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09/06/2006 - 11h13

Centro quer sistematizar criações de João Gilberto em partituras

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LUIZ FERNANDO VIANNA
da Folha de S.Paulo, no Rio

Rei das dissonâncias, João Gilberto completa 75 anos amanhã envolto em um paradoxo: é mais alvo de reconhecimento do que de conhecimento. Sabe-se que ele é um dos maiores nomes da música brasileira, mas é só por ter inventado a tal "batida da bossa nova"?

"João é um criador de linguagem, de uma estética. Está à altura de um Guimarães Rosa. Não podemos deixar de mapear esse patrimônio", diz a escritora e pesquisadora Edinha Diniz, biógrafa de Chiquinha Gonzaga e estudiosa da música de João.

Edinha é a coordenadora-geral do Centro de Estudos João Gilberto, associação sem fins lucrativos criada para sistematizar o conhecimento sobre o artista e torná-lo passível de novas interpretações, já que imitações são impossíveis.

O núcleo está em busca de patrocínio para pôr na internet um amplo banco de dados --amparado nos 10 mil documentos de Edinha. E mais: transformar em partituras todas as gravações de João.

Para se medir a empreitada, só uma versão de "Pra que Discutir com Madame?" tem mais de 400 compassos. E a discografia oficial de João tem, até agora, 196 faixas.

"Os livros habituais de partituras só anotam melodia e harmonia, mas em João o ritmo também é fundamental. E é preciso mostrar as mudanças de acordes, porque as diferenças e repetições são cruciais na sua estética", avalia o maestro baiano Aderbal Duarte, 56, há três décadas estudando seu conterrâneo e responsável pelas partituras do projeto.

O plano do CEJG é lançar um primeiro volume de partituras que cubra toda a carreira de João, com níveis crescentes de dificuldade. Depois, cada disco ganharia um livro correspondente trazendo todos os malabarismos harmônicos.

"Não existe uma batida de João, mas várias batidas. É possível isolar quatro ou cinco mais importantes, reincidentes. Mas muitas vezes ele usa pedaços delas. Então, o que há são células rítmicas", ensina Duarte, ressaltando que João sintetizou no seu violão várias sonoridades brasileiras, dos graves do violão de sete cordas aos agudos do cavaquinho. "Ele expandiu muito os recursos do violão, um instrumento com menos possibilidades do que o piano", diz.

O violonista Turíbio Santos, de formação erudita, já tentou reproduzir os movimentos de João e percebeu a sua complexidade. "É uma orquestrinha", resume, espantado também com o entrosamento entre voz e instrumento. "Parece que ele tem dois cérebros. A precisão é infalível."

João já disse em algumas ocasiões que voz e violão precisam formar um conjunto só, sem que uma parte ofusque a outra. Ele fica um tanto deslocado no Brasil, onde a supremacia é das canções --das letras delas sobretudo.

"É preciso pôr a história na música", já disse ele, que vê a letra como parte de um todo no qual a melodia e o ritmo (o seu famoso balanço) têm a mesma importância.

"Cantar e tocar no Brasil com suingue é João 10 a 0", exalta Dori Caymmi, discípulo ilustre, pois filho de um dos grandes ídolos de João. "O violão de papai influenciou o de João nos sambas, como "Doralice" e "Saudade da Bahia", por causa do balanço. Mas João fez o primeiro movimento do violão moderno brasileiro, juntando samba, Nordeste e a influência jazzística", diz.

Dori não deixa de citar como outros dois grandes renovadores do instrumento Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, e Baden Powell, exatamente os violonistas preferidos de outro craque do instrumento, Guinga. "João não bateria violão daquele jeito se não tivesse ouvido Garoto, ou mesmo músicos de estúdio como José Menezes", diz Guinga.

Mas ele reconhece a peculiaridade do estilo de João. "É preciso ter uma inteligência especial para tocar aquele violão, que só ele sabe tocar. Não dá para imitar. Ele estudou muito para fazer aquilo. O solo de "Na Baixa do Sapateiro", por exemplo, é um passo adiante na história. É como se ele solasse de dentro do braço do violão, pelo avesso", exalta.

Embora dando um algo a mais à maneira de se tocar samba, João nunca deixou de reforçar que sua matéria-prima é essa: o samba.

"Ele mostrou aos bossanovistas de suéter e mocassim que bossa nova sempre foi sinônimo de samba, desde Denis Brean, Osvaldo Guilherme, Haroldo Barbosa, Janet de Almeida e até de Jaime Silva, que de "Pato" não tinha nada", aponta o compositor e escritor Nei Lopes, referindo-se a autores caros a João.

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