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13/11/2000 - 10h01

Roberto Carlos volta entre lágrimas e lucros

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da Folha de S. Paulo

Cesar Rodrigues/Folha Imagem

Roberto Carlos durante
show em Recife (PE)

São quase 23h de uma quente noite de sábado na capital de Pernambuco. Dentro do Geraldão, o principal ginásio de esportes da cidade, o público está impaciente. O show de Roberto Carlos deveria ter começado há uma hora e meia.

As cerca de 9.000 pessoas que lotam o lugar repetem em coro: "Olha a hora, olha a hora". Nas arquibancadas predominam os grupos de mulheres acima dos 30 anos, muitas além dos 50, e de aspecto popular. O público de Roberto tem hoje um forte componente classe D.

Algumas mulheres -cerca de 70% dos presentes são do sexo feminino- carregam faixas, com dizeres do tipo "Roberto Carlos, Deus te abençoe". Há um clima de romaria no ar. Poderíamos estar na Basílica de Nossa Senhora de Aparecida.

Há três explicações de por que Roberto escolheu Recife para voltar, depois de quase um ano longe do palco -o último show havia sido em Jaguariúna, interior de São Paulo, em 26 de novembro do ano passado.
A primeira é dos assessores e da gravadora Sony. Tratava-se de um compromisso já assumido quando a sequência de shows foi interrompida pela morte da mulher, Maria Rita Simões, em dezembro de 1999.

A segunda é a do próprio Roberto, apresentada na entrevista coletiva que concedeu à tarde no elegante Hotel Sheraton Recife. "A primeira vez que eu viajei para fazer um show fora do Rio de Janeiro foi para Recife", contou. "Foi a primeira vez que eu tive esse contato de artista com o público fora de sua cidade. Por isso, a primeira cidade que eu pensei foi Recife. Pensei também em Cachoeiro, mas pensei em Recife."

A terceira é fornecida por gente que convive com o rei há muitos anos: ele gosta de cantar em ginásios. Junto tudo e, enquanto espero, formulo uma quarta hipótese. No Geraldão, onde já se apresentou várias vezes, Roberto sabe que estaria em contato com um certo Brasil. Esse Brasil que passa pelo "Fantástico", pelo Ratinho, a quem Roberto aliás, durante a entrevista, agradeceu o apoio, e pelo padre Marcelo Rossi.

Digo a mim mesmo que o outrora rei da juventude, que um dia arrastou ao teatro Record de São Paulo a filha do então governador Abreu Sodré, fina flor da elite paulista, hoje é o soberano do mundo cão.

Com 20 anos de estagnação econômica nas costas, só com muita fé e com Roberto Carlos o povo pode suportar.

Antonio Conselheiro

Poucos minutos antes das 23h, Roberto entra no palco. Curva-se reverente perante a platéia. Curva-se também diante dos músicos e do maestro Eduardo Lages, que o acompanha há décadas. A humildade do cantor é desconcertante.

Desconfio. Houve momentos na entrevista da tarde em que ele me pareceu julgar-se divino. Alguém que conversa com Deus de igual para igual. Me vem à cabeça a imagem de Antonio Conselheiro.

Roberto abre o espetáculo com "Emoções", de 1981. A voz está solta. Firme, ela flutua com naturalidade sobre o arranjo de grande orquestra. A lição de João Gilberto não foi esquecida.

Mas o rei gosta também de Tony Bennet e, quando chega ao verso "mas eu estou aqui vivendo esse momento lindo", a platéia vem abaixo. O diálogo, contido, do criador da bossa nova com os moradores do Leblon e do Pacaembu não envolveria situações como as descritas na canção de Roberto e Erasmo: "Às vezes eu deixei você me ver chorar sorrindo". Logo, logo vai acontecer outra vez.

Agora são 23h10. O show mal começou e Roberto chora no palco. Cobre o rosto com as duas mãos e cai em prantos. A orquestra pára. O maestro olha para o cantor. Canhões de luzes brancas iluminam o público. "Este nosso encontro demorou, mas vocês entendem muito bem as razões", diz Roberto. Gritaria.

Em seguida, começa a cantar "Como Vai Você", de Antônio Marcos, gravada por ele em 1972. A voz sai estranha. Muito mais anasalada do que de costume. Na entrevista, Roberto havia lembrado que o choro modifica a voz porque congestiona o nariz. De fato, a interpretação de "Como vai você" não ficou boa.

"Amor sem Limite"

Em seguida, soam os primeiros acordes de "Amor sem Limite", o carro-chefe do novo CD, que deveria começar a tocar nas rádios segunda-feira. É um country, com baixo e bateria marcados. Há um solo de guitarra entre a primeira e a segunda parte da canção.

