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19/07/2002 - 07h34

"Doutor Morte" entra para lista dos piores assassinos do mundo

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da Folha Online

O médico britânico Harold Shipman, 56, conhecido como "Doutor Morte", entrou para a lista dos piores assassinos em série do mundo, depois que foi atribuído a ele o assassinato de pelo menos 215 pacientes, segundo um inquérito divulgado hoje em Manchester (noroeste da Inglaterra).

A juíza Janet Smith, responsável pela investigação da morte de quase 500 pacientes do médico, afirmou que pelo menos 200 morreram com injeções letais administradas por Shipman entre 1975 e 1998.

Reuters
Harold Shipman, 56, médico britânico conhecido como "Doutor Morte"
Shipman havia sido condenado à prisão perpétua em 2000 pelo assassinato de 15 pacientes, mas a investigação oficial continuou em andamento para definir a quantidade real de assassinatos cometidos pelo médico.

A juíza declarou ter ainda motivos para suspeitar que ele tenha matado outras 45 pessoas quando era um respeitado clínico-geral, dono de um consultório em Hyde, próximo a Manchester.

Smith se disse "profundamente perturbada" com o fato de Shipman não ter levantado suspeitas em tantos anos.

"A simples constatação de que Shipman matou mais de 200 pacientes não reflete inteiramente a enormidade de seus crimes. Ele recebeu a confiança de seus pacientes e das famílias deles. Traiu sua confiança de uma maneira e numa extensão que eu acredito não ter paralelo na história", afirmou Smith em seu relatório.

Segundo a investigação, foram 171 mulheres e 44 homens mortos entre 1975 e 1998. Suas vítimas tinham entre 41 e 93 anos. Com essa descoberta, Shipman entra para a lista dos piores "serial killers" da história recente, ao lado do colombiano Pedro Lopez, "o Monstro dos Andes", condenado por 57 homicídios em 1980, mas suspeito de ter assassinado 300 meninas.

Injeções
Em 2000, Shipman foi condenado por ter dado injeções de diamorfina (nome clínico da heroína) a 15 pacientes idosas.

Segundo o inquérito, esse sempre foi seu método favorito, aplicado após examinar um paciente idoso. "Durante a visita, ele matava. Depois se comportava de várias maneiras e tinha várias explicações para o acontecido", disse Smith, para quem tamanha frieza só é concebível na ficção.

Smith afirmou que existem provas de que Shipman se drogava com petedina (droga do tipo da morfina utilizada para abrandar dores intensas) nos anos 1970. Na época, o médico foi multado por receitar altas doses dessa droga.

"Acredita-se que o vício em petedina levou Shipman a outras formas de dependência", afirmou a juíza.

"É possível que tenha sido um viciado em crime", disse Smith. A juíza acredita que o médico talvez tenha matado mais pacientes do que os casos descobertos, já que muitas das pessoas mortas foram cremadas.

O balanço apresentado "não reflete completamente a amplitude dos crimes", declarou.

A juíza disse que nenhum dos assassinatos foi acompanhado de abusos sexuais e que todos foram "não-violentos". No entanto, "em certo sentido o homicídio não-violento de Shipman é quase mais incrível do que as mortes violentas de que ouvimos falar", afirmou.

Reação
Shipman deve receber uma cópia do relatório na prisão de Frankland, na região de Durham, onde cumpre a prisão perpétua. Os parentes das vítimas viram as conclusões da investigação na quarta-feira (17).

"Tem muita gente chateada com a notícia de que sua mãe, seu pai ou o avô não tiveram a morte pacífica que pensavam, mas que na verdade foram assassinados", declarou o padre Denis Maher, da cidade de Hyde, onde a maioria das vítimas vivia.

A primeira vítima foi Eva Lyons, de Todmorden, em 1975, e a última, Kahtleen Grundy, de Hyde, em 1998. Este crime revelou a verdade, já que Shipman forjou o testamento da vítima a seu favor.

De óculos e fala mansa, Shipman sempre negou os crimes. Segundo os promotores que participaram de seu julgamento, ele tinha o desejo de ter o poder divino sobre a vida e a morte. Outros especulam que ele ficou marcado pela morte de sua mãe, de câncer, quando o médico ainda era adolescente.

A polícia de Manchester disse que Shipman não será processado pelos crimes recém-descobertos, porque é praticamente impossível encontrar um júri que não conheça sua história.

Com agências internacionais

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