Pensata

Luiz Caversan

27/12/2003

O bem-te-vi e o mogno

Eu já havia me acostumado com o barulho deles.

No começo, quando construíram o primeiro ninho no pinheiro do jardim do meu prédio, no bairro paulistano de Higienópolis, eu cheguei a ficar irritado. Parece que não, mas ouvir "bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi" horas a fio irrita qualquer um.

Depois, como disse, me acostumei.

Os filhotes cresceram, o velho ninho foi abandonado e o casal de pássaros (o mesmo, ou foram os passarinhos que cresceram? Impossível saber...) construiu outra habitação na mesma árvore, na altura do meu andar, e deu continuidade à cantoria: fizesse chuva, sol, frio ou calor, lá estavam eles com seu grito acusador, como se tivessem visto alguma coisa condenável pela janela da minha sala. Bem-te-vi!

E a vida seguiria assim, urbanamente cotidiana, não fosse o barulho um pouco mais estridente na tarde do dia 25, justamente o dia de Natal, quando a gente fica mais sensível, até para reparar em passarinho. Mas ali não tinha como não reparar: uma das aves se debatia desesperada porque uma patinha tinha ficado presa em um ramo ou barbante ou sei lá o quê que ela tinha levado para o ninho. De cabeça para baixo, tentava voar, escapar, tirar o pezinho dali, sem êxito.

Outras duas aves davam voltas nervosamente, como que tentando fazer alguma coisa.

Não havia nada a fazer.

E eu, que atitude tomar diante da cena dramática?

Subir na árvore seria impossível, mais de 10 metros de altura. Tentar soltar o bichinho com uma vara? Não, não havia instrumental disponível.

Chamar os bombeiros?

Cheguei a cogitar essa possibilidade, mas confesso que tive vergonha de acionar os soldados para um fim tão prosaico. "Eles têm missões muito mais importantes do que salvar passarinhos", disse para mim mesmo.

O que fazer? Esquecer...

E assim foi que consegui, naquela tarde cinzenta de Natal, arrumar uma lembrança triste que certamente vai me perseguir por todos os natais que hei de viver daqui para frente: um passarinho preso se debatendo num galho de árvore e, depois, inerte, cabeça para baixo, morto na inexorabilidade de sua condição de ser vivo.

*
Bem, para não terminar o ano em tão baixo astral, tenho para consolar uma vidinha nova também em meu apartamento. Meses atrás, no Acre, ganhei do amigo Altino Machado algumas sementes de mogno, a mais nobre das madeiras da Amazônia.

Há cerca de um mês, plantei duas delas em vazinhos de cerâmica, com terra adubada e muito cuidado.

Apesar das ponderações do também amigo e colega Mário César Carvalho, para quem mogno precisaria de espaço, sombra e umidade para germinar e crescer, reguei com afinco meus vazinhos todos os dias, deixando-os no calor do sol da manhã.

Pois bem, meu esforço e minha torcida não foram em vão: uma das sementes germinou e está lá, frágil, mas sem dúvida viva.

No dia em que o passarinho morreu já começava a se tornar uma pequena, na verdade minúscula árvore, como que a me dizer o óbvio, ou seja, que a vida continua.

Portanto, vamos em frente e feliz 2004 para todos.

*

PS - Esta coluna volta no dia 11 de janeiro.

Luiz Caversan é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve aos sábados para a Folha Online.

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