Pensata

Lúcio Ribeiro

16/09/2005

Juventude sônica

Breaking News: Flaming Lips e Iggy Pop no CQÉR

Tem o lado ótimo, tem o lado desesperador. O festival Claro Que É Rock anunciou nesta segunda,19, seu decentíssimo line-up, o que vai trazer mais dor para o bolso da galera, mas vai aumentar o número recorde de atrações pop importantes a visitar o Brasil nesta parte iluminada de 2005. O veterano grupo Flaming Lips e o veteraníssimo astro Iggy Pop, que vem com os Stooges, acompanham Nine Inch Nails, Sonic Youth (veja abaixo) e outros no evento da companhia de celular, que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos dias 26 e 27 de novembro, respectivamente

Cachorro Grande, Nação Zumbi, Good Charlotte e Suicidal Tendencies completam o elenco divulgado. Em SP, o CQÉR acontece em lugar inédito para grandes festivais: na Chácara do Jockey, na avenida Francisco Morato, Morumbi. No Rio, os shows são na Cidade do Rock, em Jacarepaguá. Os ingressos começam a ser vendidos na primeira semana de outubro.




"Hey, kool thing, come here,
sit down besides me
There's something I gotta ask you.
I just wanna know, what are you gonna do for me?"
Sonic Youth, em "Kool Thing"

"People say that your dreams
are the only things that save ya
Come on baby in our dreams,
we can live our misbehavior"
Arcade Fire, em "Rebellion (Lies)"

"Some say you're trouble, boy
Just because you like to destroy
You are the word, the word is 'destroy'
I break this bottle and think of you fondly"
Franz Ferdinand, em "The Fallen"


Oi.

Você não poderia ter coisa melhor... com o Franz Ferdinand.

* São Paulo anda meio nervosa nestes últimos dias. Será que é porque a dondoca Paris Hilton está na cidade?

* As coisas são simples assim: quem me apontar uma música mais legal, hoje, que "Gold Digger", do rapper americano Kanye West, ganha um prêmio. Nem adianta citar a lindura "Two More Years', do Bloc Party. Agora, vídeo melhor (e de nome melhor) que o toscamente esperto "I Bet You Look Good on the Dancefloor", da molecadinha inglesa do Arctic Monkeys, isso não existe. Mesmo.

* Sabe o ator Brendan Fraser, né? Que fez os blockbusters da múmia e andou conversando com o Patolino, tal? Então, ele está em São Paulo. Veio com o rapper Mos Def para um projeto de cinema que inclui o titã-ator Paulo Miklos. Mas aí, no dia da sua chegada, semana passada, o cara rumava em direção ao seu hotel de luxo, nos Jardins. Numa van. Aí quando a van chegou à porta do hotel, foi cercada por um monte de gente. "Poxa, já me descobriram?", indagou o ator famosão, espantado com o assédio. "Vocês são do Whitesnake?", perguntou um dos assediadores.

* Parece que, na coletiva do VMB, em dado momento, um representante da MTV fez discurso enaltecendo o caráter vanguarda da emissora que vai apresentar shows do Ultraje a Rigor, Paralamas e O Rappa na festa de seu principal prêmio. "O Forgotten Boys anda saindo agora em jornal como banda nova. Isso é tããããão antigo para a gente. A MTV paga um preço por se adiantar tanto às tendências. Por exemplo, tivemos o show do Furto, no ano passado. E o disco do Furto só foi sair neste ano...", disseram lá, em alto e bom som. O Furto! Se ainda fosse o Surto.

* Já está com seu ingresso? Strokes no Rio acabou. Antes do anúncio oficial do esgotamento, começaram a chegar os emails desesperados de quem não conseguiu comprar. Mas, como dito aqui faz tempo, vai ter show extra no Rio.

* Da série covers legais, já ouviu o Arcade Fire tocando "Maps", do Yeah Yeah Yeahs?




