Colunas
Clovis Rossi
27/10/2009

Mulheres, outro vexame do Brasil

Dá até raiva. Saiu mais um ranking internacional, e o Brasil passa a maior vergonha, maior até do que, por exemplo, no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU em que consegue ficar no 75º lugar, apesar de ser a oitava maior economia do mundo.

Agora é o ranking de diferença de gênero, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, aquele que promove, todo janeiro, o encontro de Davos, a maior concentração de personalidades por metro quadrado que o planeta consegue colocar no mesmo local.

O Brasil é o 82º colocado. Ou o 80º se forem considerados apenas os países que estavam também no ranking de 2008. Pior, se algo pode ser pior do que esse vexame: a posição brasileira era um tiquinho melhor no ano passado (73º), o que significa que, em vez de melhorar, pioramos o que já escandalosamente ruim.

O índice avalia como cada país está dividindo seus recursos e oportunidades entre suas populações masculina e feminina, independentemente do total geral de recursos e oportunidades.

Creio ser dispensável dizer porque é importante fechar o "gap" entre homens e mulheres mas, pelas dúvidas, passo a explicação para o criador e executivo-chefe do Fórum, Klaus Schwab: "Meninas e mulheres formam metade da população mundial, e sem o seu engajamento, fortalecimento e contribuição, não podemos esperar alcançar uma rápida recuperação econômica nem enfrentar efetivamente desafios globais como mudança climática, segurança alimentar e conflitos". Óbvio, não?

O ranking-2009 é toda uma coleção de vexames comparativos para o Brasil. Que os países nórdicos ocupem os quatro primeiros lugares, a começar pela Islândia, primeira colocada, nada demais. É tradicional, é conhecida a participação das mulheres nos mais diferentes âmbitos.

O que torna mais vexaminosa a posição brasileira são duas comparações: um país mais pobre e com um passado de discriminação terrível (África do Sul), foi dos que mais avançou, a ponto de alcançar o sexto lugar no ranking. Não me venha dizer que a discriminação na África do Sul era racial, dos pretos pelos brancos. Era, mas era também de gênero: as negras eram ainda mais discriminadas que os negros.

Os países latino-americanos tiveram uma espetacular subida, a começar do Paraguai, que pulou 36 posições, para colocar-se em 66º lugar, à frente, portanto, do Brasil.

O relatório do Fórum mede a brecha entre os gêneros em quatro áreas:

1 - Participação e oportunidade econômicas, o que implica diferenças salariais e de níveis de participação no emprego, além de acesso a postos de alto nível.

2 - Progresso educacional, ou seja, acesso à educação básica e de alto nível.

3 - Força política, ou seja, acesso às estruturas de tomada de decisão.

4 - Saúde e sobrevivência, que mede expectativa de vida conforme o gênero.

Se Dilma Rousseff for eleita em 2010, o Brasil certamente ganhará posições em 2011, mas você acha que será o suficiente?

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

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