Colunas
Clovis Rossi
10/12/2009

"Buraco negro" quase engole outro voo

Lembra-se do voo Air France 447, que desapareceu no Atlântico, no dia 1º de junho, arrastando para a morte seus 216 passageiros e os 12 tripulantes?

Pois a edição de hoje do jornal francês "Le Figaro" relata que o voo que o substituiu, o AF 445, enfrentou problemas parecidos, mais ou menos no mesmo local, mais ou menos à mesma hora e utilizando basicamente o mesmo equipamento (Airbus A 330-203 no caso do AF 447 e Airbus A 330-200 para o AF 445).

Parece uma história de ficção ou de bruxaria em plena era da tecnologia mais avançada.

Para quem, como eu, faz com frequência o trajeto Brasil/Europa, seguindo essencialmente a rota do AF 447, torna-se ainda mais assustador.

O relato do "Figaro" sobre o caso do AF 445 é, em resumo, o seguinte: o avião saiu do Rio de Janeiro no dia 29 de novembro às 17h20. Quatro horas depois aproximadamente, enfrentou fortes perturbações atmosféricas exatamente na mesma zona em que o AF 447 desapareceu.

O jornal diz ter informações de que o avião foi obrigado a descer muito além dos parâmetros normais para turbulências: passou de 33 mil pés ou 11 mil metros para 28 mil pés ou 9.300 metros. Ou seja, desceu 1.700 metros, quando os manuais de procedimentos recomendam descer apenas 100 metros (300 pés).

O "Figaro" recupera ainda relato de um passageiro (ocupante do assento 4K), expresso em um blogue. Diz o passageiro ter tido a sensação de que a tripulação perdera o controle sobre o aparelho.

Não perdeu, ao contrário do que aconteceu com o voo 447.

A descida forçada foi feita por decisão dos pilotos porque, sempre segundo o jornal, não foi possível obter a autorização de praxe do controle aéreo de Dacar, a capital do Senegal, que, naquela altura, assume o controle do voo. Tudo o que a tripulação pôde fazer foi emitir sinal de rádio de urgência para informar que deixava seu nível de voo.

É importante relembrar que, no dia 7 de julho, os presidentes Nicolas Sarkozy e Luiz Inácio Lula da Silva falaram, em entrevista coletiva conjunta, sobre o acidente do 447, então bem mais recente.

Sarkozy anunciou que enviaria missão ao Senegal para discutir como eliminar o que chamou de "buraco negro de comunicações entre Recife e Dacar". O "buraco negro" ficou em evidência no acidente do AF 447.

A investigação francesa indicou que os controladores brasileiros tentaram passar o monitoramento do voo para os senegaleses, mas não tiveram resposta imediata. Não foi a causa da queda, como Lula fez questão de dizer, mas, segundo a apuração francesa, pode ter retardado o início das buscas. "Não é normal" esse vazio de comunicação, reclamou Sarkozy, com apoio de Lula. O presidente brasileiro contou que, na volta de sua viagem à Líbia, na semana anterior, ele próprio pudera constatar que há nessa área "um espaço vazio em que ninguém consegue falar com ninguém".

O incidente com o AF 445 deveria dar urgência à correção do "buraco negro".

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

FolhaShop

Digite produto
ou marca