Pensata

Kennedy Alencar

10/03/2006

Acordão tira autoridade moral de PSDB e PFL

Ao absolver os deputados federais Roberto Brant (PFL-MG) e Professor Luizinho (PT-SP) nesta semana, a Câmara dos Deputados disse o seguinte: caixa dois não é crime. No máximo, um deslize que a grande maioria dos políticos comete e que não justifica cassação de mandato.

Ora, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a desastrada entrevista de Paris, no ano passado, na qual disse que o PT ao recorrer ao caixa 2 fizera o que os demais partidos políticos sempre fizeram na história do Brasil, políticos do PSDB e do PFL caíram de pau em cima dele. Com toda razão. Presidente da República não pode defender caixa 2, "coisa de bandido", nas palavras do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça). E o PT está pagando merecidamente pelos pecados que cometeu na companhia de Marcos Valério.

No entanto, os tucanos e pefelistas que tanto atacaram e atacam Lula e o PT deveriam, agora, ter cortado na própria carne para manter a autoridade moral nas eleições deste ano. Mas a jogaram fora. Mais ou menos o que fizeram quando ajudaram a eleger Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara em fevereiro de 2005.

Injustamente, as absolvições de Brant e Luizinho, com as atenuantes e agravantes de cada caso, foram creditadas a um acordão entre PT e PFL. Foi um acordão do Congresso, de todos os grandes partidos. O líder do PSDB na Câmara, Jutahy Magalhães (BA), trabalhou com afinco nos bastidores para absolver o pefelista mineiro. Pediu votos a seus liderados. Jutahy é um dos principais escudeiros de José Serra, presidenciável tucano e prefeito de São Paulo.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, outro presidenciável do PSDB, também atuou a favor de Brant. Alckmin tenta reduzir a vantagem que Serra leva na preferência pefelista por uma candidatura ao Palácio do Planalto. Nada como procurar agradar a cúpula pefelista, que atuou para salvar Brant. Secretários de Alckmin fizeram trabalho similar ao de Jutahy. Cabalaram votos para absolver Brant e, em troca de apoio petista a essa manobra, devolveram a gentileza a favor de Luizinho.

Será difícil para tucanos e pefelistas sustentar durante a campanha que o "mensalão" é o maior esquema de corrupção da história do Brasil. Afinal, jogaram juntos para absolver Brant, que, apesar de ser um deputado federal muito acima da média, cometeu um crime.

A ação do PSDB e do PFL a favor de Brant ajudará o PT, pois dará ao grande adversário desses partidos nas eleições de 2006 discurso para suavizar a participação de petistas no valerioduto.




Melhor ficar calado

Impressionante o que aconteceu com o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), que teve passagem apagada pelo ministério de Lula e que faz uma presidência da Câmara que "rivaliza" com a de Severino Cavalcanti. Resposta dele às absolvições de Brant e Luizinho: "O resultado corresponde a uma tradição da Casa. Nunca houve nem haverá cassações ou absolvições em massa".




Quem paga a conta?

No contexto da suavização do crime de caixa 2 que pautou as absolvições de Brant e Luizinho, vale perguntar: qual é a origem dos recursos que pagam as pesquisas encomendadas por tucanos e pefelistas para avaliar o cenário político e que não são registradas na Justiça Eleitoral?




Para tucano ver

De público, Alckmin cobra pressa na decisão do PSDB sobre a candidatura a presidente. No bastidor, está adorando a demora. O passar do tempo joga contra Serra. A cada dia que os tucanos não decidem quem será o candidato fica mais forte a possibilidade de o governador sê-lo, pois vai se consolidando como opção mais natural. Para Serra, a cada dia também fica mais cara a renúncia. Se não for candidato tudo bem. Se for, será cobrado a dizer por que não se manifestou antes e evitou seqüelas no partido.




Subiu no telhado

Ao dizer a emissários de partidos políticos que o STF (Supremo Tribunal Federal) deverá manter a verticalização para as eleições de outubro, o presidente da instituição, ministro Nelson Jobim, bombardeou a candidatura presidencial própria do PMDB.

No cenário em que se mantém a regra que restringe a liberdade de alianças nos Estados, os governistas do PMDB e um setor da ala oposicionista vão trabalhar contra a realização da prévia no dia 19 e a conseqüente candidatura ao Palácio do Planalto do ex-governador Anthony Garotinho (RJ) ou do governador Germano Rigotto (PMDB-RS). A intenção é não ter candidato a presidente para que as seções regionais se aliem livremente nos Estados.
Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

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