Pensata

Lúcio Ribeiro

26/05/2006

O final de Lost e o começo da rave

"You all everybody
You aaaaaaall everybody"
Charlie, em... "Lost"

"Your daughter is so fine to see
Unraveled some mystery in me
When I see the apple in disguise
Oh my love I can recognize"
Wolfmother, em "Apple Tree"


Atenção, atenção.
No final da coluna, o final de "Lost". O especial de duas horas de duração que encerrou a temporada passou quarta, nos EUA. Mas metade dos fãs brasileiros da séria já havia assistido na quinta-feira à tarde. Em três palavras, vou descrever como acabou tudo. Esteja avisado.

* Mudei de idéia. Vou botar as três palavras agora mesmo: "brasileiros na neve".

* Na internet existe um programinha para Windows que simula o contador de tempo do computador do seriado. Para quem não acompanha "Lost", há um computador em um abrigo sinistro da ilha no qual é preciso inserir uma senha a cada 108 minutos, sob o risco de...

* Enquanto o Tim Festival dança na mão de Thom Yorke e pensa em ser em setembro (Kasabian, Devendra Banhart e ADULT.?). Enquanto o Claro Que É Rock pode nem acontecer. Começa a tomar forma o Curitiba Rock Festival. A deliciosa banda inglesa de electro-rock Ladytron é o primeiro nome confirmado no festival paranaense, que acontece em meados de julho. Com o Brasil campeão ou não.

* Então. Aumentei o volume para ouvir o novo disco do Primal Scream e, de novo, não rolou (não rolou o disco. Com o volume está tudo certo). Vou tentar mais.

* A Nova Zelândia guarda o melhor filme de terror dos últimos tempos. Tem o genial nome de "Black Sheep" e é, sim, sobre ovelhas. Ovelhas assassinas. Experimentos científicos em ovelhas dão errados e primeiro morrem as vacas. Depois partem para os humanos. Dizem que a galera neozelandesa está de saco cheio de o país ser reconhecido como a terra das ovelhinhas branquinhas e fofas, dessas que são bonequinhos em lojas para turistas. E aí resolveram mudar essa história.

* Cannes vaiou o filme "Marie-Antoinette". Como pode alguém vaiar um filme da Sofia Coppola, com Kirsten Dunst no elenco e que tem Strokes, New Order, Gang of Four, Kevin Shields, Air, Cure e Aphex Twin na trilha?

* México lindo. Balada forte, Nokia Trends mostrando que o "trend" é indie, aquilo que já sabia, mas agora tem assinatura forte. Art Brut quebrando tudo, Kasabian insano e Rapture matador. Os dois últimos vêm com disco de inéditas em setembro. As músicas novas de ambas as bandas, tocadas no México, apontam para dois discaços, deu a impressão.

* Popload Brasil Tour 2006. Nesta quinta gelada, tem a fervida noite Rock Fellas, no Vegas. Terça que vem, dia 30, a balada é em Ribeirão Preto, no Bronze Night. Antes do Bronze, rola uma palestra deste colunista nas Faculdades Coc, na semana da comunicação lá. Na sexta, dia 2, discotecagem especial no aniversário do Vegas. O set rola na boate Balneário, uma casa de "serviços" ao lado do clube, que na mesma noite estará recebendo os DFA. No Balneário, tocam ainda os Feichecleres e os DJs Aldo e Focka. Antes da festa, tem som residente deste colunista no Studio SP, em festa armada pela banda Jumbo Eletro. Na semana que vem, a Popload estará conferindo o festival Porão do Rock, em Brasíla. Mas discotecagem mesmo só acontece na capital federal no dia 10, no Landscape Pub.

* Tem mais umas coisas. Vem aí.

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O BRASIL E A "NEW RAVE"