Enquanto os músicos sustentam a introdução, Roberto explica o sentido da canção que vai cantar. "Esse trabalho fala de amor sem falar de dor. É o trabalho que Maria Rita gosta que eu faça." O cantor fala da mulher no presente. Na entrevista havia afirmado ter certeza "de que ela está vendo tudo isso". Sorri. Parece feliz.

"Amor sem Limite" voltará no fim do show. Junto com "Tu és a verdade, Jesus" são as únicas composições novas que ele apresentará no Geraldão. As outras são velhos hits. A sequência começa com "Desabafo" ("Por que me arrasto a seus pés?/ Por que me dou tanto assim?"), que ele fez com Erasmo em 1979, e o mais famoso de todos, "Detalhes" (1971).

Agora o público não canta junto. Canta no lugar de Roberto. Por vezes, ele parece perder-se do andamento, adiantar ou atrasar em relação à orquestra. Faz gestos para o maestro Lages. Mas o ginásio, que entoa em uníssono "você é a saudade que eu gosto de ter", da canção "Outra Vez", composta por Isolda e gravada pelo rei em 1977, comoveria até as pedras.

Chegou a hora do túnel do tempo. Roberto embarca em lembranças da jovem guarda, uma época em que a intelectualidade flertava com o jovem que dirigia um programa cujo nome foi inspirado por uma frase de Lênin. "Eu era feliz e não sabia", diz ao público do Geraldão.

Os intelectuais já se foram há muitos anos, mas com o rock "Eu te Amo, Eu te Amo, Eu te Amo", de 1967, Roberto retoma o controle do espetáculo. A voz firme e os tempos certos outra vez. Depois, recita um longo texto sobre a década de 60. O mesmo usado na turnê "Romântico", que realizou por dois anos (1998-1999) até que a morte de Maria Rita tirou-o da estrada. A seguir, canta "Jovens Tardes de Domingo" (1977).

Seguro, emenda um sucesso no outro, na forma de pot-pourri. Surgem rápidos trechos de "Nossa Canção" (1966), "Eu Sou Terrível" (1967), "O Taxista" (1994), "As Curvas da Estrada de Santos" (1969), "120...150...200 km por Hora" (1970), "Por isso Eu Corro Demais" (1967), "Parei na Contramão" (1963), "O Calhambeque" (1964) e "Olha" (1975).

Só faltou "Quero que Vá Tudo pro Inferno" (1965). A explicação, implícita, vem a seguir. "Tenho questionado tudo, mas uma verdade é inquestionável: Jesus", e o público aplaude. Começa a fase religiosa do espetáculo.

O Geraldão retoma o ar de basílica, com o público alçando as mãos para o céu, enquanto Roberto interpreta a nova "Tu És a Verdade, Jesus", "Nossa Senhora" (1993) e "Luz Divina" (1991).

Nos telões, diferente de outros anos, não aparecem imagens religiosas. Só cenas de natureza. O rei estaria menos fervoroso? A verificar. Já é bem mais de meia-noite e o show caminha para o seu final.

Antes de entrar no encerramento, Roberto volta a conversar com a platéia. Anuncia "Eu te Amo Tanto", "a canção mais importante da minha vida", que escreveu, sem Erasmo Carlos, para Maria Rita, em 98. "É uma canção que fala...", a frase fica pelo meio. Ele está chorando outra vez.
"Descobri recentemente que amor não tem nada a ver com paixão", continua. Aplausos. "A paixão é uma reação química. O amor é uma energia, porque Deus é amor." Ao cantar, aparecem nos telões imagens de Maria Rita. Segundo assessores, Roberto estuda a inclusão da música no CD que chega às lojas dia 24.

Roberto espera, conta o presidente da Sony, José Antônio Éboli, chegar a uma venda de dois milhões de CDs este ano. A média estava em torno de 1.200.000 em 1996, quando saiu o último disco do rei só com material inédito.

Depois de interpretar de "Eu te Amo Tanto", Roberto canta outra vez "Amor sem Limite" ("Quando a gente ama alguém de verdade/ Esse amor não se esquece/ O tempo passa, tudo passa/ Mas no peito o amor permanece").

Começa o ritual de distribuição de rosas vermelhas e brancas, que ele beija e joga para o público. É como se as abençoasse. Mãos se estendem ansiosas para agarrar as flores e ele recebe presentes, que são levados para os bastidores. A imagem de Antonio Conselheiro volta à minha cabeça.

É quase uma da manhã. Roberto distribui centenas de rosas. A cerimônia estende-se por dez minutos. Depois agradece e sai do palco. Enquanto me espremo junto ao povo pernambucano que tenta sair do Geraldão, procuro conciliar a imagem do homem à beira da santidade que acabo de ver com o esquema promocional que sei estar mobilizado para vender milhões de discos e shows como este. Vou dormir confuso.

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