Pensata

Kennedy Alencar

22/11/2008

Lula, Serra e o maná para as montadoras

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de São Paulo, José Serra, deram um belo presente à indústria automobilística em tempos de crise. Juntos, colocaram R$ 8 bilhões para os bancos das montadoras a fim de facilitar empréstimos para aquisições. Na mídia, já tem montadora falando do "subsídio" dos governos federal e estadual.

Há argumentos que justificam a ajuda numa hora de crise econômica. A indústria automobilística tem uma cadeia produtiva longa. Trocando em miúdos: emprega bastante. E emprega uma base de trabalhadores muito ligada a Lula e com a qual o tucano Serra deseja estabelecer conexões.

O presidente deixará o Palácio do Planalto em 2010 e seguirá para São Bernardo do Campo. O governador pretende passar do Palácio dos Bandeirantes para o gabinete de Lula em Brasília. E vamos ser sinceros: as montadoras são boas financiadoras de campanha.

Muito bem

E contrapartidas em benefício do consumidor? Ah, vão dizer que os juros serão mais camaradas. Já seriam camaradas porque há uma crise danada no mundo e a demanda por carros caiu. As vendas já entraram em declínio.

O governo deveria exigir duas contrapartidas: preço menor e mais segurança. Quem gosta de carros tem uma dificuldade imensa na hora de adquirir um modelo no Brasil. São carroças quando comparadas aos veículos dos mercados americano e europeu.

A reestilização do Gol da Volkswagen é um vexame. Maquiagem pura. E o Punto da Fiat, lançado aqui anos depois de rodar pela Itália? Beleza de estilo, tristeza de mecânica --um motor ruim e antiquado. E a Ford? Demorou trocentos anos para lançar um Focus no Brasil que fosse o mesmo dos mercados dos países ricos. E cobra uma nota por "acessórios" em grupo.

Peugeot, Citroën, coreanas, japonesas também têm os seus defeitos. A Honda, quando o Civic era uma novidade, tratava o consumidor a pontapés. As concessionárias diziam: "Se quiser, o preço é este e não tem conversa. Vá comprar outro".

Aliás, o preço de um carro no Brasil é um acinte na comparação com modelos similares e muito melhores em outros países. Itens de segurança, então, parecem uma miragem. São caríssimos. As montadoras enfiam a faca por airbags, freios abs e outros equipamentos. O que existe de camionete, carro de menor estabilidade em curvas do que automóveis de passeio, rodando no Brasil sem airbag é simplesmente um crime.

O custo-benefício é um desastre para o consumidor e uma alegria para a montadora --basta ver como são lucrativas aqui e deficitárias lá fora. Lula e Serra perderam uma excelente oportunidade de pedir mais respeito ao consumidor. Um respeito que ajudaria a salvar vidas.

Kennedy Alencar colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite.

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