A VOLTA DO SONIC YOUTH

Reprodução



A volta ao Brasil. Eu sei um segredo ou dois sobre a minha amiga Goo. Ela não vai se importar de eu contar para você. O adorado grupo veterano nova-iorquino é a mais nova inclusão roqueira do movimentado calendário de shows do segundo semestre nacional. A histórica banda engrossará a fileira de atrações a ser anunciada pelo festival Claro Que É Rock, que acontece no final de novembro. O CQÉR, sabe-se até agora, tem confirmados os shows do Nine Inch Nails, o mtvesco Good Charlotte e o redivivo Suicidal Tendencies. Um outro nome "histórico", que vai dar definitivamente o peso de grande festival para o evento, pode ter sua participação assegurada nos próximos dias.

O Sonic Youth vem mostrar sua microfonia cult no país pela segunda vez. A banda de Thurston Moore estrelou o Free Jazz 2000, no Rio em SP. O show foi maravilhoso. O bis, se é que eu me lembro, foi inesquecível (?!?): teve "Schizophrenia" e "100%". E a banda ainda tocou "Teenage Riot", uma das dez músicas mais bacanas de todos os tempos.

* A notícia da vinda do Sonic Youth surge exatamente na semana em que uma luxuosa versão do importantíssimo álbum "Goo" (1990) está sendo relançada nos EUA e na Europa, remasterizada, dupla e com 31 músicas. O disco que colocou a banda em alto conceito dentro da geração MTV dos 90 traz agora, na nova edição, B-sides, sobras de estúdio, entrevistas, cover de Beach Boys ("I Know There's an Answer") e um livro colorido de 24 páginas com fotos nunca vistas. Há uns dois anos, outro álbum do SY, "Dirty", já havia ganhado sua edição remasterizada, carregada e de luxo.

* Os integrantes do Sonic Youth, que se distribuem em vários projetos paralelos que incluem cinema e produção musical, se reencontram como banda no final de outubro, quando participam de shows em Paris em tributo a John Lennon. Também tocam na Espanha. O grupo, quando dá, vai experimentando ruídos novos para um vindouro CD de inéditas, o vigésimo (!!!!) a ser lançado em algum dia de 2006. Em um show nos EUA em julho, o SY tocou quatro canções novas: "Or", "Do You Believe in Rapture", "Helen Lundeberg" e "Pink Steam".

* Uma dúvida. O Queens of the Stone Age, minha banda predileta, está grudado ao Nine Inch Nails, numa turnê bem cool que ainda agrega show da banda canadense f*** Death from Above 1979. Beleza, isso é nos EUA, sorte deles. Acontece que em vários lugares começaram a divulgar a turnê conjunta, que já começou e só vai acabar no final de novembro. E citam o Claro Que É Rock. Será que o QOTSA está vindo?




SENHORAS E SENHORES, FRANZ FERDINAND

Jordi Peters



Segundo disco de uma banda da qual você amou o primeiro disco é sempre aquilo: é o segundo disco. E o engraçado da coisa é que o segundo disco do grupo escocês Franz Ferdinand, sim, é espetacular. E, sim, não é melhor que o primeiro. Por enquanto até agora.

"You Could Have It So Much Better... with Franz Ferdinand" chacoalhou a internet no final de semana passado, quando foi "absorvido" em velocidade espetacular, uma vez que vazou para a rede de computadores.
A banda mais sexy do planeta está nua. E não dava para ter coisa melhor (tá bom, eu paro).

Como disse a jornalista Miranda Sawyer, "Músicas legais, grandes idéias e uma 'levada gay'. Alguma dúvida que o Franz Ferdinand é a banda mais excitante do Reino Unido?".

Kapranos conseguiu acertar de novo. Construiu muitas novas canções pegajosas sobre um amigo especial ("The Fallen"), sobre a namorada que mora em Nova York ("Eleanor Put Your Boots On"), zoando a moçada ligada em arte ("Do You Want to"), emulando Beatles ("Fade Together", além da própria "Eleanor"), emulando Bowie ("I'm Your Villain"), emulando Bowie de novo ("What You Meant") e fazendo a música pop mais gostosa do ano, "Walk Away"(Why dont you walk away? No buildings will fall down/ No quake will split the ground/ Statues will not cry/ Why dont you walk away?).

