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19/01/2001 - 04h56

Shyamalan dialoga com "Sexto Sentido" e HQs

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ALCINO LEITE NETO, da Folha de S.Paulo

Há uma grande expectativa dos fãs de "O Sexto Sentido" a respeito do novo filme de M. Night Shyamalan, "Corpo Fechado", que finalmente estréia hoje.

"O Sexto Sentido" era aquele filme cujo início só se podia contar
parcialmente, a fim de não revelar o final. "Corpo Fechado" também é assim, mas, para não decepcionar o leitor, farei um resumo do enredo no final deste artigo.

As reações ao novo filme (cujo título no original é "Inquebrável") serão polêmicas. Os espectadores deverão se dividir em dois blocos: os entusiastas e os decepcionados.

Uns contra os outros, vão travar discussões intermináveis sobre qual dos dois filmes é o melhor, qual tem mais pegadinhas para o público, qual deles termina de maneira mais surpreendente.
Será o pior dos debates.

O melhor a fazer é descobrir o que há de comum e contíguo nos dois filmes desse curioso diretor de 30 anos, nascido em Pondicherry (Índia) e criado nos EUA.

O principal valor de Shyamalan não está na sua capacidade de passar a perna no público, mas no modo como consegue conduzir a imaginação do espectador por um terreno movediço, ambicioso.

Nesse terreno, a principal rota diz respeito à nossa capacidade de acreditar e de iludir.

Para o diretor, estamos num mundo de interesses mesquinhos e gente esgotada, cuja vida é uma narrativa pequena, sem graça e sem sabedoria. Por não acreditarmos em nada de grandioso, vivemos cercados de ilusões banais.

Tanto "O Sexto Sentido" quanto "Corpo Fechado" descrevem o processo pelo qual um homem é levado com muito custo a acreditar no que lhe parece improvável.

Esse processo, feito sempre com a ajuda de um menino (o público-alvo é a criança em nós), vai pouco a pouco arrancando o protagonista de sua trivialidade, ao mesmo tempo em que deixa formar em torno dele o suspense de um grande drama transcendente.

É aqui que os filmes se distinguem. Em "O Sexto Sentido", o suspense culmina na descoberta do próprio personagem de que, por não ter acreditado na morte, ele não foi capaz de entender o que fora feito de sua existência.

Em "Corpo Fechado", o final expõe como o sujeito só é capaz de se dar conta do dom ou do bem que representa sua vida se acreditar no que lhe sopra aos ouvidos o mal absoluto -que portanto não é uma fonte de ilusão ou erro, mas parte do conhecimento de si.

São assuntos um tanto pesados, repletos de reminiscências religiosas, talvez orientais, organizados num plano mental que não vê negação entre fatores que em geral julgamos contraditórios (vida e morte, mal e bem etc.).

Mas Shyamalan aborda tudo isso em registro popular, num clima de realismo esotérico, bem ao paladar das audiências contemporâneas, embora com toques de perversão e crítica. Por exemplo, quando ataca a TV e sua banalidade, ao filmar aparelhos de ponta-cabeça ou desligados, refletindo o drama do próprio filme.

Ou na metamorfose que ele impõe no mesmo filme a Bruce Willis e Samuel L. Jackson, protagonistas de "Duro de Matar - A Vingança", ao transformar Jackson num homem que mal consegue andar e Willis num herói que passa mais da metade da história sem saber do que é capaz.

O objetivo de Shyamalan? Parece óbvio: ele quer reforçar a importância das narrativas míticas (sejam as religiosas, sejam as dos quadrinhos) para a compreensão das coisas essenciais da vida e contrapô-las à proliferação de imagens ocas que consumimos.

Em boa parte, o diretor consegue levar a cabo sua fantasia. Às vezes com melhor cinema, às vezes com pior. Às vezes questionando o próprio espetáculo que está afinal produzindo, às vezes assumindo-o com um autômato.

Toda a sequência do trem em "Corpo Fechado" é digna dos melhores diretores. E há outras mais, que testemunham que Shyamalan pode se tornar um dos nomes capitais do cinema americano se for indiano o bastante para aguentar as pressões crescentes da indústria e se conseguir amadurecer junto com o seu público.

Ah, faltou o prometido resumo do filme. Fica para a próxima vez.

Corpo Fechado
Unbreakable
Direção:
M. Night Shyamalan
Produção: EUA, 2000
Com: Bruce Willis, Samuel L. Jackson
Quando: a partir de hoje nos cines Astor, Ibirapuera, Paulista e circuito
 

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