Pensata

Sérgio Malbergier

17/01/2008

"Mas você nem parece judeu"

Sumaré. São Paulo. Festa. Artista amigo e eu conversamos sobre Nova York, onde ele tinha morado por vários anos. "A cidade é fantástica, mas pra trabalhar é muuuito difícil", diz ele. "Tem uma judaiada (sic) que domina o circuito de arte que, se você não entrar na deles, não consegue nada."

Espantei-me com sua desenvoltura ao vomitar preconceito tão virulento, logo ele, artista tão liberal, de esquerda, defensor de minorias e oprimidos.

"Eu sou judeu", foi minha resposta, fugindo ao bar, enquanto ele tentava se explicar melhor.

Lembrei dessa história ao ler na coluna Mônica Bergamo as explicações da cantora Nana Caymmi para suas supostas declarações publicadas pela revista "Quem". Após ser questionada sobre o sofrimento com um filho usuário de drogas e com seqüelas de acidente de moto, disparou: "Fico me perguntando por que preciso sofrer tanto. Não sou judia, não crucifiquei Jesus!"

Ouvida pela coluna, Nana negou ter feito tal declaração: "Todo jornalista, você me desculpe, deturpa o que a gente fala. Eu falei sobre o filme do Mel Gibson ["A Paixão de Cristo"], sobre pirataria". Ela ainda citou lista de amigos judeus para provar ausência de preconceito.

Já a revista "Quem" disse que a declaração está gravada, não foi descontextualizada nem o nome de Mel Gibson foi citado na entrevista.

O leitor que julgue. Tendo a não acreditar na cantora (apesar de minha admiração absoluta por seu pai, Dorival Caymmi) porque já vi esse filme várias vezes, principalmente a linha "mas você nem parece judeu!" quando revelo minha origem após tiradas antijudaicas.

É chocante e deprimente constatar como o anti-semitismo perdura e é tão tolerado mesmo depois do Holocausto, a matança imoral, impune e quase consensual de 6 milhões de indefesos judeus na Europa sob o regime nazista. (Como é chocante e deprimente constatar como perdura, também, a discriminação e a perseguição de negros depois de todo o sofrimento da escravidão ou outras tantas formas de discriminação contra tantos grupos.)

O anti-semitismo é um camaleão venenoso que se adapta às mais diversas condições de pressão e temperatura. Hoje ele viceja na Europa e no mundo islâmico travestido de anti-sionismo, a vilificação e a deslegitimação de Israel como nação judaica como se o princípio fundador do país fosse racista e não uma forma de defender-se do racismo, de séculos e séculos de perseguição genocida, cujo ápice foi a sofisticação científico-logística desenvolvida pelos alemães e aliados para exterminar os judeus europeus.

Mas o anti-semitismo que parece sair da voz aveludada de Nana Caymmi é de outra cepa, cristã. Já no século 1º, os primeiros líderes da igreja buscaram demonizar os judeus e o judaísmo para ganhar adeptos justamente entre os judeus da Palestina romana e depois por todo o império.

A acusação de deicídio, explícita no Evangelho de Mateus, foi um sucesso histórico. De Santo Agostinho no século 4º ao pai do protestantismo, Martinho Lutero, no século 16, a filósofos do Iluminismo como Voltaire, a biblioteca anti-semita é vasta, crescente e assustadora. E se espalha hoje com as facilidades de comunicação da internet e o anti-semitismo de Estado de vários países árabes.

Nunca esqueço conversas que tive na cozinha da minha avó Pessel. Fugindo da Polônia antes da Segunda Guerra, suas memórias trágicas daquele país a perseguiram e a marcaram.

A mais repetida era a de seu pai, ortodoxo, que foi tentar a vida na indústria têxtil de Nova York nos anos 1930 mas teve de voltar para a Europa porque não topou trabalhar aos sábados na América, desrespeitando o dia sagrado judaico.

"Voltou pra Hitler matar", repetia ela sempre a mesma frase, seca, cortante, "voltou pra Hitler matar", com seu sotaque particular sentada ao redor da mesa de fórmica.

Hitler matou o pai dela, a mãe, a maioria de seus muitos irmãos, tios primos e também a família do meu avô, que, tão traumatizado, ao chegar ao Brasil colocou um i no sobrenome Malberger para disfarçar o judaísmo. Medida prudente que me ajudou em algumas viagens pelo Oriente Médio, onde vez ou outra, diante da pergunta sobre a origem de meu nome, tive de dizer que era belga ou francês para evitar problemas.

Como convencer Nana Caymmi ou mesmo o editor da revista "Quem" (que no mínimo deixou a frase racista ser publicada como se fosse uma frase normal, como outra qualquer) de que os judeus não merecem punição nem sofrimento pela morte de Jesus ou por buscarem um lar em sua terra de origem justamente para se proteger de tanta perseguição?

A tarefa parece impossível, aponta a história. Mas é preciso tentar, porque a mesma história já mostrou aonde pode nos levar.

Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos Dinheiro (2004-2010) e Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.

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