"You're the Reason I'm Leaving" é um escracho de boa e de "fácil". "This Boy", se tocada alta em pista, é de dançar abraçado, pulando. E o disco não poderia terminar com a suingada e quase-reggae "Outsiders", deliciosa.

A BBC inglesa transmitiu na última segunda, ao vivo do clube Scala, de Londres, um show do Franz Ferdinand. As músicas novas soaram ainda melhores ao vivo. Agora some isso ao fato de elas se juntarem, no set, com os já "clássicos" temas do primeiro CD.

Alguma dúvida de que o Franz Ferdinand é a banda mais excitante do... planeta?

* Som e vídeo do show do Scala podem ser alcançados no site da Radio One, na parte rock/indie. Faça esse favor a você




WEEZER FECHADO.
STROKES EXTRA.
MOBY NO "HOTEL"


* Weezer em lugar fechado. O Curitiba Rock Festival mudou. Uma procura de ingressos longe do desespero que foi no ano passado, na famosa "Corrida aos Pixies", levou o evento a esquecer neste ano a enorme Pedreira Paulo Leminski (capacidade para 10 mil pessoas) e botar Weezer, Mercury Rev e Raveonettes para tocar no Curitiba Master Hall (4000 pessoas). Perde-se a beleza da Pedreira, ganha-se a melhor qualidade sonora de um lugar fechado.

* Como o previsto, os ingressos para o show dos Strokes (mais Kings of Leon) no Tim Festival (MAM, Rio, 2000 lugares) se esgotaram em poucos dias. Como já anunciado, a banda então vai fazer um show extra, no dia seguinte (22 de outubro), no Armazém 5 do Cais do Porto do Rio. Essa nova apresentação será para 4000 pessoas. Os ingressos para o Armazém 5 já estão a venda. Boa pedida para quem não descolou ingresso para o dia 21. O problema é perder o Arcade Fire...

* Dando continuação ao semestre fantástico de shows, o DJ e produtor americano Moby estréia nesta sexta a turnê brasileira do álbum "Hotel" em um hotel. A apresentação, no Unique (SP), é quase exclusiva para abastados: os ingressos custam R$ 300. Depois Moby toca sábado no Rio, São Paulo na terça e BH na quarta. Moby vem pela primeira vez ao país para shows muito além de discotecagem. Ele traz agora seu show completo, com uma banda que envolve 12 músicos. Embora "Hotel" seja um disco chatinho, o show do Moby é muito bom. A apresentação, na qual Moby toca até guitarra, é recheada de músicas do CD campeão "Play" e de "18", entre hits antigos. A cover de "Temptation", do New Order, tem aparecido nos shows dele. Mais animada ao vivo que a versão devagar de "Hotel".

* Grande notícia. O Nokia Trends escalou para a parte carioca de seu festival a ótima banda anglo-hindu Asian Dub Foundation, de multiplicidade sonora rap-dub-rock-étnico. O ADF se apresenta antes do set do fantástico Audio Bullys, na noite de 24 de setembro. O ADF tocou em 2001 em Recife e São Paulo, dentro do Abril Pro Rock.




FUTEBOL

* Você viu que na Europa começou a Copa dos Campeões, não? Nossas terças e quartas à tarde (e as madrugadas) estão salvas.

* Fora isso, estréia no final do mês na Europa o filme "Goal", as aventuras de um garoto mexicano que, mesmo ilegal na Inglaterra, ganha a chance de jogar no Newcastle United, time tradicional da primeira divisão. Sem contar as participações do craque francês Zidane e da beldade David Beckham, "Goal" tem ótima trilha sonora. A inédita e lindona "Who Put The Weight of the World on My Shouders?", do Oasis, e "Yes Please", nova do Happy Mondays, estão no filme e estarão em disco, a ser lançado no próximo dia 3 no Reino Unido.

