Pensata

Salvador Nogueira

01/12/2005

Morte e renovação, tudo ao mesmo tempo e agora

O nome é Eta Carinae, mas poderia bem ser rebatizada como Estrela da Morte (se alguém se dispusesse a pagar os royalties ao George Lucas, claro). Trata-se de um astro binário, ou seja, composto por dois objetos, localizado a uns 7.500 anos-luz de distância, com massa total equivalente à de uns 160 sóis. E a má notícia: a maior das estrelas do par está nas últimas, prestes a morrer. Os cientistas não acham absurdo dizer que ela pode ir desta para uma melhor --explodir numa hipernova-- a qualquer minuto.

Reprodução/STScI
Imagem do Hubble mostra Eta Carinae envolta em gás
Imagem do Hubble mostra Eta Carinae envolta em gás
A uma distância segura, a explosão violenta de Eta Carinae não seria mais que um belo espetáculo de fogos de artifício, como as tantas outras supernovas que os astrônomos observam Universo afora há séculos. E, cá para nós, 7.500 anos-luz não são de se desprezar. Afinal, é o equivalente ao que um raio de luz, viajando a alucinantes 300 mil quilômetros por segundo, atravessa num período de 7.500 anos, ou, trocando por uma unidade do cotidiano, uma distância de 71 quatrilhões de quilômetros.

Pode não ser suficiente.

Os astrofísicos hoje acreditam que a morte de estrelas desse porte em hipernovas (termo usado para designar uma supernova "sarada") venha acompanhada pela emissão de um violento disparo de raios gama --para os íntimos, um GRB (sigla em inglês para "gamma-ray burst"). Essa radiação é composta pelas mesmas partículas de que a luz é feita, mas o conteúdo de energia em cada pequeno "pacote" é imenso. É seguro dizer que os GRBs representam as mais energéticas explosões do Universo. Pois bem, Eta Carinae está às vésperas de arrotar seu GRB.

É quando entra o novo estudo de Brian Thomas, da Universidade do Kansas, e colegas. Recém-publicado no prestigioso periódico científico "The Astrophysical Journal", o artigo descreve o resultado de uma tonelada de simulações dos efeitos de um GRB na atmosfera terrestre. As notícias não são boas. Segundo o grupo, mesmo gerado a uma distância de cerca de 6.500 anos-luz (ou dois quiloparsecs, como eles preferem dizer), um disparo de raios gama pode fazer grandes estragos na Terra.

Como? Bom, para começar, a energia dos raios gama desfaz as moléculas de ozônio (O3) na alta atmosfera. A perda global seria de aproximadamente 38%, mas na região mais afetada o número está mais para 74%. A destruição é persistente: as simulações mostraram que haveria uma redução global de ozônio na faixa de 10% mesmo sete anos após a incidência do GRB. A Terra levaria algum tempo para se recuperar.

Sem o ozônio, a atmosfera não serve de proteção contra os raios ultravioleta vindos do Sol. Menos poderosos que os raios gama, mas mais agressivos que a luz comum, os famigerados UV são conhecidos pelos danos que causam ao DNA --molécula que armazena o código genético das criaturas vivas. De acordo com Thomas e seus colegas, a catástrofe causaria uma incidência 16 vezes maior de danos no DNA do que a atual --dose que seria letal para muitas formas de vida mais simples.

A coisa não pára por aí. Com o excesso de raios ultravioleta, as moléculas de nitrogênio na atmosfera se dissociariam, formando óxido nítrico (NO2), gás que reflete mais a luz solar, impedindo-a que chegue ao solo. Resultado: redução da claridade, acompanhada por mudança climática --resfriamento global. Para concluir, a dissociação dos componentes atmosféricos também levaria à produção de HNO3 --ácido nítrico. Temporais de chuva ácida à frente, capitão!

Resumo da ópera: um dia negro na história da Terra.

Felizmente, um disparo de raios gama suficientemente próximo do planeta para causar esse tipo de estrago acontece raras vezes. A estimativa dos cientistas é que um evento desses ocorra mais ou menos a cada bilhão de anos. Mesmo assim, como a Terra tem já seus respeitáveis 4,7 bilhões de anos, vez por outra já deve ter sido vitimada por um episódio do tipo.

Brian Thomas e seus colegas defendem que uma das grandes extinções em massa ocorridas no planeta, há 443 milhões de anos, pode ter sido ocasionada por um GRB. Foi a segunda maior matança da história terrestre. A próxima, quem sabe, pode muito bem ser ocasionada por Eta Carinae.

Stefan Ivarsson/Nasa
Concepção artística mostra as duas estrelas que compõem Eta Carinae
Concepção artística mostra as duas estrelas que compõem Eta Carinae
A estrela já pode até ter explodido, a essa altura. Seus raios gama ultrapoderosos, viajando à velocidade da luz, precisariam de 7.500 anos para atravessar a distância de lá até aqui. Podem estar no meio do caminho. E só saberemos quando eles forem observados, ou seja, quando chegarem.

O que podemos fazer então para evitar essa tragédia? Em uma palavra: nada. Diferentemente de outros eventos causadores de extinção mais comuns (como asteróides em colisão ou primatas metidos a inteligentes que entopem sua atmosfera de gás carbônico e queimam suas florestas para plantar soja), não há nada que se possa a fazer a respeito disso. No máximo, podemos tentar evitar os efeitos mais deletérios. Augusto Damineli, por exemplo, que é astrônomo da Universidade de São Paulo e possivelmente o maior especialista do mundo em Eta Carinae, recomenda (meio em tom de brincadeira, é verdade) que, caso a explosão aconteça durante o nosso tempo de vida, simplesmente nos mudemos todos para o hemisfério Norte. Como a estrela moribunda é visível apenas no céu do hemisfério Sul, o "lado de lá" do planeta não será exposto aos raios gama e será menos vulnerável aos efeitos.

Ei, volte aqui. Não faça as malas ainda. A explosão de Eta Carinae vai acontecer em breve, mas quão breve ninguém sabe ao certo; é algo que pode acontecer nos próximos 10 mil a 100 mil anos. Tem chão ainda. Ainda assim, somos obrigados a confrontar o fato de que o Universo, quando quer, pode ser bem hostil à vida. Será mesmo?

Acredite, há uma maneira positiva de encarar tudo isso. Danos ao DNA, na forma de mutações, normalmente causam morte e extinções. Mas também são os motores da evolução das espécies. Talvez o mesmo fenômeno que leve à morte de zilhões de criaturas também seja o responsável por dar empurrões adicionais à evolução da vida, acelerando momentaneamente as taxas de mutação e promovendo a diversificação genética. O que da nossa perspectiva egoísta e antropocêntrica pode parecer destruição pura e sem sentido talvez seja na verdade um ciclo de renovação e eterna transformação do ponto de vista do Universo.

Trocando em miúdos: desgraças acontecem. Mas a vida continua.
Salvador Nogueira, 27, é jornalista de ciência da Folha de S.Paulo e autor de "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço". Escreve às quintas para a Folha Online.

E-mail: salvadornogueira@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

//-->

FolhaShop

Digite produto
ou marca