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04/09/2005 - 14h09

Putin não pede perdão às mães de Beslan

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SERGIO IMBERT
da EFE, em Moscou

Os familiares das vítimas do massacre de Beslan lamentaram hoje que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, não tenha tido a coragem de pedir perdão em público pela incompetência das autoridades durante o seqüestro.

Durante todo o sábado, principal dia de luto pelos 331 reféns, entre eles 186 crianças, que morreram há um ano na escola de Beslan, os habitantes dessa cidade esperaram em vão que o chefe do Kremlin cumprisse sua promessa de pedir desculpas.

"Ele não se atreveu a pedir perdão", disse uma das quatro mulheres do comitê "Mães de Beslan" que na sexta-feira deixaram os túmulos de seus filhos para se reunir em Moscou com o presidente e cobrar ações dele.

"Ele disse que encontraria as palavras adequadas, mas não se atreveu a isso", afirmou a mulher ao revelar que Putin prometeu formular sua "mea culpa" em mensagem especial à nação por causa do aniversário do sangrento desenlace daquele seqüestro.

Os habitantes de Beslan têm poucas perguntas a fazer sobre os motivos do comando suicida checheno que seqüestrou 1.251 pessoas na escola da cidade, mas querem que o Kremlin assuma parte da responsabilidade pela morte de seus filhos e puna os culpados.

As mães exigiam desculpas pelas mentiras oficiais durante as 52 horas do seqüestro, quando se afirmava que os terroristas estavam com apenas 120 pessoas e não apresentavam exigências, e pelo caótico assalto final com armas pesadas em que a imensa maioria dos reféns morreu.

Também exigem desculpas pela interminável guerra chechena que propagou o terrorismo por toda a Rússia; pela polícia corrupta que em troca de subornos deixou os terroristas chegarem da Chechênia até Beslan; e pela investigação oficial, rodeada de segredos, que na sua opinião só procura esconder a verdade para justificar a atitude das autoridades.

Os parentes das vítimas denunciam que as autoridades escondem a verdade sobre os sangrentos fatos para ocultar seus erros e porque seu propósito era, acima de tudo, matar os terroristas e não salvar os reféns.

Mas Putin, em sua reunião com as "Mães de Beslan", surpreendeu ao declarar que "o Estado não pode garantir plenamente a segurança de seus cidadãos" em ataques terroristas, e se limitou a prometer uma investigação profunda e transparente.

O líder russo argumentou que nem os EUA, com seu potencial econômico e militar, conseguiram evitar os ataques de 11/9, que causaram dez vezes mais vítimas que em Beslan, mas admitiu que o deplorável estado atual da Rússia e de suas estruturas de segurança "não justifica o mau cumprimento pelos funcionários de suas obrigações".

No sábado, enquanto o país fazia um minuto de silêncio pelas vítimas de Beslan, o presidente apareceu diante das câmaras de televisão para lembrar as preocupações dos moradores de Beslan e ordenar outra investigação da tragédia.

Putin admitiu que a Rússia, como outros países, "nem sempre consegue prevenir e resistir com eficácia aos ataques terroristas" e que a responsabilidade por isso recai nele e nos demais altos funcionários.

O jornal digital Gazeta.ru classificou esta declaração como um "último ato do espetáculo 'o presidente magoado'" após um ano de silêncio oficial sobre a tragédia. Para a colunista Yulia Latynina, Putin se reuniu com as mães de Beslan para "lavar sua imagem diante das câmaras" e "dividir" esse comitê, pois muitos de seus integrantes receberam com indignação seu convite depois de um ano de silêncio do Governo.

Essa reunião foi uma "cínica ação de relações públicas baseada no sangue das crianças mortas", denunciou o comitê Nord-Ost, que reúne parentes das 130 pessoas que morreram em outubro de 2002 durante outra confusa operação de resgate no teatro Dubrovka de Moscou, seqüestrado por outro comando terrorista checheno.

"Não acreditamos em suas palavras e promessas, porque sua indiferença e cinismo esgotaram nossa confiança (...) Sentimos vergonha de viver em um Estado onde o presidente não sabe o que ocorre no país", escreveu o comitê em carta aberta a Putin.

Para o jornal Grani.ru, "a reunião das mães com Putin foi uma reunião do povo com o Estado no aniversário da tragédia, e os dois saíram perdendo". "Putin ganhou tempo e conseguiu evitar um escândalo no dia da dor, mas a partir de agora o tempo trabalha contra ele. Beslan espera a verdade, e o presidente não poderá dizê-la", concluiu o jornal.

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