Fanático por futebol, Noel Gallagher deu ainda à trilha, além da inédita que já roda a internet, duas novas versões remixadas de músicas famosas do Oasis: "Morning Glory Dave Sardy Mix" e uma mexida do Unkle para a fofa "Cast No Shadow".




A COISA DO IPOD

Primeiro de tudo. Eu não vou comprar o iPod Nano. Não vou comprar. Não vou. Não vou. Não vou.

* segundo, é assim: eu não recebo poucos e-mails de leitores me ench... reclamando de alguma coisa. São muitos. O campeão recente das broncas é meu texto sobre o ótimo e importante e esperto e staili grupo paulistano Cansei de Ser Sexy. Na cola das insatisfações, vêm as acusações de baba-ovo de iPod. "O que você tanto vê em iPod?", diz centenas. "Tenho um MP3 player com 3 milhões de GB com despertador que é muito melhor que qualquer iPod", fala outra centena.

Então, se é que realmente interessa o que eu penso sobre iPod, o que eu penso é o seguinte:

A coisa é simples assim. No maravilhoso mundo da revolução digital, da nova ordem musical, nos anos dourados da internet, existem os tocadores de MP3. E existe o iPod. Tem tocador mais barato, mais caro, mais potente, com mais recursos. Mas o iPod é o iPod.

O iPod, o aparelhinho branco de fone branco da Apple, é fashion, é moderno, é bonito, é companheiro, é namorado, é pop, é desejado, conversa bacana com seu computador, já rompeu casamentos, já foi usado em casos de espionagens, em desfiles de grifes famosas, já evitou suicídios, teve o uso proibido entre os soldados americanos no Iraque, virou balada na noite, virou celular, tem uma revista sobre ele, tem livros sobre ele, tem milhares de blogs e sites sobre ele.

O U2 fez o iPod U2, o Harry Potter tem o iPod Harry Potter. A Madonna, o Moby, o White Stripes e a Alanis têm contratos com o iPod.

Um risquinho no iPod pode causar depressão. Tem gente que risca o iPod de propósito para transformá-lo em vintage. E vende.

O iPod já está interferindo na raça terrestre, dizem. Existem os seres humanos e existem os ipoders, ou ipodpeople.

Mas o que é que esse iPod tem tanto de especial assim?

Ah, sei lá!

* Estreou semana passada em Santiago um filme chamado "Play". Cinema chileno fazendo fama nos festivais americanos. Parece que conta a história de uma garota solitária, com um trabalho triste, que encontra "vida" ao achar uma maleta de um desconhecido. E passa a procurar esse cara e a usar as coisas dele que estavam dentro da maleta, para reconstruir a personalidade e saber como o sujeito era. Dentro da maleta tinha um iPod.

* Os grandes jornais britânicos passam por uma reformulação revolucionária, que chega às bancas em outubro. Dizem que vai ser o futuro do jornalismo. Consiste em diminuir o tamanho dos exemplares diários, que são bem grandes. Os gigantes "Times" e "Independent" vão oficialmente virar tablóides. A notícia é que o outro gigante, o "Guardian", o melhor jornal do planeta, vai caber agora "numa bolsa de mulher" de tão pequeno. O editor do "Guardian", Alan Rusbridger, afirmou que o jornal vai ficar bem pequeno, mas mais moderno, mais funcional, mais bonito, mais elegante. "O novo 'Guardian' vai ser como um... iPod".

* A cantora Maria Rita reuniu a imprensa nesta semana para falar sobre seu novo disco, pá. Em alguns dos "pacotes" entregues aos jornalistas estavam o CD, em si, um DVD e um... iPod Shuffle. Carregado com o disco da Maria Rita. "É que jornalista não tem tempo de ouvir CD, então demos o iPod para facilitar", foi a justificativa.

