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06/01/2008 - 09h30

Crise no Quênia contamina vizinhos

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ANA FLOR
Colaboração para a Folha de S.Paulo
De Nairóbi

Desabastecimento, aumento de preços e falta de combustíveis foram sintomas imediatos da onda de violência que tomou conta do Quênia na última semana, desde o anúncio dos resultados das eleições presidenciais de 27 de dezembro. Mas a crise iniciada com a contestação dos resultados que deram a reeleição ao presidente Mwai Kibaki trouxe sérios danos de longo prazo à imagem externa do país e à sua economia, uma das mais estáveis da África.

Nas últimas décadas, a estabilidade do Quênia contrastou com a oscilação dos países vizinhos, em especial no Chifre da África. Sua economia forte e instituições relativamente democráticas ajudaram nos últimos anos na luta contra o terrorismo. O país teve papel ativo nas negociações de paz no Sudão. Também ajuda a pressionar pelo fim dos conflitos na Somália, da qual recebeu milhares de refugiados.

Crescimento

Na África abaixo do Saara, a solidez econômica e social do Quênia eram comparadas apenas à da África do Sul e de Gana. "O Quênia tem feito sua lição de casa. Mesmo sem recursos naturais, temos nos destacados como uma das principais economias africanas", disse o economista e diplomata aposentado Phillip Mwanzia.

Desde 2002, quando Kibaki foi eleito por uma coalizão de partidos para substituir o governo de Daniel Arap Moi, que estava havia 24 anos no poder, a economia do país cresceu entre 5% e 7% ao ano. Este crescimento estimulou a região e fortaleceu as bases da Comunidade do Leste da África.

Sem recursos naturais para gerar riqueza, a exportação de chá e café representa um quarto do PIB do país. Outro setores, como o turismo --que no ano passado lucrou US$ 900 milhões, a maior fonte de renda externa-- representam uma fatia cada vez maior da economia do país.

A estabilidade e uma crescente classe média tornaram o país um das maiores destinos de investimentos estrangeiros na África. Apesar de ter um terço de sua população vivendo em favelas, Nairóbi é hoje uma cidade com intenso comércio, shopping centers funcionando 24 horas e uma oferta de serviços quase inexistente em outras áreas do continente.

A segurança levou para Nairóbi a sede de inúmeras organizações internacionais e agências das Nações Unidas.

"Até a década de 90, o Quênia era o país mais estável da África, o único com capacidade para, por exemplo, ser uma sede da ONU", diz o analista internacional Salomon Shah.

Prejuízo regional

A onda de violência afetou o escoamento da produção de café e chá do país, que tiveram seus leilões internacionais cancelados temporariamente.

A bolsa de valores de Nairóbi foi fechada e companhias cancelaram pacotes turísticos, aconselhando seus clientes a procurarem outros destinos.

O centro da capital queniana, que concentra atividades econômicas, permaneceu fechado ou com acesso restrito pelos últimos dias. Bloqueios da polícia, que tentava evitar manifestações, medo de vandalismo ou problemas com o transporte público levaram lojas e empresas a fechar as portas.

Segundo associações de comerciantes, o fechamento de estabelecimentos de comércio fez o Quênia perder cerca de US$ 31 milhões por dia em impostos.

A paralisação do país por causa da violência mostrou o quanto o leste da África dependente do Quênia. Se internamente o fechamento de estradas tornou difícil o escoamento e distribuição de produtos --o que, ao lado da destruição de estabelecimentos comerciais, fez com que os moradores tivessem que comprar alimentos a preços mais altos--, a crise foi sentida por consumidores de países vizinhos.

Uganda e Ruanda, países sem costa que dependem em grande parte do porto queniano de Mombaça, tiveram que tomar medidas para racionar combustíveis.

Caminhões com alimentos que iriam para Campala, capital da Uganda, ficaram dias parados no Quênia. Em Ruanda, o governo chegou a anunciar que estava negociando com a Tanzânia para escoar combustíveis da costa leste até seu território. No Burundi, a falta de combustíveis chegou a ameaçar a saída de aviões do aeroporto internacional de Bujumbura.

 

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