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15/12/2000 - 04h07

HQ: Lourenço Mutarelli lança "O Rei do Ponto" em SP

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No sexto dia, Deus criou o homem. E deu no que deu.
Bem mais modesto - e talvez menos entusiasmado - o quadrinista Lourenço Mutarelli criou um detetive fracassado, que não consegue levantar sequer o dinheiro para um sofá de três lugares tão sonhado pela mulher.

Mulher, aliás, que o trai com um técnico de aparelhos de televisão. Diomedes, o extremo oposto de Sherlock Holmes, é o personagem central do álbum "O Rei do Ponto" (segundo de uma trilogia iniciada com "O Dobro de Cinco"), que Mutarelli lança hoje em São Paulo, pela editora Devir.

Leitor de romances policiais norte-americanos -mas apaixonado também por Kafka, Dostoiévski e Strindberg-, o quadrinista paulistano procurou sintetizar em Diomedes todas as fraquezas, mazelas e imperfeições de uma realidade terceiro-mundista.

O detetive nem de longe possui o glamour dos personagens de Raymond Chandler, David Goodies ou James Ellroy. Não tem sequer o charme de um anti-herói. O álbum, no entanto, se equipara em qualidade às histórias dos grandes autores mundiais de quadrinhos, como Will Eisner, Moebius ou a dupla Alan Moore e David Lloyd.

Os leitores brasileiros de HQ já conhecem a criatividade de Mutarelli. Desde o lançamento de "Transubstanciação" (1991), troféu de melhor história da Primeira Bienal Internacional de Quadrinhos do Rio de Janeiro, o quadrinista não parou de publicar novos álbuns e de colecionar importantes prêmios: ganhou seis HQMIX, dois Ângelo Agostini e um Nova. Em outubro, teve sua obra exposta em uma sala inteira no Festival Internacional de Amadora, em Portugal.

"Fiquei impressionado pelo respeito que os europeus nutrem pela arte dos quadrinhos", diz.

As histórias de Mutarelli têm primorosos enquadramentos, sequências, composições de cenas e jogos de luz e sombra. O roteiro e os diálogos também demonstram a destreza de um atento consumidor de literatura.

"Quando crio uma sequência, penso como um diretor de cinema. Tento explorar ao máximo as técnicas de enquadramento e de ângulos inusitados.
No tratamento de cada quadro, procuro agir como um pintor", enfatiza.

Em vários trechos de "O Rei do Ponto" há, inclusive, sugestões de trilha sonora, anotadas à margem dos quadrinhos.

Em uma das sequências finais, por exemplo, o autor indica a audição de "XiqueXique", de Tom Zé e José Miguel Wisnik, para acompanhar a perseguição de um ladrão de carros pelo detetive Diomedes, montado em uma retroescavadeira.

Além de mais um elemento da história, isso deriva de um hábito antigo: Mutarelli costuma desenhar todos os dias, sempre ouvindo música, de Gardel a John Cale, Bob Dylan, Tom Zé e Elomar.

O volume que fecha a trilogia com o personagem Diomedes já está em andamento e deve ser lançado em 2001.

Mutarelli fez de tudo para assassinar o personagem logo na primeira história, mas não conseguiu: o detetive insistiu tanto que acabou conseguindo sobreviver. Mesmo sem dinheiro, bebendo muito e apanhando à beça, deixou claro para o autor que não está disposto a desistir facilmente.

"Diomedes tem muito a ver com a realidade que os próprios artistas vivem no Brasil. As pessoas pensam que todos os verdadeiros criadores são famosos, aparecem na TV, ganham muito dinheiro. A maioria tem que suar muito para pagar o aluguel."

Álbum: O Rei do Ponto
Autor: Lourenço Mutarelli
Editora: Devir
Quanto: R$ 17,50 (114 págs.)
Lançamento: hoje, às 19h30
Onde: Merlin Comics Store (r. Fradique Coutinho, 612, tel. 0/ xx/11/3272-8200)
 

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