* Faixa colocada entre postes em algumas ruas do bairro de Higienópolis, em São Paulo. "Google, o seu iPod e a espiritualidade. Telefone xxx-xxxx"

* Não. Não vou comprar o Nano.




OLHA O INDIE!

Que beleza. O distinto grupo de rrrrrrrrock paulistano Forgotten Boys ganhou capa na "Ilustrada" (Folha), para coincidir com o lançamento de seu novo e caprichado disco "Stand by the D.A.N.C.E". No mesmo dia, o "Caderno 2" (Estado) dava primeira página para o grupo punk Periferia S/A e destacava ainda o conhecido rock-tropicalista Skywalkers. O grupo feminino Verafisher está indo fazer show na França. Todos os discos do "inglês" Cansei de Ser Sexy vêm a tona a partir do próximo dia 15. O sorocabano-londrino Wry, banda para qual o espetacular grupo inglês Rakes já abriu, vem aí em turnê nacional. E o poderoso segundo álbum do Los Pirata está saindo do forno.




LIBERTINES VIVE

Apesar da turbulência toda e de Pete Doherty, o grupo inglês Libertines não só está bem vivo como já mostrou quatro novas músicas para sua gravadora, que se entusiasmou demais com o que ouviu. O "iluminado" Carl Barat e amigos vêm aí com disco novo, em breve.




POPICES

A revista inglesa "Q" soltou mais uma de suas famosas listas, desta vez a que aponta as principais canções britânicas de todos os tempos, tal. "A Day in the Life", dos Beatles é a número 1. Em terceiro, "Wonderwall", do Oasis. O Oasis é o primeiro a repetir canções em alto posto. "Live Forever" pegou 11º. O Radiohead só vai aparecer em 40º, com "Karma Police". Da nova música, tem Coldplay em 20º ("The Scientist"), The Streets ("Dry Your Eyes"), em 25º, Franz Ferdinand ("Take Me Out"), em 34º, Libertines ("Time for Heroes"), em 42º e Kaiser Chiefs ("I Predict a Riot"), em 43º. //As preces da coluna da semana passada foram ouvidas. O documentário "The Devil and Daniel Johnston" vai passar no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, que começa semana que vem.

Daniel Johnston// A imprensa americana bota os olhos no novo disco do Death Cab for Cutie, na linha "agora vai". A música "Soul Meets Body" é legalzinha. A banda está toda hora no "OC". Mas...// Acho que o Fischerspooner e aquele Brazilian Girls estão vindo aí.// No meio de todo esse evento que está sendo a volta do Prodigy, por causa da coletânea e tudo, a banda tocou nesta semana nos estúdios da BBC. Na sessão os caras vieram com uma versão crua do hino demoníaco "Firestarter", menos eletrônico e mais rock, que deu medo.




CAUSOS DAS FILAS

Dava para escrever um livro sobre as histórias vistas e ouvidas nas filas para a compra de ingressos para os shows do super-semestre. De todas as que eu recebi, eis algumas:

* "Na quinta fui a um posto de gasolina em Botafogo credenciado para comprar o ingresso para os Strokes e não tinha chegado. De lá andei três quarteirões, peguei um ônibus, saltei dois bairros depois na Lagoa, em outro posto tão credenciado quanto aquele e tão sem receber também. Já chovia, e andei uns cinco minutos até um ponto para chegar atrasado na aula que começava às sete da noite, dois bairros adiante, na Gávea. Passei na secretaria, sem esperança, só para ver se o prazo da minha carteirinha de estudante chegar não tinha se reduzido de dez para dois dias. Não. Acordei gripado, sem ingresso, fui para o trabalho, trabalhei, descobri que amigos tinham conseguido comprar em outros lugares, recebi um email da faculdade: o prazo para a carteirinha diminuiu de dez para três dias. Saí do trabalho, engoli um almoço, passei na faculdade, fui para Copacabana de carteirinha, encontrei uma fila gigantesca na loja de disco credenciada a vender, liguei para um amigo para saber se era aquilo mesmo, ele me mandou para um posto pertinho de casa e mais perto da faculdade do que a loja de discos. 'Vai que lá é sempre vazio.'

