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25/04/2006 - 17h03

Livro compõe história sobre gays no Brasil desde 1870

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SÉRGIO RIPARDO
Editor de Ilustrada da Folha Online

"As Bodas do diabo". Foi assim que a revista "Fatos & Fotos" noticiou o primeiro casamento entre dois homens no Brasil, em dezembro de 1962, em Copacabana, no Rio. A reportagem refletia o preconceito com descrições do tipo a "solenidade mais espantosa do século", uma "afronta às leis do país", uma "caricatura grotesca". O registro consta de "Frescos Trópicos", recém-lançado pela editora José Olympio (leia trecho).

Reprodução
Livro registra vida gay no Brasil desde 1870
Livro registra vida gay no Brasil desde 1870
Escrito por James N. Green e Ronald Polito, o livro de 192 páginas tenta organizar as fontes sobre a homossexualidade masculina no Brasil entre 1870 e 1980. É um esforço de compor uma breve história sobre a vida gay em um país de passado agrário, cultura conservadora e silêncio público sobre crimes de homofobia e os direitos desse grupo social. Também são descritos personagens como Madame Satã, Ney Matogrosso, Rogéria e Celso Cury.

Mas é na seara das curiosidades que "Frescos Trópicos" torna a leitura agradável. Há relatos interessantes sobre o cotidiano dos gays no passado. No Rio, no início do século 20, "gouveia" era gíria para homem velho que deseja garotos jovens. A pretensa primeira história pornográfica homoerótica brasileira chamava-se "O Menino do Gouveia" e foi publicada pela revista "Rio Nu", em 1914, que trazia a ilustração de dois homens durante o ato sexual.

Portas dos teatros

Registros de hospitais, como o Sanatório Pinel de São Paulo, revelam que os médicos tratavam a homossexualidade como uma doença. Havia um certo desespero em compreender os gays e fornecer uma explicação científica para o comportamento.

Em 1872, foi desenvolvido na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro o primeiro trabalho científico no país em que dedicava um capítulo exclusivo para a "sodomia ou prostituição masculina". Realizado pelo médico Francisco Ferraz de Macedo, a pesquisa tinha o objetivo de auxiliar no tratamento da sífilis.

"Não é raro encontrarmos pelas ruas da cidade, especialmente nas portas dos teatros, quando há espetáculos, rapazes de 12 e 20 anos, trajando fina bota de verniz, calça do mais fino tecido unida ao corpo, feita assim expressamente para desenhar-lhe as formas", descrevia o médico, com especial atenção ao vestuário de sua objeto de pesquisa.

"Pederastas em todo canto"

Colégios e internatos eram vistos , no Brasil Império (1822-1889), como um reduto onde "proliferaria a perversão sexual, tanto de meninos quanto de meninas, cabendo aos professores, inclusive, o papel de corruptor".

Citado em "Frescos Trópicos", o livro "Homossexualismo", de 1906, era categórico ao afirmar que "pederastas ativos e passivos" existiam em todas as classes sociais do Rio, inclusive na Igreja, no Exército e nas Forças Navais, entre funcionários públicos, diplomatas e juízes.

Os autores de "Frescos Tópicos" buscam mapear ainda a abordagem da homossexualidade nos relatos da imprensa. Eles arriscam até uma data: 1977 foi o ano da "verdadeira explosão" do tema em jornais e revistas de grande circulação, em que os "gays tinham se tornado um assunto público de grande relevância". São lembradas publicações como o "Jornal do Gay", "Entender", "Mundo Gay", "O Lampião", "O Snob", entre outras.

Gays assobiam?

Há também registros engraçados, como a discussão médica no século 19 se os gays são capazes ou não de assobiar. Pires de Almeira, autor do livro "Homossexualismo", ponderava: "Os que não sabem assobiar são unicamente os pederastas passivos; uns, pelo abalo incômodo que produz, no reto, não só esse, como outros movimentos mais ou menos violentos; a tosse, o espirro".

Assustador? "Frescos Trópicos" também relaciona os registros jurídicos, que faziam referências aos gays como criminosos, prevendo até um ano de cadeia se "atos libidinosos entre indivíduos do sexo masculino causarem escândalo público", como apontava a proposta de um jurista para um artigo do Código Penal no final dos anos 30.

"Felizmente, o artigo 258, bem como a cláusula, foram cortados da última lista de propostas para o Código Penal de 1940", cita o livro. Nada que tenha impedido que Brasil seja apontado como o campeão mundial de assassinatos de homossexuais, com uma média de 104 mortes por ano, em uma pesquisa do Grupo Gay da Bahia publicada em 2002.

Luiz Mott, antropólogo e fundador dessa ONG, leu "Frescos Trópicos" e fez ressalvas: "O livro trata quase exclusivamente de homossexuais masculinos brancos, como se o Brasil se limitasse à cama dos cariocas e paulistanos."

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