É mais ou menos assim. O recente rolê do Bonde do Rolê pela Europa causou comoção. Na sueca e gelada Estocolmo, o show da banda curitibana de funk carioca (a piada não-piada é sempre a mesma, mas é exata) deixou a parede suando. Apareceu em alguns blogs que o DJ (Rodrigo) Gorky está sendo considerado o novo rei da Suécia pelos indies locais.
Na inglesa Brighton, em uma noite de segunda chuvosa com tudo para dar errado, o show no clube Audio bombou. A descrição foi assim: "baile funk chaos party animals".
Em Londres, tocaram na festa da modernosa revista "Vice" e o teto parecia que ia cair (o show foi no segundo andar). Puro hype. Segundo testemunhas, parecia letra de música do LCD Soundsystem.
A música bagaceira "Melô do Tabaco" é hit em programas de DJs como Huw Stevens e Rob da Bank, na Radio One (BBC).
Sábado passado, no "brasileiro" Barbican Centre, na edição Tropicalia Remixed, depois do show o Gruff Rhyes, da banda indie Super Furry Animals (Tim Festival 2003), declarou que o Bonde do Rolê é sua banda favorita, tanto quando da "Rolling Stone" e do Ben Ratcliff ("NY Times").
Em um dos shows de Londres, a poposudinha M.I.A. subiu ao palco para ajudar a Marina Ribatski, vocalista do Bonde, que estava quase se enforcando com o cabo do microfone. Em outro momento durante a mesma apresentação, Marina circulou no ar pela pista de dança, carregada de mão em mão pelo público.
Próxima parada do Bondê: turnê de quase 30 shows em julho por EUA e Canadá, com o DJ americano Diplo e a turma-banda paulistana Cansei de Ser Sexy, que está para ter seu disco lançado pela Sub Pop, de Seattle, e um provável single com remixes de Spank Rock e Death from Above 1979, celebridades do underground na rota EUA-Canadá.
Enquanto isso, e de volta a Londres, o baterista Paul Thomson, do Franz Ferdinand, implorou por um ingresso para ver os Mutantes, no Barbican. Já os pernambucanos da Nação Zumbi, outra banda que está na barca brasileira na Inglaterra, gravou o famoso programa do britânico Jools Holland, junto com Paul Simon, David Gilmour, The Streets e Elvis Costello. No final das gravações, Elvis Costello veio dizer à banda que ficou impressionado.
Agora, nada a ver, mas tudo a ver, tem isso: há um sensacional movimento chamado "new rave", que mais ou menos começou com o punk funk de Rapture e LCD Soundsystem (Nova York, circa 2001) e agora está sendo reformatado na Inglaterra como "rock para festas". Bandas como Klaxons, ShitDisco, Xerox Teens misturam tudo ao rock, de sirenes a bagunças eletrônicas de todo o tipo, lembrando o Prodigy no começo. Tudo isso com uma certa congruência com o caráter dance de bandas como o Franz Ferdinand e político de grupos do novo rock inglês, que na rota virtual (internet, iPod e MySpace) são mais famosos que U2 e Stones..
Essa movimentação festeira e underground está sendo bancada por revistas festeiras e underground como a mesma "Vice" supracitada. Tem até um fotógrafo, Craig Cowling, 24, conhecido como Naughty James e já famoso por imagens que misturam o fashion e o "grotesque", que registra a cena toda.
E o Bonde do Rolê, em festa da "Vice", conhece Naughty James. Junto com Diplo e M.I.A, já estão adotados pelo movimento, para integrar a ala funk da "new rave".
É o que eu digo, principalmente em tempo de Copa: Brasiiillll!


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RADIOHEAD, LONDRES

Reinaldo Giacometti, leitor da coluna, conseguiu ingresso para um dos disputadíssimos shows no Hammersmith Apollo, que aconteceu no último dia 18. E conta o que viu:
"Cerca de 4 mil pessoas vendo a banda mesclar no setlist sucessos tipo 'Karma Police' e 'Idioteque' com músicas do futuro novo álbum, que ninguém sabe na verdade se vai ser um álbum ou apenas singles, como a imprensa britânica andou noticiando nos últimos dias. No total foram 7 músicas novas. Destaque para 'Arpeggi', '15 Step' e 'Bangers and March' (nessa última o Thom toca bateria no final).
O palco tem um cenário bem esquisito, assim como o Radiohead. São espalhadas dezenas de minitelas que ficam projetando imagens das câmeras que filmam o show. O detalhe é que as câmeras focalizam os rostos-mãos-pés dos integrantes (não necessariamente nessa ordem). Antes do show só rolou música eletrônica no sistema de som, tipo Diplo, Gnarls Barkley e Tiga. Seria um indício do que vem por aí no novo álbum? Para finalizar, e para surpresa de todos, eles não tocaram 'Paranoid Android'. Aí um fã na platéia deu um p*** berro. O Thom mandou um 'Shuuuttt uuuppp, guy!', e saiu. Foi assim (resumidamente) a volta do Radiohead a Londres".