Três bairros depois, não está vazio. A fila é grande, mas menor que em Copacabana. Não chove. Uma hora e meia. Compro meu ingresso. Meu meio ingresso. O vendedor diz que tá acabando, não chega até amanhã."

* "A fila estava sensacional. Uma baladinha Atari, se não fosse três da tarde de uma sexta-feira que começou nos 18 graus e foi parar nos 30. Eu tinha exatamente três casacos na mão e um cachecol entulhado na bolsa. Mas indie que é indie não perde a pose, e, mesmo suando, todos permaneceram lá, com seus modelitos de inverno londrino.

Na minha frente, três fãs fofos do Whitesnake. Eram zoados o tempo todo pela galerinha Strokes, mas eram adultos e fofos o suficiente para rir disso. E deram um banho de inveja na galera quando contaram que tinham acabado de assistir um DVD ao vivo do Arcade Fire em um show na Bélgica. Ou Bruxelas. Sabiam até nomes de algumas músicas e, apesar de terem achado 'parado' demais, gostaram da banda por tocarem 'muito'. Ganharam confiança da fila e passaram a ser respeitados. E...acabaram comprando ingresso pro TIM! Democracia de fila, aliás, é o que há. Sempre tem uma tiazinha desavisada que decide comprar ingresso pro 'Fantasma da Ópera' nestes dias. E daí acha que a gente está na fila para pegar autógrafo de alguém. A que entrou atrás de mim tinha certeza que ia ver um show de graça lá dentro. E tem ainda aquela menina com sotaque carregado louca pelo Daniel, um fã isolado de Renato Russo comprando ingresso para o Nando Reis etc.

Uma hora e meia depois, quase chegando no balcão, ainda consegui ver uma menina chorando porque não aceitaram a carteirinha dela. A moça da Fnac, com toda a paciência do mundo, berrava: 'Atenção, não aceitamos carteirinhas de cursos de iNdiomas!'. Passei o resto do dia falando iNdiomas. A fila da Fnac Paulista é inusitada e com certeza a mais jovem. Mutirões saíam do Objetivo e atravessavam a Paulista e paravam na fila. E, de repente, olhando para trás, já tinha mais de 30 pessoas atrás de mim. Em segundos.

A fila fica literalmente cortando a calçada da Paulista, e todo mundo que passa entre a fila quer saber o que está acontecendo.

Claaaaaaaaaro, o papinho geral na fila é que 'Arcade' vai ficar pop demais, vai perder a graça como aconteceu com o Bele & Sebastian. Afinal, 'depois que começa a tocar na rádio, já era'. Putz. E essa mentalidade --e eram jovens!!!!!!-- me deixa com muita preguiça. Eu era a única ali tentando convencer um Atari inteiro que era legal, sim, ter os caras na rádio. E ter os caras na MTV e ter os caras ao vivo. Mas não: cada um deles tinha uma bandinha favorita de algum lugar perdido no mapa. E se orgulhavam disso: 'Ninguém conhece, e eu já curto há uns três anos'. Tô ficando velha."

* Fnac da Paulista, quinta-feira, 21h30. Na fila, gente para comprar ingresso de tudo: Avril Lavigne, Tim, Judas Priest, Megadeth, Moby. A fila já saia da escada da loja e avançava um pouco no quarteirão. Frio danado, vento cortante. Saio do final da fila e resolvo perguntar se aceitam cartão de débito na compra dos ingressos. Eis que uma funcionário me diz, 'Sim, aceitamos, mas depois daquele cara ali, ó, ninguém mais vai comprar'. Tinha um segurança de microfoninho-Madonna no meio da escada, plantadaço.

Voltei pra fila, contei para o povo, ninguém acreditou. Desceram correndo para perguntar se era aquilo mesmo. Era. Mas resolvemos: 'Ninguém sai, ninguém sai'. Eu resolvi ficar para ver no que ia dar.

