (boa parte do início da carreira, como registros de shows em clubes), além de uma coletânea.

Na visão do produtor, um caminho para a cultura hip hop seria, então, apostar nas festas black, o que significa optar por músicas mais dançantes, relembrando os tempos de Sowetto, os primeiros anos do Dolores e o Brancaleone, entre outras casas paulistanas que ficaram famosas pelas noites black. Ele diz que, hoje, o espaço para os artistas do meio ficou pequeno.

"Até 2000, você só via lambe-lambe de grupos de rap, como Racionais MCs, Thaíde e DJ Hum, Pavilhão 9 e Doctor MCs. Vivíamos de shows enormes. Hoje, só há lambe-lambe de grupo de forró, calipso, axé", destaca. "O hip hop é uma cultura de rua, mas é fincado na dança e no DJ --o rap se tornou a parte comercial--, mas perdeu o espaço dos bailes, dos clubes da periferia. As equipes de som precisam de músicas dançantes para levar o público. O BPM [batida por minuto] das músicas em São Paulo foi diminuindo muito, as letras começaram a ficar iguais, sempre com o mesmo tipo de denúncia. Isso foi cansando o público", avalia.

Árabe, indiano, porto-riquenho, brasileiro

O Motirô começou com "Senhorita", faixa lançada em 2003 exclusivamente em vinil, para os DJs dos bailes black. A música passou a aparecer nas rádios e na internet em 2004 e, em 2005, correspondeu a um dos toques de celular mais baixados no país. Segundo single do álbum, o reggaetón "Chegou o Verão", segue a mesma trilha.

Divulgação
Tio Fresh, Wilson Sideral e Mara Nascimento estão no CD
Tio Fresh, Wilson Sideral e Mara Nascimento estão no CD
"Escrevemos 'Senhorita' com base no amor adolescente. É aquela piração, você vai ao bailinho, quer pular montanha, ser herói. 'Ela é Sexy' fala também da mulher sensual, cantamos as coisas do dia-a-dia", diz ele, ressaltando que a nova faixa de trabalho não está tão distante assim da realidade da periferia: "A gente fala que é preciso ter o feminino para dar certo na vida, fala do amigo que 'quebrou' porque não tinha uma companheira para dar força. Isso ficou esquecido durante muito tempo, desde o início dos anos 80".

A parceria com Lino Crizz (ex-Gueto Jam e ainda na Jam Suburbana, liderada por Bocato) lhe pareceu algo natural quando avaliou o caminho que estava seguindo. Integrante dos Metralhas, "concorrente" (nas palavras do DJ) de sua dupla nos anos 80, o vocalista foi convidado em 1995 para participar do disco "Preste Atenção", cuja maior sucesso foi "Sr. Tempo Bom". Ieda Rios e Paula Lima também cantaram no álbum.

O show de "Um Passo à Frente - Episódio 1" (nascido no selo Humbatuque, do DJ, em parceria com a EMI) terá participações do Bocato, Wilson Sideral (que participa do álbum, como o irmão Rogério Flausino, do J. Quest), o rapper DeLa Souza, que rima em castelhado, Mara Nascimento e Tio Fresh, do SP Funk. Com influências de diversas partes do mundo, o disco é, para Hum, um "álbum de world music".

Eduardo Knapp-02.ago.2000/Folha Imagem
Dupla com o rapper Thaíde terminou em 2001
Dupla com o rapper Thaíde terminou em 2001
A faixa "Vamos Nessa (Mira)" mistura portunhol com algo do bhangra indiano. "Música no Ar" mescla baião com uma levada árabe. "Ela É Sexy" (que deve ser a próxima música de trabalho) usa tambores, numa sonoridade africana que adquiriu um clima de pista. E há ainda o reggaetón porto-riquenho de "Chegou o Verão". "É world music, mas sem sair do contexto do hip hop", diz o produtor. O Brasil, claro, também está lá --30% dos samplers são daqui.

Tudo, diz o produtor, para encontrar a cara do hip hip nacional. "O Brasil precisa criar um novo segmento de hip hop --ou será uma 'geléia geral' ou vamos criar um padrão próprio como o pessoal de Porto Rico, Panamá e Costa Rica criou o reggaetón. Eles estão há mais de dez anos na mesma batida, mas foram modificando as letras, trazendo mais sensualidade, amor, grooves mais instrumentais como o dub", afirma.

Para começar essa busca, diz ele, é preciso primeiro mudar de postura. "Acho que as pessoas precisam começar a ver o rapper e o DJ também como visionários. Há crise no país, no mundo inteiro, mas as pessoas precisam valorizar outras coisas. É meio inspiração divina, tem de saber captar as coisas."

Motirô - "Um Passo à Frente - Episódio 1"
Quando: sexta-feira, dia 28, às 21h (abertura às 20h com os DJs Grand Master Ney e Silvinho)
Onde: Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, tel. 0/xx/11 3871-7700). Site: www.sescsp.org.br
Quanto: R$ 5 a R$ 15

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