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WOLFMOTHER - THAT 70'S SHOW

Nas voltas que o pop dá, paramos no Wolfmother, trio australiano que é a nova atenção do rock nos EUA e na Europa (e aqui, no reflexo). Mas, se ouvir bem, o grupo parece uma veterana banda do hard rock inglês dos anos 70, uma espécie de quarto pilar do "quarteto mágico" da turma de Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin.
É isso: eles são mais Led Zeppelin que o White Stripes. Eles são (estão) mais Led Zeppelin que o Led Zeppelin. E seu disco de estréia chega ao Brasil nos próximos dias.
"Prioridade" da Universal, a banda de Sydney saiu do último festival South by Southwest, no Texas, com o selo "vocês precisam ver esses caras". Na seqüência, a "Rolling Stone" os colocou como uma das "dez bandas para não tirar o olho".
O zunzum em cima do grupo é grande. Tendo à frente o figura Andrew Stockdale, vocalista e guitarrista branco de cabelo black power, que tem voz de um jovem Ozzy Osbourne e dedos de Jimmy Page, o Wolfmother atualiza os anos 70 para a geração MTV-iPod.
Se traçar uma linha temporal neste tipo de rock, você tem Black Sabbath-Nirvana-Queens of the Stone-White Stripes-Wolfmother. É velho e novo ao mesmo tempo. Hard rock, grunge, metal, stoner e moderno, tudo junto.
O ouriço em embarcar no som do Wolfmother é tão grande que, aqui no Brasil, a Universal botou um selo com recomendações gringas ao álbum e um daqueles "incluindo o sucesso 'Woman', como se a música estivesse em trilha de novela, tocasse em rádio, a MTV passasse o vídeo em alta rotação.
Sobre o "boom", o disco de estréia, o novo e o velho e até bossa nova, Stockdale conversou com este colunista na semana passada, por telefone, de Toronto (Canadá). Nem bem o disco saiu no exterior, o Wolfmother está no meio de uma turnê que está prevista para acabar no final de agosto, na Bélgica.
"Estou testando minha capacidade humana de adaptação às mais diversas situações. Nesta hora, no ano passado, o mais longe que eu ia era da minha casa a um pub australiano. Agora estou rodando o mundo. Parece que eu estava no meu sofá, pisquei e agora ele abriu aqui, no meio de uma turnê pela América do Norte e falando ao telefone com um jornalista do Brasil. Maluco isso", diz Stockdale, 29.
Led, Sabbath e White Stripes? O guitarrista tem um outro modo de descrever seu som. "Acho que a gente é tipo AC/ DC com blues e rock viajante [stoner], psicodélico, num modo existencial, seja lá o que for isso tudo. Mas, sim, nosso som tem velhos "flashes" de rock dos anos 70. Isso é um pouco comum no rock da região onde vivo. Acho que estamos presos a esses tempos", afirma o músico, se referindo a Jet, Vines, Datsuns (Nova Zelândia) e as Spazzys, bandas da Oceania com pé em rock antigo.
"Mas, ei, eu gosto de grupos de hoje também. Por exemplo, White Stripes, Kings of Leon, Mars Volta."
O disco de estréia da banda, que leva o nome "Wolfmother", chegou a 25º lugar no Top 40 inglês (saiu lá em dezembro), emplacou um grande 22º na "Billboard" americana e bateu em 11º no Canadá.
As vendas nos EUA podem aumentar, porque a Apple está usando a música "Love Train", do Wolfmother, no novo comercial do iPod.
Stockdale conta que essa carcaça de banda antiga que o Wolfmother carrega pode dar uma idéia muito contrária do que realmente a banda representa ao rock contemporâneo.
"Não sei se isso de Led Zeppelin tem que ser levado muito em conta. Nos nossos shows, por todos os lugares, o público é 99% formado por uma garotada para a qual a banda mais velha na cabeça é Nirvana. Na verdade, para esses garotos, Wolfmother é moderníssimo", diz o guitarrista, soltando uma boa gargalhada.
E termina a conversa falando do Brasil: "Eu adoraria ir tocar no Brasil. Tenho sonhos com o Rio. Sabe o que escuto quando quero relaxar? "Girl's from Ipanema". Ela é brasileira, não é?"

* Ouvir Wolfmother você também ouvirá:
Black Sabbath - Ozzy deve estar assustado. Porque não é dele a voz que está cantando "The White Unicorn", faixa sombria do Wolfmother.
Led Zeppelin - O sucesso do trio australiano, "Woman", caberia direitinho no "Led Zeppelin IV", tal a ora frenesia, ora viagem do som.
White Stripes - Quando o Wolfmother descamba para o blues, o som e o vocal remetem a Jack White, também guitarrista e vocalista, mas só que do White Stripes. "Apple Tree" ilustra isso.
Deep Purple - Esse é para a hora em que o baixista Chris Rock larga o instrumento para tocar teclados.
Queens of the Stone Age - Se o negócio é viajar, então o estilo stoner é resgatado, como em "Mind's Eye"

* Wolfmother, o disco:
Aquilo deu nisso. Um álbum caleidoscópico como esse de estréia do Wolfmother num primeiro momento confunde mesmo. É rock moderno ou é para um público mais veterano? Se é perfeito para quem gosta de Led Zeppelin, então porque os shows estão lotados de garotada com camiseta do Arctic Monkeys, Franz Ferdinand?
O Wolfmother achou o ponto. Está lavado de referências, mas tem o frescor de banda nova, com o deboche que o rock mostrou antes e também mostra agora. Músicas boas, performance ao vivo entusiasmante e a gritaria básica do tipo "Ela é uma garota. Você entende o que eu digo?". Um dos álbuns do ano, já.


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PREMIAÇÃO DA SEMANA


Está preparado para prêmios únicos. Então, segura:
* um álbum da banda inglesa Kasabian todo autografado pela banda, antes do show do México. A capa é a azul, da edição americana.
* um cinto do Red Hot Chili Peppers. Isso mesmo, um cinto, de calça.
* o CD "Stars of CCTV", da banda cool Hard-Fi, integrante do novo rock inglês que caiu nas graças do mercado americano.

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LOGO MAIS


O resultado da premiação passada, o resultado de uma promo antiga que eu esqueci de passar, mais isso e aquilo.



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Lúcio Ribeiro, 41, é colunista da Folha especializado em música pop e cinema. Também é DJ, edita a revista "Capricho" e tem uma coluna na "Bizz". Escreve para a Folha Online às quartas.

E-mail: lucio@uol.com.br

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