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Colômbia monta seu teatro de guerra

Thomas Traumann
da Folha de S.Paulo

Convivendo há 50 anos com movimentos guerrilheiros, há 25 com produção e tráfico de cocaína e há dois com negociações de paz sem resultados efetivos, a Colômbia está à beira de uma guerra civil sem precedentes.

Nas próximas semanas, o governo da Colômbia, com apoio financeiro e político dos Estados Unidos, inicia uma gigantesca operação militar antitráfico na fronteira com o Equador.

A área escolhida é controlada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o mais antigo, rico e poderoso movimento guerrilheiro do planeta.

O conflito vai se iniciar a mil quilômetros do Brasil, mas existem três riscos de a guerra espirrar para além da fronteira.

O primeiro seria uma fuga dos narcotraficantes, que poderiam instalar laboratórios de cocaína na selva amazônica.

A segunda possível consequência seriam os danos ambientais pela propagação de um fungo transgênico criado para destruir as plantas de coca.

Desenvolvido pelos EUA, o fungo ainda não foi testado no continente e sofre oposição de ambientalistas. O governo da Colômbia nega que irá usar o transgênico.

O terceiro motivo que poderia envolver o Brasil seria o uso da selva amazônica como esconderijo dos guerrilheiros.

Cerca de 10 mil soldados do Exército, da Aeronáutica e da Polícia Nacional colombianos serão usados na operação antidrogas.

Usando helicópteros, aviões e dólares norte-americanos, as Forças Armadas colombianas planejam despejar fungicidas sobre as lavouras de coca, bombardear laboratórios de produção de cocaína e heroína, destruir pistas de pouso clandestinas e abater aviões usados pelo tráfico.

Os EUA estão financiando a operação esperando atingir o cerne da economia do tráfico de drogas. Os norte-americanos são os maiores consumidores de cocaína do planeta; os colombianos, os maiores produtores. Os EUA imaginam que, destruindo a oferta da droga, estarão atingindo também o consumo.

A ajuda norte-americana, incluída em um pacote de apoio internacional batizado de Plano Colômbia, será de US$ 1,3 bilhão. Pelo acordo, o governo da Colômbia deveria entrar com outros US$ 4 bilhões, mas o país atravessa a pior recessão da sua história.

Um terço do dinheiro do Plano Colômbia será doado para os militares. A maior parte será destinada ao financiamento da substituição do plantio ilegal pelo de milho, palma e arroz _projeto que já falhou outras vezes.

O Plano Colômbia tem como meta destruir, até 2005, metade das plantações de coca do país. Isso significaria voltar aos níveis do tráfico de 95, quando existiam 60 mil hectares plantados com coca no país.

"Se acertarmos o narcotráfico, a paz virá mais rápido", disse o conselheiro presidencial e gerente-geral do Plano Colômbia, Jaime Ruiz.

O principal alvo do governo colombiano, porém, são as Farc, que controlam mais de um terço do território nacional.

O governo afirma que mais da metade do dinheiro usado para sustentar os rebeldes vem do narcotráfico. A guerrilha admite que cobra "impostos" dos produtores de coca, mas nega envolvimento com a venda da droga.

Contraditoriamente, o presidente Andrés Pastrana se elegeu dois anos atrás com um discurso pacifista. Iniciou negociações de paz com as Farc, mas até agora os resultados são pífios.

Apenas neste ano ocorreram 150 confrontos diretos entre guerrilheiros e soldados.

Com a chegada do dinheiro norte-americano, o discurso do governo Pastrana mudou.

"Haverá paz, mas antes haverá guerra", disse o comandante-geral do Exército, Fernando Tápias.

As Farc, que desde 1964 se embrenham nos Andes e nas selvas em luta contra o governo, também se preparam para a guerra.

Eles aumentaram os ataques aos Estados litorâneos em busca de uma saída para o oceano Pacífico . A estratégia rebelde é ter uma porta para a entrada de armas (e saída de drogas, segundo os adversários).

De acordo com o governo, as Farc já teriam recebido mais de 10 mil fuzis AK-47 de uma compra total de 50 mil armas contrabandeadas do Oriente Médio.

Também criaram a "lei número 002", exigindo o pagamento de um imposto de todo colombiano que tenha mais de US$ 1 milhão. As Farc ameaçam sequestrar os milionários que não pagarem.

Os rebeldes também planejam aumentar o seu contingente de 15 mil para 20 mil pessoas.

"Se eles colocarem o Plano Colômbia em prática terão o pior conflito que esse país já viu. E nós estamos prontos para ele", afirmou o comandante Raúl Reyes, porta-voz oficial das Farc.

Há ainda mais um complicador: os paramilitares, grupos de extermínio antiguerrilha criados anos 80 pelos fazendeiros com apoio do Exército. Eles já controlam as fronteiras da Colômbia com Panamá e Venezuela. São as regiões onde o plantio de coca cresce mais rapidamente no mundo.

As organizações de direitos humanos estimam que, se o conflito ficar restrito ao sul do país, mais de 50 mil pessoas serão obrigadas a deixar suas casas.

Se a guerra se espalhar por outra s regiões, como admite o serviço de inteligência colombiano, a quantidade de refugiados pode chegar a 1 milhão.

"De um lado você tem o governo, que vai querer demonstrar resultados em troca do dinheiro norte-americano. Do outro, uma guerrilha experiente e que nunca esteve tão forte. No meio, você tem um país absolutamente cansado da guerra", analisou o sociólogo Alfredo Rangel.

A situação lembra o drama do personagem Santiago Nassar, de "Crônica de uma Morte Anunciada". No livro do colombiano Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, todos os personagens sabem que Santiago Nassar vai morrer, mas ninguém faz nada para evitar. Na vida real, todos sabem que a Colômbia caminha para uma guerra civil. E não parece ser possível evitá-la.


 A região
 Imagem
Reuters
Participantes de marcha pela paz seguram fotos de policiais presos pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)

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