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11/07/2004 - 10h15

Brasileiras muçulmanas rejuvenescem religião

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da Folha de S.Paulo

A temperatura se aproxima dos 30ºC, o sol está no meio do céu e o excesso de camelôs no largo da Concórdia torna o local quase intransitável. Mas nem o calor nem o emaranhado de gente que se apinha em frente às banquinhas inibe Saajidah Ahmed, 21, e Aisha Muhammed Ali, 31, de envergarem orgulhosas suas longuíssimas e larguíssimas roupas pretas, véus sobre a cabeça, apenas rosto e mãos de fora.

O que faz essas mulheres jovens, brasileiras de nascimento e ascendência, adotarem nomes islâmicos e se vestirem em São Paulo como se estivessem na Arábia Saudita é a crença de que aquela é a melhor forma de agradar a Deus e cumprir sua obrigação religiosa.

As roupas, que causam estranheza nas movimentadas ruas do Pari, são para os muçulmanos as vestes tradicionais --embora em desuso entre a maioria, em Estados islâmicos como o Irã e a Arábia Saudita são praticamente o "uniforme" feminino.

Talvez venha daí a relação traçada no Ocidente com a submissão feminina. O fato é que, em plena São Paulo, a escolha de Aisha e Saajidah não tem nada a ver com submissão ao pai ou ao marido.

"É maravilhoso poder andar por aí sem que os homens fiquem olhando para você", diz Aisha, que, em agosto, vai para os Emirados Árabes Unidos para se casar. O marido? "Ainda não escolhi. Recebi várias propostas", sorri.

Saajidah, que é casada com um muçulmano e não está trabalhando (mas pretende voltar a fazê-lo em breve), diz usar a roupa tradicional em tempo integral (exceto em casa) para se preservar. Antes, ela usava apenas o véu, mas, mesmo assim, se sentia incomodada por atrair olhares masculinos. "Quando comecei a usar as roupas mais tradicionais, meu marido ficou preocupado. Dizia que todo mundo ia pensar que era ele quem obrigava", diz, rindo.

As vestes das duas são feitas pela irmã de Aisha a partir de modelos trazidos por ela dos Emirados Árabes Unidos. Apesar dos benefícios apregoados e de as duas jurarem que os trajes não são quentes, a opção pela indumentária tradicional não é comum entre as muçulmanas brasileiras.

Na aula dada para convertidas aos sábado na mesquita do Pari, por exemplo, é muito mais fácil achar véus coloridos, blusas estampadas e até uma ou outra calça jeans um pouco mais justa. Todas as alunas adotaram o recato recomendado pela religião, mas nem por isso a vaidade foi deixada de lado. Muitas estão impecavelmente maquiadas, e a variedade de véus mostra que a peça também ganhou versões na "moda".

Ali também fica claro o que dissera à Folha, dias antes, a historiadora de família muçulmana Samira Osman: em solo brasileiro, não é possível manter a ortodoxia. "Eu não diria que há hoje aqui um muçulmano 100%", afirmara ela, que escreveu sua tese de mestrado sobre a imigração árabe para o Brasil. Muitos, segundo Samira, abandonam o país a fim de resgatar o islamismo puro.

As pequenas adaptações que o islã sofreu no país, no entanto, não parecem ter afastado suas seguidoras. Na aula na mesquita do Pari, são pouco mais de 20 alunas. Há outros horários e outras mesquitas, o que indica que a religião vem ganhando várias adeptas nos últimos anos.

O último censo do IBGE, de 2000, diz que, no Brasil, há pouco mais de 27 mil muçulmanos (não há registro anterior). O xeque Ali Abdouni, da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica no Brasil, diz que são cerca de 1,5 milhão.

Das mulheres presentes à aula, a maioria se converteu há relativamente pouco tempo. Um dos motivos da "onda" é a maior divulgação na mídia nos últimos anos --ainda que por vias tortas, como a novela "O Clone", de 2001, ou as reportagens feitas após os ataques de 11 de setembro de 2001, executados por terroristas islâmicos.

O outro, um paradoxo em relação ao estereótipo de religião fechada para o mundo que o islã ganhou por causa dos regimes autoritários vigentes em parte dos países que o adotam, é a internet.

Saajidah se converteu há cerca de 15 meses, mas, antes de chegar à mesquita, passou dois anos estudando o islã pela internet. A descoberta veio por um programa de músicas árabes ao fim do qual era recitado um trecho do Alcorão, o livro sagrado do islã. Ao se ver chorando mesmo sem entender os versos, decidiu estudá-los.

Antes, ela --que nasceu em uma família que não seguia nenhuma crença-- fora atéia, estudara siquismo e hinduísmo e fora iniciada no budismo. Seu marido, Abdullah, se converteu na mesma época --os dois namoravam desde que ela tinha 15 anos, mas, na ocasião, estavam separados.

Já Aisha, que, antes da conversão, era comissária de bordo e freqüentava uma igreja evangélica, se interessou numa sala de bate-papo. "Estava em um chat árabe em inglês quando uma pessoa me perguntou se eu queria conhecer o Alcorão." Ela topou, e ambos passaram, via computador, quatro meses fazendo um estudo comparativo com a Bíblia. Depois, seus interlocutores lhe presentearam com uma passagem e sete meses nos Emirados Árabes Unidos, onde se converteu.

Aqui, as mulheres muçulmanas também usam a internet para divulgar suas opiniões. Amirah Nossaes, 25, convertida há cinco meses, mantém um blog no qual defende o direito de usar o véu. Em "A Voz do Islã na Internet", ela também lamenta o preconceito que vê contra sua religião no Brasil. Funcionária de um escritório de advocacia, trabalha sem véu, mas o veste imediatamente ao fim do expediente. "No ônibus, ninguém senta do meu lado."

Sua colega Maimunah, 38, diz que já foi chamada na rua de "noiva de Bin Laden" e de "mulher de Saddam Hussein". A situação varia com o noticiário. "Após o 11 de Setembro, eu não podia sair de véu. Já na época da Guerra do Iraque, a coisa melhorou."

Maimunah e Amirah contam sua história à reportagem e a Maria Mesquita, que freqüenta a mesquita Brasil desde julho de 2003, mas ainda não se converteu.

Há sete anos no islã, Maimunah, divorciada duas vezes e mãe de dois rapazes, é a mais cética quanto à propagação do religião no Brasil. "Aqui é tudo bagunçado. Fica mais difícil conservar a pureza da religião", diz ela. "Até os muçulmanos árabes que vêm para cá já saem dando a mão para nos cumprimentar." Ela elogia o recato de Maria e censura as mulheres que vão à mesquita "só para caçar homem".

Quando o assunto é os direitos femininos, todas são unânimes em dizer que o islã é justo. "A mulher é muito mais privilegiada do que o homem, tem mais regalias", diz Amirah. "Já o homem tem mais obrigações", continua, referindo-se aos deveres financeiros.

Aisha, que diz que só aceitará um marido que a deixe trabalhar, pensa que as diferenças --biológicas, sobretudo-- têm de ser respeitadas. "Se fosse totalmente igual, aí é que seria injusto."

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