Pensata

Sérgio Malbergier

24/01/2008

Nova York dos trópicos

São Paulo está fazendo 454 anos em meio a um turbulento reajuste de preços de ativos mundiais que afeta diretamente uma das vedetes da cidade, a Bolsa de Valores, situada no antigo coração da metrópole.

Instabilidades do capitalismo financeiro à parte, a Bovespa é o maior símbolo do novo ciclo econômico que propulsiona a capital paulista. Atraiu bilhões de dólares do mundo todo no ano passado, sendo um dos mercados mais dinâmicos das finanças globais.

Se bem administrado, e aí já falamos de uma variável (classe política brasileira) muito mais danosa que os mais gananciosos especuladores bursáteis, o cidadonho de quase 11 milhões de habitantes pode se tornar um dos grandes centros do multipolar século 21.

O nome do jogo são os chamados "serviços superiores": São Paulo é um centro de excelência sul-americano para serviços financeiros, saúde, educação, lazer, publicidade, gastronomia, cultura.

Os profissionais dessas áreas trabalham (e lucram) cada vez mais para atender a uma clientela que vem do interior paulista, de outros Estados e de países vizinhos.

Universidades, lojas, hospitais, médicos, bancos, corretoras, agências de publicidade, restaurantes, teatros, cinemas e casas de espetáculo, todos se beneficiam da busca de serviços superiores para atender a uma clientela cada vez mais rica e disposta a gastar.

Podemos ser a Nova York dos trópicos, se esse processo de crescimento for bem administrado. Mas é aí que o minhocão entorta.

Apesar de todo seu avanço, São Paulo não se livrou do anacrônico e criminoso sistema político brasileiro tradicional. A Câmara dos Vereadores paulistana é uma piada de péssimo gosto, aprovando leis de mentirinha, servil ao prefeito da vez em troca de acordos inconfessáveis, incapaz de refletir o novo dinamismo da cidade.

E a elite paulistana está muito mais preocupada em ganhar seu dinheiro neste novo ciclo de prosperidade do que tentar consertar a cidade que vive.

É o caso das incorporadoras responsáveis pela explosão imobiliária local. Após encheram os cofres abrindo seu capital na Bovespa, as construtoras transformaram São Paulo num canteiro de obras frenético. Mas os prédios que erguem seguem a mesma lógica mercantilista que cobriu a cidade de monumentos ao mau gosto.

O ganho financeiro do setor ainda não se transformou em ganho estético. Seguimos construindo apartamentos "neoclássicos" que de clássicos nada têm simplesmente porque, dizem as incorporadoras, pesquisas de marketing apontam ser esse o desejo do consumidor.

Aliás, se gasta muito mais em marketing do que nos projetos de arquitetura, e os bons arquitetos continuam a ser alijados do processo em troca de profissionais que assinam plantas de acordo com a visão rala dos marqueteiros.

E esse descaso com o urbanismo e a estética ocorre também nas obras públicas, com novas pontes, calçadas, prédios, parques e vias sendo criados ou remodelados sempre por arquitetos do segundo time, sem refinamento algum nem discussão pública sobre os rumos estético-urbanísticos da metrópole.

A administração Kassab parece avançar um pouco no trato da cidade, como atesta o sucesso da Lei Cidade Limpa, que tirou de quase todas as paredes e fachadas disponíveis da cidade painéis publicitários horrorosos que enfeiavam ainda mais nossa feia arquitetura.

Muitos achavam que seria mais uma lei das inúmeras que não pegam. Mas o apoio firme dos paulistanos e seu entusiasmo com a chance de limpar um pouco a cidade mostram que os fornecedores dos serviços superiores querem também viver numa cidade superior, apesar da passividade dominante.

São Paulo tem dinheiro e capital humano suficientes para se transformar ainda mais no que todos esperam dela: um centro próspero mas também agradável, cidadão.

Mãos à obra!

Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos Dinheiro (2004-2010) e Mundo (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas.

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