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17/04/2007 - 23h54

Atirador comprou arma por US$ 571; Coréia do Sul teme retaliação

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da Folha Online

Após ser divulgada a informação de que o estudante sul-coreano Cho Seung-hui, 23, era o autor do pior massacre já ocorrido em um campus universitário na história dos Estados Unidos, o governo da Coréia do Sul convocou uma reunião especial na manhã desta quarta-feira (ainda noite de terça-feira em Brasília) para discutir o episódio.

Reuters
O atirador Cho Seung-hui, 23, estudava inglês na Virginia Tech
O atirador Cho Seung-Hui, 23, estudava inglês na Virginia Tech
Cho comprou munição e uma das duas armas que utilizou para matar 32 pessoas no campus do Instituto Tecnológico da Virgínia (Virginia Tech) há cinco semanas por US$ 571, afirmou o dono de uma loja de armas de fogo.

O presidente da Coréia do Sul, Roh Moo-hyun, se reuniu com assistentes para supostamente debater a possibilidade de reações negativas contra nativos do país após os atos do estudante da Virginia Tech nesta segunda-feira. Em dois ataques que ocorreram em cerca de duas horas, o estudante sul-coreano matou 32 pessoas [a maioria estudantes] e se suicidou em seguida.

Roh expressou publicamente "vergonha" ao saber que um sul-coreano era responsável pelo massacre. Ele deverá se pronunciar novamente nesta quarta-feira. Na terça-feira, a Presidência sul-coreana divulgou uma nota de condolências que afirmava que o presidente está "chocado além de qualquer descrição com o trágico evento provocado pelo nativo da Coréia do Sul".

"Estamos trabalhando com nossas missões diplomáticas e associações de residentes sul-coreanos em antecipação a uma situação que ainda pode surgir", disse um oficial do Ministério das Relações Exteriores do país.

No campus da Virginia Tech, estudantes sul-coreanos relatam medo. Para a sul-coreana Jiyoun Yoo, 24, apesar de um único sul-coreano ter sido responsável pelo massacre, "talvez isso venha a afetar todos os estudantes da Coréia do Sul". Ela disse que sua família está preocupada com a possibilidade de ela se tornar um alvo por ser sul-coreana.

Massacre

A Virginia Tech foi palco de dois ataques nesta segunda-feira. As duas ações, que ocorreram em lados opostos do campus da universidade, tiveram início às 7h15 (8h15 de Brasília) em West Ambler Johnston Hall, residência estudantil que abriga ao menos 895 pessoas.

Josh Meltzer/AP
Estudante chora em cerimônia de homenagem à vítimas de massacre na Virginia Tech
Estudante chora em cerimônia de homenagem à vítimas de massacre na Virginia Tech
Dois estudantes, Emily Hilscher e Ryan Clark, vizinhos de porta no alojamento, morreram.

Ainda não se sabe com exatidão qual era o tipo de relação entre as vítimas, mas vários meios de comunicação americanos levantaram a possibilidade de um possível triângulo amoroso envolvendo os estudantes e o assassino.

Duas horas depois, Norris Hall, edifício da engenharia, foi alvo de outro ataque a tiros. Outras 30 pessoas morreram, na maioria estudantes.

Venda de armas

De acordo com o dono da loja de armas que atendeu Cho, John Markell, ele entrou na loja em Roanoke e comprou uma pistola Glock 9 milímetros e uma caixa de munição, pagando com cartão de crédito.

A arma foi encontrada pela polícia e continha as impressões digitais de Cho. "Foi uma venda comum", afirmou Markell, acrescentando que o negócio foi fechado em março. "Ele parecia um garoto comum, não venderíamos a arma se ele parecesse suspeito", afirmou.

O número de série da pistola foi apagado, mas a polícia americana rastreou sua origem por meio de uma nota fiscal encontrada na mochila de Cho. "Descobrir que a arma utilizada foi comprada em minha loja foi algo horrível", afirmou Markell.

A polícia também encontrou uma arma calibre 22 que também teria sido usada nos ataques.

Carta

Nesta terça-feira, uma carta encontrada pela polícia aparentemente indica que Cho premeditou a ação. No texto de várias páginas, ele se queixa dos garotos "ricos, festeiros e charlatões" da universidade e afirma que foram eles que "causaram a tragédia".

16.abr.2007/AP
Feridos são socorridos em campus na Virgínia após massacre que matou 32
Feridos são socorridos em campus na Virgínia após massacre que matou 32
Um oficial de polícia que leu a carta deixada pelo atirador a descreveu como uma reclamação datilografada de oito páginas contra garotos ricos e religião. O oficial falou em condição de anonimato.

"Vocês me levaram a fazer isso", teria dito Cho na carta. O oficial afirma que ele indicou que fim estava próximo e que havia uma tarefa a ser concluída.

Cho também expressou desapontamento com religiões e fez várias referências ao cristianismo, segundo o oficial.

Comportamento violento

Segundo o jornal "Chicago Tribune", ele dava sinais de comportamento violento e fora do normal, tendo inclusive ateado fogo a um dormitório e assediado estudantes da universidade.

