Pensata

João Pereira Coutinho

15/05/2006

Os amantes de Hugo Chávez

Que delícia. Leio na imprensa inglesa entrevista com Herma Marksman, amante de Hugo Chávez durante dez anos. Isto, claro, quando Chávez era um modesto tenente-coronel do Exército da Venezuela. Tenho certa experiência com a vida privada de ditadores ou caudilhos e já escrevi abundantemente a respeito. Normalmente, não se recomendam. Hitler era caso extremo e o romance com Eva Braun, que terminou como terminou, ficou marcado por insatisfações mútuas, típicas do onanista histérico e da mocinha insatisfeita. Mussolini era um selvagem que violava duas ou três mulheres por dia e depois discursava a multidões em êxtase. Cuidado, falamos de tempos pré-Viagra. Os comunistas eram um pouco mais moderados: tirando Mao, pedófilo e, em termos de banho diário, um reputado suíno, Lenin e Stálin tinham privacidades toleráveis. Lenin gostava de "ménage a trois" com a mulher, Nadya, e a amante, Inessa, o que não deixa de ter as suas vantagens e, mais que vantagens, a sua coerência: coletivismo é isso mesmo, camaradas. Stálin, depois de enterrar a primeira mulher e de levar a segunda à loucura, dedicou as energias hormonais a matar milhões de seres humanos. Sexo e morte: as duas únicas certezas desta vida.

E Chávez? Segundo Herma Marksman, hoje na casa dos 50, Chávez era um docinho em pessoa. Flores, chocolates, declarações de amor. E violência? Nem pensar nisso. Nunca levantou a mão, ou a voz. Bem, a voz até levantou, mas só para cantar: conta Herma que o seu Huguito lhe dedicava serenatas sem fim. Mas isso foram outros tempos, antes do poder subir à cabeça do bolivariano Chávez. Hoje, afirma Herma, Chávez está a caminho de uma ditadura fascista. Não é mais o Hugo, o seu Huguito Cantante, que a cobria de flores, chocolates, cançonetas. Mas nunca, nunca, nunca de porrada.

A esquerda européia discorda, certamente. E dirá que as mulheres não são de confiança: uma pessoa deixa de oferecer chocolates, flores e serenatas e é logo um fascista nos jornais. Difícil não concordar. Nos últimos dias, Chávez aterrou na Europa para a Cúpula União Européia-América Latina, juntamente com o comediante Morales (que, a propósito, humilhou o governo brasileiro de forma reptiliana; o Brasil deixou), e a esquerda indígena entrou em festa. Basta ouvir Ken Livingstone, "mayor" da cidade de Londres, que marcou almoço com Chávez e é um admirador confesso do Comandante. É possível, e até provável, que no almoço londrino seja Livingstone a dedicar uma serenata a Chávez.

Pena que a serenata não terá os versos fundamentais. Para começar, um verso sobre o controlo "democrático" que Chávez exerce no legislativo, no judiciário, nas forças armadas e na própria entidade "independente" que "regula" os atos eleitorais na Venezuela. E, para acabar, um verso ainda sobre as perseguições a jornalistas ou dissidentes que não gostam de Huguito Cantante e não dispostos a cobri-lo de flores ou cholocates. Só de porrada mesmo. E ainda temos os pobres que estão cada vez mais pobres, apesar do petrôleo em alta que Chávez controla e usa como quer. E ainda temos o crime, sobretudo em Caracas, que transforma S. Paulo, acreditem ou não, numa cidade próxima do Paraíso.

A tudo isto, a esquerda européia dirá certamente coisas inteligentes. Para começar, que Chávez foi eleito "democraticamente" (Hitler também). Que Chávez traz de volta a utopia perdida (Mao também trouxe). E que Chávez tem a coragem necessária para marchar contra os Estados Unidos (como o Irã, presumo, e outros sítios civilizados, como Cuba ou o Zimbabwe). Inevitável: se a história do século 20 ensina alguma coisa, é que haverá sempre um idiota útil disposto a defender o inominável. Heidegger marchou com o Nacional Socialismo. Sartre marchou com Stálin e, quando Stálin desapareceu de cena, com o terrorismo terceiro-mundista de Franz Fanon ou Yasser Arafat. Harold Pinter, Prémio Nobel, acha que Cuba não mata nem tortura desde 1959. E Peter Handke, que não é Prémio Nobel mas já foi candidato, compareceu no funeral de Slobodan Milosevic e derramou duas lágrimas sobre o ditador.

No meio deste bacanal ideológico, o meu coração está com Herma: triste e abandonada, sem flores ou chocolates, presenciando o harém de amantes que o seu Huguito Cantante vai cultivando pela Europa e pelo mundo. Pobrezinha. Chamem-me sentimental. Mas tivesse eu guitarra e voz, e seria altura de dizer: "Silêncio, que se vai cantar o fado".
João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com

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