Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
28/08/2006 - 14h53

Austríaca seqüestrada durante 8 anos escreve carta à imprensa

Publicidade

da Efe, em Viena

Cinco dias após fugir de seu seqüestrador, que a manteve em cativeiro por mais de oito anos em um porão nos arredores de Viena (Áustria), Natascha Kampusch, 18, escreveu nesta segunda-feira uma carta dirigida à imprensa e à opinião pública.

O seqüestrador, Wolfgang Priklopil, 44, raptou Natascha em 2 de março de 1998 e cometeu suicídio na última quarta-feira (23), poucas horas após a fuga de sua vítima.

A carta diz:

"Estimados jornalistas, repórteres, estimada opinião pública! Estou consciente do poderoso impacto que os eventos dos últimos dias provocaram.

Posso facilmente imaginar como estarão comovidos e alarmados com o fato de que algo desse tipo possa ser possível.

Além disso, estou consciente de que demonstram curiosidade sobre mim e que certamente querem saber mais detalhes sobre as condições em que vivi.

Quero lhes assegurar antecipadamente de que não responderei a nenhuma pergunta sobre intimidades ou detalhes pessoais.

Não irei tolerar qualquer tipo de tentativa de atravessar essa fronteira. Aquele que tentar, pode ir se preparando. Cresci como uma jovem menina com interesses na educação e também com necessidades humanas.

O ambiente: o recinto onde vivia estava adequadamente equipado. Era meu e não era destinado a ser mostrado ao público.

A vida diária: Era regulada. Na maioria das vezes havia um café da manhã em conjunto, já que ele quase nunca trabalhava. Eu fazia as tarefas do lar, lia, assistia televisão. Nós conversávamos e eu cozinhava. Foi assim durante anos, sempre com o temor de me deixar sozinha.

Sobre a relação: ele não era meu amo e senhor. Eu era igualmente forte. Ele me mimava e ao mesmo tempo me humilhava. Mas não mandava em mim, e sabia disso. Ele organizou o seqüestro sozinho, tudo já estava preparado. Arrumamos juntos o quarto em que fiquei, que media mais de 1,60 metro de altura. Obviamente, não chorei após fugir.

Não havia motivos para me sentir infeliz. Do meu ponto de vista, sua morte não era necessária. O mundo não teria afundado se o tivessem castigado. Era parte da minha vida. Por isso, de certo modo, me sinto afligida por sua morte.

Naturalmente, minha juventude foi diferente da de muitos outros, mas em princípio não tenho a sensação de que tenha me faltado nada. Fui poupada de uma série de coisas. Não comecei a fumar, nem a beber, e não tive maus amigos.

Mensagem à imprensa: a única coisa que quero da imprensa é que me deixe em paz e que pare de inventar calúnias e faltar com o respeito para com a minha pessoa.

Atualmente me sinto bem onde estou. Mas decidi entrar em contato com minha família apenas por telefone. Eu decidirei por conta própria o momento de falar aos jornalistas.

Sobre minha fuga: quando tive que limpar e passar o aspirador no automóvel, ele se afastou enquanto o aparelho fazia barulho. Essa foi minha oportunidade --simplesmente deixei o aspirador ligado.

Nunca o chamei de 'amo e senhor', embora ele assim o quisesse. Apesar de achar que ele queria [ser chamado assim], não acho que tenha levado isso realmente a sério.

Tenho um advogado de confiança que resolve todos os meus problemas jurídicos. Tenho boa relação com a advogada especializada em juventude, [Monika] Pinterits, que é de minha confiança, com o doutor Friedrich [Max, chefe da clínica universitária para neuropsiquiatria de menores do Hospital Clínico de Viena] e com o doutor Berger [da clínica de psiquiatria de menores].

A equipe do senhor [Johann] Frühstück [chefe das investigações] me tratou muito bem. Envio a eles minhas carinhosas saudações, embora tenham sido um pouco curiosos. Creio que isso faz parte da profissão.

Questões íntimas: todos querem sempre fazer perguntas íntimas, que não dizem respeito a ninguém. Talvez alguma vez as revele a uma terapeuta ou a outra pessoa, se sentir necessidade de fazê-lo, mas talvez não a sinta nunca. A intimidade pertence somente a mim.

Ao senhor H. [amigo de Priklopil, que o transportou em seu veículo pouco antes de o seqüestrador cometer suicídio]: não se sinta culpado. Você não podia fazer nada, Wolfgang [Priklopil] foi o único responsável por decidir se atirar na linha do trem.

Um sentimento de empatia me une à mãe de Wolfgang. Posso imaginar sua situação atual e seus sentimentos. Nós duas pensamos nele. Mas também quero agradecer a todas as pessoas que tanto me acompanham em meu destino.

Por favor, concedam-me um descanso nos próximos dias. O doutor Friedrich explicará tudo com esta nota. Muitas pessoas se ocupam comigo. Peço tempo até que eu mesma possa contar o que ocorreu.

Natascha Kampusch"

Especial
  • Leia o que já foi publicado sobre Natascha Kampusch
  •  

    Publicidade

    Publicidade

    Publicidade


     

    Voltar ao topo da página