Josh Meltzer/AP
Estádio esportivo é tomado por estudantes após homenagem à vítimas de massacre
Estádio esportivo é tomado por estudantes após homenagem à vítimas de massacre
De acordo com Carolyn Rude, chefe do Departamento de Inglês, seu comportamento causava apreensão entre professores. "Havia preocupação a respeito dele", disse ela.

Stephanie Derry, uma estudante que cursava teatro com ele, não se lembra de tê-lo ouvido pronunciar uma única palavra. Ela recorda, porém, suas peças de teatro "mórbidas e caricaturais", como explicou ao jornal da universidade.

Uma de suas peças contava a história de "um filho que odiava o padrasto", contou a estudante. "Na peça, o filho dava marteladas e atirava uma serra elétrica no padrasto, mas acabava matando-o sufocado com uma barra de cereais", relatou.

Lucinda Roy, ex-decano do departamento de inglês, contou à CNN o que sentiu ao se deparar com outros textos do assassino. Ela chegou a alertar a reitoria da universidade em 2005, e até ministrou aulas particulares ao jovem.

"Profundamente preocupada", ela recomendou a Cho Seung-hui que consultasse um psicólogo, e acreditava que ele havia seguido seu conselho.

Família

Cho vivia nos Estados Unidos desde 1992, de acordo com o porta-voz do Departamento de Imigração americano, Chris Bentley. Ele morava com a família em Centreville, na Virgínia.

Seus pais são donos de uma lavanderia e sua irmã é aluna da Universidade de Princeton.

"Ele era um solitário, estamos tendo dificuldades para obter informações a seu respeito", disse o porta-voz da universidade, Larry Hincker. "Ele era muito quieto e estava sempre sozinho", afirmou o vizinho Abdul Shash. Segundo ele, Cho passava grande parte de seu tempo livre jogando basquete e não respondia quando alguém o cumprimentava.

Segundo a polícia, ele chegou a ser submetido a tratamento para depressão. Seu corpo foi encontrado entre os 31 mortos em Norris Hall, prédio da Engenharia. De acordo com a polícia, os corpos das vítimas foram encontrados em quatro salas de aula e nas escadas.

Ação meticulosa

Para o ataque, o jovem comprou duas pistolas, um 9 mm e um calibre 22.

Evan Vucci/AP
Estudantes fazem vigília à luz de velas por vítimas de massacre
Estudantes fazem vigília à luz de velas por vítimas de massacre
Uma das duas armas foi utilizada no massacre nas salas de aula e no duplo homicídio cometido duas horas antes em um dormitório da universidade, o que tende a comprovar que Cho Seung-hui era o único atirador.

No Norris Hall, ele colocou correntes em várias portas de entrada do edifício, impedindo os estudantes de sair e atrasando a intervenção da polícia. Ele subiu para o segundo andar e começou a atirar, fazendo vítimas em quarto salas de aula e em uma escada.

As testemunhas descreveram um jovem silencioso, determinado, que atirava para matar e voltava atrás quando escutava sobreviventes falarem.

"Ele parecia muito minucioso, atingiu praticamente todo mundo", contou Erin Sheehan, uma estudante que conseguiu sobreviver fingindo que estava morta e depois bloqueando a porta da sala de aula para impedir que o assassino voltasse.

Tiros

Entre os 32 mortos nos ataques estão ao menos três professores da universidade: o israelense de origem romena Liviu Librescu, 76, o americano Kevin Granata e o indiano G.V. Loganathan, 51.

Divulgação
Liviu Librescu, 76, um dos professores mortos na tragédia
Liviu Librescu, 76, um dos professores mortos na tragédia
O estudante Trey Perkins relatou ao jornal americano "The Washington Post" que o atirador disparou contra a cabeça de Librescu, que barrava a porta da sala de aula para proteger seus alunos durante o ataque em Norris Hall, e em seguida abriu fogo contra os estudantes. "Ele deveria ter cerca de 19 anos e tinha um olhar sério mas calmo em seu rosto", conta o aluno.

"Todos atiraram-se no chão na hora", disse Perkins, que é estudante do segundo ano de Engenharia Mecânica. "E os tiros pareciam que iriam durar para sempre".

Segundo Alec Calhoun, 20, que também estava no local do ataque, vários alunos pularam pela janela para fugir do atirador. "Acho que eu fui o oitavo ou o nono a pular", afirmou. Ele relata que viu dois estudantes serem feridos, mas que acredita que eles sobreviveram.

A estudante Erin Sheehan, que estava na sala de aula vizinha, conta que foi uma das quatro pessoas que conseguiram deixar a sala ilesas.

Os outros alunos-- ao menos 20-- foram feridos ou mortos pelo atirador.

Os tiroteios despertaram lembranças de outro massacre, que ocorreu em Columbine, no Colorado, e completa oito anos nesta semana. No episódio, dois alunos mataram 12 colegas e um professor antes de se suicidarem em 20 de abril de 1999.

Antes de segunda-feira (16), o pior ataque contra um campus da história dos EUA havia ocorrido em 1966 na Universidade do Texas, quando Charles Whitman subiu em uma torre de observação de 27 andares e abriu fogo. Ele matou 16 pessoas antes de ser baleado e morto.

Com agências internacionais

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