Pensata

Fernando Canzian

17/12/2007

Rocinha, classe D/E e "acesso"

da Folha Online

Devo a dois queridos amigos no Rio a oportunidade de ter ido a um show no sábado à noite na favela da Rocinha, a maior da América Latina e controlada há anos pela facção criminosa ADA (Amigo dos Amigos).

Com a autorização expressa dos traficantes, a van em que subimos o morro pára ao pé de uma escada, cercada por montanhas de lixo, que dá acesso à área do show.

Logo no início do trajeto a pé, em meio a uma profusão de pessoas, comércios, funks, cheiros e cores, um rapaz guarda, de uma janela, o acesso com uma arma enorme pendurada ao corpo. Aqui e ali, outros jovens com rádios se comunicam o tempo todo, dando uma geral no pedaço. Tá tudo dominado.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Show na favela da Rocinha, controlada pelo tráfico no Rio
Show na favela da Rocinha, controlada pelo tráfico do Rio

Tirando os traficantes e suas armas, o resto parace normal: milhares sobem e descem o morro cuidando de suas vidas, tomando cerveja com churrasquinho no sábado à noite, alegres e barulhentos como os brasilerios devem ser.

A Rocinha é gigantesca, saturada de gente e lojas. E iluminada. Próximo à área do show, é possível contar pelo menos onze predinhos. O maior deles, de sete andares, tem uma cobertura que seguramente possui uma das melhores vistas do Rio. Pelas paredes, vários anúncios de imóveis à venda.

O show começa com um funk: "celular!", "nextel!", "amizade!", "respeito!" são algumas das palavras que saem do palco em direção à galera embaixo, que canta junto. Um mar de luzinhas pisca na multidão. São telinhas de celulares e, aqui e ali, isqueiros acendendo baseados, com seu cheiro flutuando no ar.

É espantosa a aparência desse público. Tirando o cenário em volta e os vigias do tráfico com seus aparelhos nextel e volumes escondidos na cintura, o show poderia estar acontecendo em qualquer lugar de classe média no Brasil. Na praia do Leblon até.

Todos estão vestidos na moda do Rio, com camisetas e bermudas legais, tênis de marca, relógios. As moças vão lindas em seus vestidos de verão e chapinhas no cabelo. Um Brasil feliz como todos gostaríamos de ser.

Quase no final do show, tensão no ar. Ficamos sabendo que Nem, chefe do tráfico na Rocinha, resolveu aparecer e que conversa agora com um dos integrantes da banda que vai encerrar o show. Por vários minutos, uma área inteira próxima ao palco é isolada. Ninguém pode ir ou vir antes que o sujeito saia com um numeroso séquito de jovens armados. Depois da passagem de Nem, tudo volta ao "normal".

Pouco depois, deixamos a Rocinha, descendo a mesma escada e entrando na mesma van autorizada pelo tráfico a circular no local.

É nojenta a ausência de nosso Estado balofo, gastador e incompetente naquele local, assim como em tantos outros no Brasil. Lixo por toda parte, vias péssimas e, pior de tudo, sem um único policial. Quase uma cidade inteira controlada por pessoas armadas com poder para levar a vida ou a filha de qualquer um embora, a qualquer hora.

No domingo, a Folha publicou reportagem com dados do Datafolha mostrando que cerca de 20 milhões de brasileiros deixaram a classe D/E em direção à C nos últimos cinco anos.

A travessia ocorreu com a melhora da economia e do acesso a novos bens de consumo. Como a compra dos celulares e televisores que hoje iluminam um pouco mais a vida dos moradores da Rocinha.

É um começo. Mas não há nada a comemorar nisso.

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha Online.

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