O povo voltou indignado para fila. Tinha gente gritando: 'Vocês não sabem com quem estão falando, eu sou jornalista!!!' Outros: 'É essa a conveniência que eles oferecem, que a gente espere no frio e não seja atendido?'. A reclamação era unânime: por que o tiozinho segurança não avisava um por um que não ia rolar ingresso a partir de dado ponto da fila, já que a loja ia fechar? Ou por que não distribuíram senha para a galera? Rolou panelaço geral. A porta automática da Fnac foi fechando pontualmente às 22h. A fila inteira correu para passar por baixo. Uns seguranças até tentaram uma barreira, mas não rolou. O povo foi entrando tipo aquela brincadeira de passar por baixo da cordinha. Eu inclusa. Lá dentro pedíamos a gerente, que chegou puta da vida para dizer que tínhamos, sim, sido avisados. 'Mentira!!!!', gritava a galera. 'Eu tenho uma base de dados com 25 mil pessoas. Vocês vão se ferrar!', falava um ser. Conclusão: diante das quase 30 pessoas que conseguiram passar por baixo da portinha, dizendo 'Ninguém sai', ela resolveu reabrir um caixa e vender pra gente. Mas não arredava em dizer que tínhamos sido avisados. E eu digo: 'Mentira!'."

* "Cheguei às 10h, quando abriu a Fnac. A fila já estava formada desde as 9h. Um amigo de uma menina que estava na minha frente, quando comprou o ingresso, veio correndo, colocou o ingresso grudado ao ouvido dela e falou: escutaaaaa! Aí beijou o ingresso e eles se abraçavam. Enquanto isso, passavam uns meninos vestidos meio social, com blazer, tipinho intelectual e gritavam: 'Tudo isso por causa da bosta dos Strokes?'. Outra menina estava com uns amigos do cursinho que nunca tinham ouvido falar dos Strokes. Aí ela e algumas amigas começaram a cantar as músicas para eles. E eles: 'Nunca ouvi, deve ser legal'. Que mundo eles vivem?"




PREMIAÇÃO DA SEMANA

Aê. Você quer uns prêmios "crasse". Então, mandando e-mail solicitosos para lucio@uol.com.br, você pode meter a mão em:

* Um CD do Forgotten Boys, "Stand by the D.A.N.C.E."

* Um CD do Mercury Rev, "Secret Migration", da atração do CRF.

* Outra cópia do CD "This CD Is on Fire", bootleg raríssima dos Strokes, com demos de 2000, espetacular Peel Session, inéditas ruins de doer, canções ao vivo do Hawaii e versões diferentes de músicas conhecidas. Repeteco, porque foi campeão de pedidos.

* Uma camiseta I Love Paris, da Paris Hilton.

* Um exemplar do delicioso livro "Disparos do Front da Cultura Pop", coletânea dos textos do crítico inglês Tony Parsons, um pré-Nick Hornby.




A LISTA DE SCHINDLER

* Um par de ingressos "casados" para o Curitiba Rock Festival, no final do mês.. Um para o sábado (Weezer), outro para o domingo (Mercury Rev).

- Diogo Berlinatti
São Paulo, SP

* Um kit Slipknot, que tem CD, DVD e dois (2) ingressos para o show do dia 23 de setembro, no Anhembi.

- Tarciane de Oliveira Almeida
São José dos Campos/SP

* CD bootleg dos Strokes
- Patrícia Motta Lima
Belo Horizonte, MG

* CD "Secret Migration", do Mercury Rev
- Sílvio Godoy
Porto Alegre, RS




TÁ BOM?

Ou não?

Especial
  • Erramos: Juventude sônica
    Lúcio Ribeiro, 41, é colunista da Folha especializado em música pop e cinema. Também é DJ, edita a revista "Capricho" e tem uma coluna na "Bizz". Escreve para a Folha Online às quartas.

    E-mail: lucio@uol.com.br

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