Pensata

Lúcio Ribeiro

12/08/2005

24-Hour Party People

"No, I know I won't forget you
But I'll forget myself,
if the city will forgive me"
Elbow, em "Forget Myself"

"So you think you can love me
And leave me to die
Oh baby --can't do this to me baby
Just gotta get out
Just gotta get right outta here"
Flaming Lips, em "Bohemian Rapsody"

"You got it, I want it!
You got it, I want it!
You got it, I want it!"
Kills, em "Cat Claw"


Buenas.

Como era fácil de prever, esta coluna sai prejudicada pelo atropelo da hora.

A coisa não está fácil.

O recado é rápido. E ele é assim:

* Nunca dei muita bola para o Elbow. Sombra do Coldplay e tal. Mas você já ouviu essa "Forget Myself". Que música boa!

* O cineasta, pintor, modelo, ator, escritor, produtor e músico Vincent Gallo, graças a essa última qualidade, será trazido ao Brasil em outubro para ser uma das atrações do Tim Festival 2005. A notícia da vinda do polêmico multihomem da cena independente americana ao evento carioca está publicada no site da cultuada gravadora inglesa de vanguarda Warp (Aphex Twin, Prefuse 73 e Maximo Park).

O Tim Festival, que acontece de 21 a 23 de outubro, ainda não se pronunciou oficialmente sobre a programação deste ano. O site da Warp não precisa o dia da apresentação de Gallo ("21, 22 ou 23").

Extremamente engajado em suas múltiplas funções, o agitado e agitador Gallo encarou a faceta musical em 2005, mas o que vem mostrar no Tim Festival é o repertório de seu disco do "longínquo" 2001, "When". Desse e de um outro disco lançado no ano seguinte, uma compilação de composições suas para filmes independentes, "Recording of Music for Film". Gallo é dado a dedilhadas na guitarra e violão, o que aproxima
seu som de jazz e lounge, geralmente cantado por uma mulher ou pelo próprio Gallo, com voz... feminina.

Em alguns de seus shows, Vincent Gallo recebe a colaboração no palco de músicos como Sean Lennon, John Frusciante (Red Hot Chili Peppers) e a turma do Sonic Youth.

Junto com o concerto do Tim Festival, a Warp divulgou uma mini-excursão européia do Vincent Gallo músico, para os próximos dias. Na próxima quarta-feira, Gallo toca em Londres. E uma turnê americana (dezembro) está para ser anunciada.

Gallo já foi notícia no Brasil este ano, quando chegou ao cartaz seu filme "Brown Bunny" (2003), que mistura as conhecidas manias do cineasta-músico: "coelhos, mulheres e sexo compulsivo". Em "Brown Bunny", que estreou nas telas brasileiras em maio, há uma comentada cena de sexo oral explícito entre o diretor-ator e a atriz Chloe Sevigny.

No álbum "When", já em 2001, Gallo abriu o CD com uma canção chamada "I Wrote This Song for the Girl Paris Hilton".

Neste ano, o cineasta-músico foi o curador do festival All Tomorrow's Parties, em Londres.

* Autechre - Outra banda da Warp que se confirma para o Tim Festival deste ano é o cultuado duo britânico Autechre, da vanguarda experimental eletrônica feita com maestria em cima de um laptop. O Autechre, que testa ruídos e batidas desde o começo dos 90, lançou este ano o CD "Untilted", que deve servir de base para sua caótica e atmosférica apresentação.

* Television - O Tim Festival vai proporcionar uma boa chance de conferir de onde vem a veia punk new wave que move o novo rock nova-iorquino. A reformada banda histórica Television, de mister Tom Verlaine, vem para o festival. Se o Tim Festival trouxer um ou dois nomes novíssimos para completar o elenco, tipo Libertines do ano passado, vai ser fácil o melhor festival de todos os tempos. Isso se já não é.

* Tem algo confuso (para mim, claro) quanto o Claro Que É Rock. Parece que o festival fechou o megateen Good Charlotte, que excursiona pela América do Sul no final de setembro. Mas o festival, parece, está mudando para dezembro. E continua obcecado em trazer o System of a Dawn, o que é ótimo.

