Pensata

Salvador Nogueira

12/01/2006

Uma amostra do futuro

Tem evento espacial que merece acompanhamento ao vivo neste fim de semana. Na manhã de domingo, a sonda Stardust conclui uma longa viagem iniciada em 1999 com o que pode ser o primeiro retorno bem-sucedido de amostras vindas do espaço desde 1976. Mais do que isso, será a primeira vez que os cientistas terão partículas extraídas diretamente de um cometa, e será possivelmente a primeira missão automática de amostras bem-sucedida empreendida pelos Estados Unidos. Um monte de responsabilidade sobre os ombros. Para estar à altura disso tudo, ela precisa de apenas uma coisa: dar certo.

Nasa
Ilustração do pouso da sonda Stardust, em Utah (EUA)
Ilustração do pouso da sonda Stardust, em Utah (EUA)
Não vai ser fácil. A cápsula se desprenderá da espaçonave e atingirá a atmosfera a 12,8 km por segundo --será a cápsula mais rápida a tentar a reentrada segura na atmosfera da Terra, num procedimento ainda mais violento que o retorno das naves tripuladas Apollo, que foram à Lua. Se tudo correr conforme o planejado, ela deve pousar suavemente, com auxílio de pára-quedas, no deserto de Utah, onde será recolhida pelos cientistas para análise.

Claro, às vezes as coisas chegam tão perto assim de dar certo, só para dar errado no último minuto. Basta lembrar o destino da Genesis, outra espaçonave recente lançada pela Nasa para coletar amostras do vento solar (corrente de partículas emanadas pelo Sol em todas as direções do Sistema Solar). Em setembro de 2004, ela estava pronta para retornar à Terra. E retornou. Só que os pára-quedas não se abriram e ela se esborrachou no chão.

Nasa
Sonda Genesis, em 2004, espatifada no chão
Sonda Genesis, em 2004, espatifada no chão
Segundo os cientistas, os restos coletados ainda foram suficientes para que se prosseguisse com a análise das amostras (até agora, nenhum resultado científico mais emocionante saiu da missão). A despeito disso, não dá para chamar de retumbante sucesso.

Também não está sendo pouco sofrida a tentativa de trazer amostras do asteróide Itokawa, com a sonda japonesa Hayabusa. Severamente danificada, a espaçonave pode nem conseguir encontrar o caminho de volta para casa. Se o fizer, ninguém sabe se ela conseguiu mesmo coletar alguma amostra de seu objeto de estudo. Ou seja, eu não prenderia minha respiração por ela.

Portanto, relembrar a última missão automática bem-sucedida de retorno de amostras significa voltar ao longínquo ano de 1976, quando os russos, ainda na época da Guerra Fria, fizeram coletas na Lua, com a missão não-tripulada Luna-24.

Na verdade, os russos obtiveram esse sucesso três vezes, e é basicamente tudo que temos para contar de missões de retorno de amostras bem-sucedidas. Os americanos jamais conseguiram tirar essa carta da manga. (Convenhamos, eles tinham uma "mão melhor" na época, com toda a arquitetura Apollo para coletar rochas com astronautas não medidas em uns poucos gramas, mas em vários quilos.)

De toda forma, esse quadro precisa mudar logo, se quisermos prosseguir a sério nessa brincadeira de explorar o espaço. Primeiro, porque o retorno de amostras é a melhor forma de fazer ciência (excluindo-se o envio de astronautas, que hoje estão limitados à Estação Espacial Internacional); segundo, porque, se não for bem-feita, é também a mais arriscada.

Embora pareça alarmismo desnecessário, vale lembrar que há grupos hoje sumariamente contrários à realização de missões automáticas de retorno de amostras em Marte, com medo de que elas tragam formas de vida alienígenas de volta para a Terra. Numa falha no retorno, essas amostras poderiam ir parar no ambiente, em vez de num laboratório seguro. O retorno malogrado da Genesis provou que seus piores medos podem de fato se realizar.

A complexidade de um projeto desta magnitude (retorno de amostras de Marte) tem feito as agências espaciais ao redor do mundo empurrarem com a barriga o momento em que tentarão trazer rochas marcianas para a Terra. Tanto ESA (Agência Espacial Européia) quanto Nasa falam na década de 2010, mas não há planos firmes ou datas em nenhum dos dois lados. Russos e japoneses nem tocam no assunto.

Nasa
Imagem do cometa Wild 2 obtida pela sonda Stardust
Imagem do cometa Wild 2 obtida pela sonda Stardust
Quem sabe esta sorte não comece a virar para melhor no domingo? Verdade seja dita: a Stardust já fez coisas muito boas ao longo de sua viagem. Ao se aproximar do cometa Wild 2 (pronuncia-se "vilt"), em 2 de janeiro de 2004, ela obteve fotos espetaculares do astro, além de passar por sua cauda e coletar partículas dela --são essas que a nave agora traz para a Terra, além de poeira interestelar coletada com sucesso em duas ocasiões diferentes, em 2000 e 2002.

O cientista-chefe da missão é Don Brownlee, um astrônomo da Universidade de Washington que eu tive a oportunidade de entrevistar diversas vezes, inclusive para meu livro "Rumo ao Infinito". Ele ficou mais famoso, na verdade, pelos dois livros que escreveu com o geólogo Peter Ward, do que pela participação na Stardust. Em "Rare Earth" (traduzido no Brasil como "Sós no Universo"), Brownlee e Ward argumentam que planetas como a Terra são muito raros no Universo e que a vida complexa (como os animais que vemos por aqui) deve ser extremamente incomum. Na continuação, "The Life and Death of Planet Earth" (ainda sem tradução no Brasil, algo como "Vida e Morte do Planeta Terra"), a dupla argumenta que vivemos num momento especial da história do planeta e de que logo essa festança da vida também irá acabar por aqui (coisa de 1 bilhão de anos, eles dizem).

Nasa
Ilustração da sonda Stardust em perseguição ao Wild 2
Ilustração da sonda Stardust em perseguição ao Wild 2
Ao estudar as amostras da Stardust, Brownlee poderá testar algumas das idéias desenvolvidas em seus livros. Sabe-se que os cometas são ricos em aminoácidos (tijolos químicos usados na construção de proteínas, que por sua vez são os componentes básicos dos seres vivos) e em gelo de água, mas eu aposto que o mais interessantes dessas amostras será o que Don e seus amigos não esperam encontrar.

Aliás, esse é o lado mais interessante da exploração espacial. Lá fora, o inesperado é a regra, e todas as apostas valem. O falecido astrônomo inglês Fred Hoyle (1915-2001) era um dos que acreditavam que a vida se formou e se espalhou pelo Universo a partir dos cometas. Se ele estiver certo, as amostras da Stardust devem estar cheias de traços de criaturas alienígenas. Segundo a maioria dos cientistas, isso é muito improvável --mas ainda assim possível, o que torna o assunto passível de investigação.

Se, é claro, a cápsula da Stardust fizer um pouso suave em Utah no domingo. Fique ligado. (Tem transmissão ao vivo pela NASA TV a partir das 7h30, horário de Brasília, em www.nasa.gov/multimedia/nasatv/)
Salvador Nogueira, 27, é jornalista de ciência da Folha de S.Paulo e autor de "Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço". Escreve às quintas para a Folha Online.

E-mail: salvadornogueira@uol.com.br

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