* Já o Nokia Trends, que acontece em São Paulo e Rio em setembro, ganhou status de imperdível e fez valer o "trends" do seu nome ao escalar, de última hora, o duo britânico Audio Bullys (só Rio), house carregada de punk, pop e hip hop branco londrino. One two, one two. O esperado segundo disco do Audio Bullys, "Generation", só sai em outubro, mas dá para ouvir coisas por aí, como a maravilhosa "Bring Light". Audio Bullys no mesmo dia de Weezer em Curitiba.

* Falando em Curitiba Pop Festival, conversei por e-mail rapidamente com Sune Rose Wagner, mentor do cool grupo dinamarquês Raveonettes, atração do evento paranaense. "Não vejo a hora de tocar no Brasil. Simplesmente por não ter a mínima idéia do que eu vou encontrar aí. Eles conhecem Raveonettes no Brasil? A vibração que eu sinto por causa desse show daí é ótima. Não vejo a hora."

* Sem promo nesta semana, para colocar a casa em ordem. Sei que estou devendo listas e listas. Assim que esta agitada semana passar, vou botar tudo em ordem. Como diria o Agente 86, desculpe por isso, chefe.

* Popload Tour 2005 dia 27 passa pela famosa Londrina, na festa Alta Fidelidade. Recife, Fortaleza e Belém devem ser as próximas.

* Echo & The Bunnymen está voltando ao Brasil.

* Está com seu iPod a mão? Ou outro tocador de MP3? Mas tem como ouvir no seu computador? Pelo menos seu amigo tem um queimador de CDs?
Então, ouve isto aqui:

* Lucinda Williams, "Change the Locks". Um dos meus prazeres escondidos, debaixo dessa carcaça de nova música e tal, é a veterana roqueira americana Lucinda Williams. Tipo um Neil Young de calça e jaqueta jeans femininas. Country-blues rock apaixonado, com cada toque melancólico de guitarra de rasgar a alma que eu vou te contar. Recentemente saiu o primeiro disco ao vivo que ela gravou, "Live at the Fillmore", duplo. No meio das 20 músicas, tem sua clássica "Change the Locks", que eu já vi escrita "Changed the Locks". Na canção ela diz que mudou a fechadura da porta da frente para o cara não vê-la mais, não entrar mais, não deitar mais no sofá dela. Mudou o número do telefone para o cara não ligar mais para a casa dela, para ele não dizer mais aquelas coisas que a deixam de joelho. Mudou o tipo de carro que dirigia para o cara não vê-la mais passando, para ele não segui-la pelas ruas. Mudou as roupas que ela usava para ele não vê-la por aí, reconhecê-la na multidão e gritar seu nome para chamá-la. Lucinda Williams cantou "Change the Locks" ao vivo no último programa do David Letterman reprisado no Brasil.

* Rakes, "Work Work Work (Pub, Club, Sleep)". Agora sim, o novo rock. Quarteto de Londres, a última das últimas bandas inglesas bacanas a surgir acaba de lançar o ótimo "Capture/Release". Dizem, que nos shows, é impossível controlar o ímpeto de subir no palco e mergulhar na platéia. É como se os Strokes e o Libertines se juntassem e formassem nova banda. As letras falam do cotidiano de um moleque rocker londrino. Ou seja, pub, club, sleep, work, work, work. Tem gente, como eu, que acha o verso abaixo o mais legal do rock deste ano: "I'll have my lunch early/get some sugar in my blood, /my clothes still smell of last night/ I've got to clear my head".

* Mint Royale, "Singin' in the Rain (Club Mix)". Flaming Lips, "Bohemian Rapsody". Mais para o fim do mês sai na Inglaterra em single a reconstrução moderna para uma das músicas mais conhecidas da história, com assinatura do bacana Mint Royale. É essa "Singin' in the Rain" mesmo, que você está pensando. Gene Kelly para as pistas foi tema de comercial da VW na Europa. Já a fabulosa ópera-rock do Queen, sob a batuta do "maestro" Wayne Coyne, está em disco-tributo do Queen lançado terça passada nos EUA. Esta é a vida real? Isto é apenas fantasia? Luxo.

* Então é isso. Último recado: se joga. Boas baladas.
Lúcio Ribeiro, 41, é colunista da Folha especializado em música pop e cinema. Também é DJ, edita a revista "Capricho" e tem uma coluna na "Bizz". Escreve para a Folha Online às quartas.

E-mail: lucio@uol.com.br

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